1984 – DISTOPIA OU VISIONÁRIO?

‘1984’ lidera as vendas de livros nos EUA desde a posse de Trump

Desde a posse do mandatário, “as vendas aumentaram 10.000%”, diz editora da obra de Orwell

Capas de várias edições do romance '1984', de George Orwell.
Capas de várias edições do romance ‘1984’, de George Orwell.

Quando escreveu 1984, George Orwell não pensava em uma sociedade futura, mas no presente. Sua distopia não pretendia ser uma metáfora, mas uma descrição dos totalitarismos do século XX, sobretudo o stalinismo. No entanto, este livro, escrito em 1948, se tornou novamente um ponto de referencia na era de Donald Trump, na qual a pós-verdade e os “fatos alternativos” tomaram conta da política. O romance do escritor britânico, nascido em 1903 e falecido em 1950, subiu na lista dos livros mais vendidos nos Estados Unidos na Amazon, o gigante digital do comércio online.

Um porta-voz da editora Signet Classics, que publica 1984atualmente, afirmou à rádio pública NPR que desde a posse do 45º presidente dos EUA, “as vendas aumentaram 10.000%”. Nesta quinta-feira, dia 26 de janeiro, ainda ocupava o 1º lugar na lista de best-sellers da amazon.com, com mais de 4.000 comentários.

Orwell fala em seu livro de uma novilíngua e seu protagonista trabalha no Ministério da Verdade, que se encarrega de estabelecer o que é falso e o que é verdadeiro. Os fatos são definidos pelo Estado, não pelos cidadãos. São conceitos bastante inquietantes na atualidade, em um momento em que uma das principais assessoras de Trump, Kellyanne Conway, sua chefe de campanha e atual conselheira do presidente na Casa Branca, cunhou o conceito de “fatos alternativos”, que consiste basicamente em negar as evidências empíricas, como aconteceu com o número de pessoas que assistiram à posse do presidente. Um dos comentários sobre o livro na Amazon, escrito em 23 de janeiro, dizia: “Hoje Kellyanne Conway anunciou que estava nos proporcionando fatos alternativos. São sombras de um passado que muda enquanto se controla o presente. Temos de estar preparados para a festa como se estivéssemos em 1984”.

O diretor do jornal The Washington Post, Martin Baron, recordou nesta quarta em uma conferência em Madri a relevância da obra do novelista e ensaísta britânico ao destacar que os “fatos alternativos” lhe recordam 1984: “O partido pede que você rechace o que seus olhos veem e o que ouvidos”.

O Ministério da Verdade se encarrega de estabelecer os fatos que devem ser corretos para cidadãos constantemente vigiados pelo Grande Irmão —uma das muitas instituições de Orwell no livro é a onipresença da televisão, que não serve apenas para ver, mas também para serem vistos. A novilíngua, que serve para simplificar a forma como os cidadãos se expressam e assim evitar sentimentos e pensamentos indesejados, é definida assim por Orwell no fim de seu livro: “O propósito da novilíngua não era só proporcionar um meio de expressão da visão de mundo e dos hábitos mentais dos devotos do Socing [a ideologia dominante no mundo orwelliano], mas que fosse impossível qualquer outro modo de pensar. A intenção era a de que quando se adotasse definitivamente a nova língua e se tivesse esquecido a velha língua, qualquer pensamento herético fosse inconcebível, pelo menos na medida do pensamento que depende das palavras”.

Um usuário de Internet na página da Amazon que vende edições de '1984'.
Um usuário de Internet na página da Amazon que vende edições de ‘1984’. GEMA GARCÍA

Outros conceitos cunhados por Orwell em seu romance são a polícia do pensamento, a thinkpol, duplipensar ou a mutabilidade do passado. Também descreve o que chama de “os dois minutos de ódio”, que têm profundos ecos nos venenosos discursos ou tuítes dirigidos a todos que pensam diferente ou que sejam diferentes do presidente Donald Trump. Esses “dois minutos de ódio” consistem em oferecer a todos os cidadãos a imagem do arqui-inimigo do Estado, Goldstein, que defendia conceitos aberrantes como “a liberdade de expressão, a liberdade de imprensa, o direito à reunião, o direito de opinião”.

Não é a primeira vez, nem de longe, que 1984 vive um boom por sua capacidade de refletir a realidade. Em 2013, quando se produziram as revelações de Edward Snowden sobre a espionagem em massa dos Estados Unidos, o romance também saltou para as listas de mais vendidos. No prólogo da edição espanhola, Umberto Eco escreveu: “O livro é um grito de alarme, uma chamada de atenção, uma denúncia, e por isso fascinou milhões de leitores em todo o mundo”. Certamente, nem o próprio Orwell suspeitava até onde se prolongaria a vigência de sua obra.

A OBSESSÃO PELA VERDADE

O escritor e jornalista George Orwell., em uma imagem sem datar.
O escritor e jornalista George Orwell., em uma imagem sem datar.

Nascido na Índia britânica em 1903 e falecido em Londres em janeiro de 1950, Eric Arthur Blair, George Orwell, não só foi um grande romancista, autor de duas das obras mais conhecidas do século XX, ambas sobre os totalitarismos: a distopia 1984 e a fábula nada infantil A revolução dos bichos —“Todos os animais são iguais, mas alguns são mais iguais do que outros”. Foi também um grande jornalista e ensaísta. Também escreveu uma obra autobiográfica muito importante sobre a Guerra Civil espanhola, Homenagem à Catalunha, na qual narra sua luta na frente de batalha, mas também a repressão que os comunistas teleguiados da URSS lançaram contra o POUM, o partido trotskista em que militava.

Seu relato foi marcado por uma obsessão: a verdade. De fato, como ele mesmo faz parte do relato, esta é a advertência que dá no final: “Tenha cuidado o leitor com meu partidarismo, com meus detalhes errôneos e com a inevitável distorção que nasce do fato de ter presenciado os acontecimentos de um lado. E tenha cuidado, exatamente o mesmo cuidado, com as mesmas coisas quando ler outros livros sobre este período da Guerra Civil espanhola”.

A profunda honestidade de Orwell é para muitos autores um exemplo do que deve ser o melhor jornalismo, um militante socialista que não hesita em denunciar o terror do socialismo real. Existem poucos escritores tão afastados da pós-verdade ou dos “fatos alternativos” (o que antes era conhecido como mentiras ou engodos). Em seu ensaio História do presente, o britânico Timothy Garton Ash escreve sobre Homenagem à Catalunha: “Não há a menor dúvida, nem por um instante, de que está se esforçando para ser o mais exato possível, para encontrar a verdade objetiva que sempre deve separar as platitudes das histórias e o jornalismo das montanhas mágicas da ficção”. Garton Ash cita além disso uma frase do romancista polonês Jerzy Kosinski: “Me interessa a verdade, não os dados, e sou velho o bastante para saber a diferença”.

Fonte: EL PAÍS

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