Traseiro e honra

Traseiro e honra

Países de cultura cristã conhecem bem o binômio siglar a.C. (antes de Cristo) e d.C. (depois de Cristo). O Brasil (BR) não foge à regra. Uma das primeiras ações dos exploradores portugueses foi rezar missa aos índios.

Naquele ato – imortalizado na Carta de Caminha e, depois, na pintura de Vitor Meireles (1832/1903) –, consolidava-se um dos discursos fundadores que moveriam a parti dali a Terra de Vera/Santa Cruz.

Hoje, revivemos no BR um clima de a.C e d.C. Porém, o antigo “C” corresponde agora ao “C” da Copa. Uma vez definida essa terra de tantas cruzes como a sede desse “bendito” evento, vivemos um momento de um país que é obrigado a se ver como atrasado antes da Copa (a.C) e outro que se projeta ultramoderno depois da Copa (d.C.).

Portanto, sugiro que passemos a perceber nossa história da seguinte forma: Brasil a.C.; Brasil d.C. Afinal, por cá, futebol é um tipo de religião. A Copa é a coroação do fanatismo.

Pois bem! Hoje, comento a visita do presidente da Fifa, Mister Blatter (o tratamento “sr.” é frágil para sua força planetária), que se reuniu com alguns políticos aborígines. Todos de joelho, inclusive a presidente, prometeram ao deus do futebol mundial cumprir as promessas já feitas. “Ajoelhou, tem que rezar…”

Consoante à Folha on line (17/03), “o clima era de crise antes da visita de Blatter, e por isso mesmo foi marcada pela troca de elogios explícitos e mimos”.

Ôpa! De “mimos”, entendemos bem. Lembram-se dos espelhos e outras quinquilharias dados aos nativos pelos primeiros exploradores? A estratégia de estrangeiros (chamados de “Brichote” – possivelmente British – na obra de Gregório de Matos) nos ludibriar está recolocada em nossa história de “abestados”, vocábulo bem usado na “obra” de Tiririca…

Continua a Folha: “Blatter esperou os fotógrafos adentrarem à sala para presentear Dilma com uma fotografia de um encontro entre os dois e o ex-jogador Pelé…” Além disso, o Mister rasgou de elogios o BR. Afinal, “a reunião, mais do que acertar polêmicas e problemas específicos, tinha como objetivo acenar que não há mais crise entre Fifa e Brasil”.

Crise? Por que haveria? Só porque o secretário-geral da Fifa – Jérôme Valke – dissera que o BR precisava de um chute no traseiro?

Isso! O erro do Monsieur foi pensar em maltratar nosso traseiro; ou melhor: nossa “bunda”. Se ele dissesse que precisaríamos levar um tapa na cara, tudo bem. Estamos acostumados. Mas chutar nosso traseiro?! Ah, não! Nosso traseiro é valoroso; aliás, bem mais do que nossa cara pálida.

Por isso, durante a Copa, poderíamos fazer uma campanha internacional, parodiando o slogan de uma propaganda petista: “nossa bunda, nossa honra”. Isso dá até hit de funk, com subidas e descidas, num remelexo até o chão…

Voltando aos elogios de Blatter: “eles eram protocolares até o cartola da Fifa falar que o ministro Aldo Rebelo era ‘a pessoa mais importante nessa jornada”. Para a Folha, “o afago não foi por acaso. Partiu do ministro a articulação contra o acordo firmado entre deputados (inclusive os religiosos) para tirar a liberação de bebida (alcoólica) na Copa, como forma de garantir o compromisso com a Fifa…”

Mui belo, cacique Rebelo! Agora, mire-se em seu pedacinho de espelho! Comunista pós-moderno é isso aí: libera geral. No mais, o álcool, desde o cauim, já está impregnado em nossa cultura… Detalhe: com futebol e álcool na cabeça, não o que não se esqueça…

The end: o Brasil a.C. e d.C. já é um país derrotado ética e moralmente, mesmo que a Seleção seja a campeã. A Fifa está ganhando tudo no tapetão.

*ROBERTO BOAVENTURA DA SILVA SÁ – dr. em Jornalismo/USP e prof. Literatura/UFMT

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