ESTAMIRA: UM EXERCÍCIO DE ALTERIDADE

Trabalhando o cotidiano, a trajetória de vida e principalmente as visões de mundo da catadora de lixo Estamira, o documentário dirigido por Marcos Prado é bem sucedido tanto pelas características técnicas, como o brilhante uso da fotografia, como também pelo exercício de alteridade que realiza ao encarar a pobreza, o discurso e a loucura de Estamira a partir do ponto de vista da protagonista.

Estamira

Marcos Prados deve ser um nome familiar aos que acompanham os lançamentos recentes do cinema nacional, afinal produziu quase todos os filmes do badalado José Padilha, como Tropa de Elite, Tropa de Elite II, o documentário Ônibus 174, além de ter ele próprio dirigido Paraísos Artificiais, contando com boa recepção de crítica e público. Seu debut como diretor, no entanto, é quase que completamente desconhecido, a despeito de ser um dos mais intrigantes documentários já feitos pelo cinema nacional.

Acompanhamos nas primeiras cenas a locomoção de Estamira de casa para seu local de trabalho, o lixão de Gramacho, no Rio de Janeiro, maior aterro sanitário da América Latina. A fotografia em P&B granulada, aliada à trilha dramática de Décio Rocha evoca um realismo desolador desde o momento em que vislumbramos a senhora de meia idade caminhando para o ônibus e enquanto acompanhamos seu trajeto. Chegando ao destino, no entanto, a forma de registro sofre mudanças: as cores brotam, a câmera focaliza sacolas plásticas suspensas, dançando no ar e tudo que se escuta é o tranquilizador sopro do vento. A inversão de valores brinca com nossas expectativas, com a impossibilidade, pelo menos ao primeiro contato, de associar tal sentimento à vida num aterro sanitário. Durante a primeira parte do documentário os esforços de Prado são apenas para dar vazão à peculiar forma de ver o mundo de Estamira. Ela, senhora de muita idade, clinicamente diagnosticada como esquizofrênica e trabalhadora do aterro a 20 anos, difunde quase que ininterruptamente um discurso de extrema lucidez sobre as incoerências do sistema em que vivemos.

Estamira apresenta uma cosmogonia, uma interpretação completamente original da criação de nosso universo que coloca nós, seres humanos, como o “único condicional”, pervertidos em nosso propósito de defender a seus iguais e ao planeta pelos“trocadilos”, um conceito difuso que compreende críticas ao capitalismo selvagem, ao consumismo desenfreado, à predominância do capital sobre a moralidade e o respeito humano.

article_204_460x220.jpg “Isso aqui é um depósito dos restos. Às vezes é só resto. E às vezes vem também descuido. Resto e descuido.”

Para tanto Prado alterna narração em off, enquadramentos em perfil durante as entrevistas, ou apenas passeia pelo cenário a fim de ilustrar as situações narradas. Estamira reclama para si o papel de consciência mestra, força sobrenatural, e assim a vemos. O lixão ganha ares épicos, os aglomerados de detritos se assemelham a montanhas sendo postas abaixo por tratores, visíveis apenas pelos faróis na escuridão da noite. Durante tempestades, entre a profusão de aves e sacolas cortando o céu trovejante, vemos Estamira a sinalizar, como uma guarda de trânsito a controlar o tráfego dos ventos.

O diretor acerta em não retratar a vida dos trabalhadores de Gramacho através da estética da miséria. Não há closes dramáticos em rostos sofridos nem situações visando induzir depoimentos rancorosos sobre a vida difícil. Discursos que, no limite, apenas reforçariam a visão dos que vivem numa outra ponta do sistema, numa situação de relativa segurança tão maior quanto é seu comprometimento com os ideais do mesmo. Os trabalhadores do aterro compreendem isso, e em suas falas frequentemente citam paz quando perguntados sobre as vantagens de viver ali. Inexistência de cobranças, de vigilância. A câmera, então, se restringe a ilustrar as situações evocadas pelos discursos de seus entrevistados.

Estamira não parece compartilhar plenamente dessa paz descrita pelos seus companheiros de trabalho. Em sua casa percebemos apenas a repetição dessa tensão constante entre ela e os “trocadilos”, encarnados desta vez na figura de seus filhos. Através deles conhecemos o passado dessa senhora, prostituída aos 12 anos pelo avô, duas vezes abandonada por maridos adúlteros. Por não tolerar a traição deixa a casa e sofre drásticas mudanças nas condições de vida. Quando finalmente se estabiliza numa favela, acaba por ser assaltada e estuprada repetidas vezes. Para uma filha, esses acontecimentos acabaram por enlouquece-la. Para o filho mais velho, evangélico, a mãe está possuída pelo demônio. Em reação a tudo isso, Estamira vocifera, xinga a Deus, outro “trocadilo” e aos filhos, meros ignorantes.

Em síncope passa a falar sozinha, fica paranoica, imagina perseguidores a observá-la. Seus surtos não são, no entanto, contrapostos com o discurso médico em tentativas de diagnóstico: servem para questioná-lo. Nas visitas mensais da protagonista aos CAPs, na sua enorme sacola repleta de medicamentos controlados, vislumbramos um sistema público de saúde pouco curioso com as angústias pessoais por trás das doenças dos pacientes mentais. O único esforço reside em neutralizar sintomas e manifestações, e por consequência o indivíduo. “Nos viciam nos dopantes”, acusa Estamira.

Impossível não relacionar o discurso do artista à obra de Michel Foucault, especialmente “A história da Loucura”. Através deste livro o filósofo nos mostra que o louco pode ser simplesmente alguém com um discurso radicalmente contrário ao que é estabelecido como normal, um indivíduo capaz de enxergá-lo em suas contradições, apontar com lucidez as incongruências. Estamira Gomes de Souza foi uma cidadã cristã, esposa fiel, mulher autocontrolada e cordial até o momento em que uma série de acontecimentos introduziram em sua vida o caos de uma cruel realidade. Quando a incoerência dessa nova situação a obriga a reinventar suas referências de realidade, ela constrói para si mesma uma identidade acusatória cujo sentido de existência é alertar a todos, ser a consciência do mundo. Para Prado o papel do artista é permitir que visualizemos tudo isso, sem deturpações. Afinal, “ninguém vive sem Estamira”.

Ficha Técnica: Estamira – 2004, 121 minutos. Origem: Brasil. Gênero: Documentário. Direção/Roteiro/Fotografia: Marcos Prado. Trilha sonora: Décio Rocha. Lançamento no Brasil: 28 de julho de 2006.

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