Sinestesia

Qual é o gosto da palavra “sinestesia” na literatura?

De distúrbio neurológico à figura de linguagem, a sinestesia cruza os sentidos, manifestando-se na vida e obras dos escritores  
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Vladimir Nabokov e sua esposa, Véra: ambos eram sinestetas

O escritor russo Vladimir Nabokov (1899-1977), em sua autobiografia A pessoa em questão (1994), relatou que, quando criança, via cada uma das letras do alfabeto em uma cor distinta, por isso ficou muito perturbado quando ganhou uma caixa de letras coloridas e viu que quase todas eram da cor “errada”. Sua mãe concordou que as cores estavam erradas, mas sua opinião sobre a cor certa para cada letra não coincidia com a do filho. Ambos tinham sinestesia, um distúrbio neurológico que também esteve presente na esposa de Nabokov e no filho do casal.  Não é para menos que o autor criou vários personagens sinestetas. A manifestação, ligada aos diversos sentidos do ser humano (auditivo, olfativo, visual, tátil e paladar), pode acentuar a criatividade, levando o pensamento e imaginação para outras direções. Também vai além do distúrbio neurológico, entrando na literatura como um recurso linguístico para multiplicar o sentido de uma história.

A palavra sinestesia vem do grego: “syn” tem o sentido de “união”, e “esthesia” significa “sensação”, ou seja, a união de diferentes sensações. O distúrbio faz com que o estímulo de um sentido cause reações em outro. Em Alucinações Musicais – relatos sobre a música e o cérebro (2007), o neurologista Oliver Sacks explica que a sinestesia, aparentemente, acompanha um grau incomum de ativação cruzada entre áreas do córtex sensitivo que, na maioria de nós, são funcionalmente diferentes. Essa ativação cruzada poderia basear-se em um excesso anatômico de conexões neurais entre diferentes áreas do cérebro.  Em outras palavras, a maioria das pessoas recebe os estímulos externos e os processa em paralelo no cérebro, porém, nos cérebros dos sinestetas, os caminhos se cruzam, confundindo o processamento da informação.

O primeiro registro do distúrbio, na medicina, aconteceu em 1922, com uma criança de quatro anos. Já o primeiro relato descrevendo a sinestesia foi do filósofo inglês John Locke, em 1690. Em um ensaio sobre o entendimento humano, Locke narrou o caso de um cego que tentou representar os objetos visíveis e percebeu que a sonoridade emitida por uma trompa, para ele, tinha a tonalidade vermelha. Alguns historiadores, no entanto, afirmam que o primeiro registro seria do filósofo grego Aristóteles, que escreveu o paralelismo entre “aquilo que é agudo ou grave ao ouvido e aquilo que é áspero ou suave ao tato”.

Já foram catalogados mais de 60 tipos de sinestesia, mas as causas ainda são desconhecidas – sabe-se apenas que a genética tem influência. O distúrbio ocorre em quase 4% da população e, a mais comum, é o tipo “grafema-cor”, que se manifesta como uma ligação entre letras e cores, fazendo com que o indivíduo associe a letra “A” à cor vermelha, por exemplo. Por outro lado, existem os casos raros: recentemente, em uma matéria publicada pela Vice, James Wannerton deu um relato um tanto atípico sobre sua relação sensorial com o mundo. Para cada palavra, James sentia um gosto diferente: por exemplo, a palavra “falar”, durante toda a sua vida, sempre teve gosto de bacon. Isso acontece quando a audição e paladar não funcionam separados um do outro, o que caracteriza a sinestesia léxico-gustativa.

Oliver Sacks aborda com mais ênfase a sinestesia musical, especialmente os efeitos de cor experimentados quando se escuta música. O autor exemplifica contando o caso do compositor contemporâneo Michael Torke, “profundamente influenciado por experiências com música colorida” (p. 168): “Desde que ele era pequeno, as cores têm sido constantes e fixas, e aparecem espontaneamente. Nenhum esforço da vontade ou da imaginação pode mudá-las. Parecem-lhes completamente naturais e preordenadas. E são muito específicas. O sol menor, por exemplo, não é simplesmente ‘amarelo’, mas ‘amarelo ocre’. O ré menor é ‘como sílex, grafite’, o fá menor é ‘cor de terra acinzenta’ […]” (p. 169).

A sinestesia é inerente à literatura, pois confere ao indivíduo uma capacidade de perceber com mais sensibilidade o que está ao seu redor, compartilhando em detalhes o que observa, utilizando expressões que poderiam ter saído de um livro de poemas. Não à toa, a palavra “sinestesia” também é utilizada, no meio literário, para se referir a uma figura de linguagem, conferindo originalidade, emotividade ou poeticidade ao discurso. É comum haver uma expressão para descrever contextos literários nas quais distintas imagens sensoriais se relacionam, podendo essas sensações ser físicas (paladar, audição, visão, olfato e tato) ou psicológicas (subjetivas). É uma espécie de metáfora.  Exemplo: a expressão “ruído áspero”, que relaciona dois sentidos, a audição e o tato.

Essa figura de linguagem é usada desde a Antiguidade Clássica, mas entrou na moda no século 19 – de acordo com Sacks, no início do século, John Keats (1795-1821), Percy B. Shelley (1792-1822) e outros poetas “usavam mirabolantes imagens e metáforas intersensoriais”, “parecia que a sinestesia era apenas um arroubo poético ou imaginativo” (p. 177). No final, com os poetas simbolistas, com ênfase para o franceses Charles Baudelaire (1821-1867) e Arthur Rimbaud (1854-1891), o conceito poético da sinestesia foi mais influente do que o neurológico – os estudos científicos sobre o distúrbio tiveram avanços ao longo da década de 1980 e se popularizaram nos anos 90.

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Rimbaud: mestre das construções sinestésicas

Os escritores simbolistas expressavam suas ideias, sentimentos e valores de maneira implícita, propondo um retorno ao subjetivismo, à sugestão sensorial, em oposição à objetividade científica, ao materialismo predominante na Europa na metade do século 19. O simbolismo também se caracterizou pelo misticismo e religiosidade, o desejo de transcendência, pessimismo, interesse pelo inconsciente e subconsciente, por elementos da tradição romântica e assuntos como a morte e condição humana. Além da sinestesia, o movimento também usava símbolos, imagens, metáforas, recursos sonoros e cromáticos, com a finalidade de exprimir o mundo interior, intuitivo. A poesia era, ao mesmo tempo, afetiva e cognitiva. Como afirma Maria de Souza na dissertação Sinestesia e indeterminação na poesia rimbaudiana traduzida para o português (2009, p. 23-4):

Ao buscar o “eu profundo” os simbolistas penetravam as camadas inconscientes anteriores à fala e à lógica, onde estão alojadas as experiências fluídas e vagas e que somente são reveladas por meio de devaneios e alucinações. Então, o problema dos simbolistas era exatamente como proceder para trazer essas vivências profundas para o plano consciente e buscar formas de exprimi-las e de comunicá-las. Os simbolistas acreditam no desregramento dos sentidos e da sexualidade, na liberdade de emoções e alucinações que liberam a imaginação. Então, “as palavras poéticas transformam-se em símbolos de vivências místicas e sensoriais, indizíveis, mas passíveis de ser evocadas, sugeridas por meio de metáforas, analogias e sinestesias.” (PLINVAL, 1978, p. 200).

A descrição desenvolvida por Baudelaire, um dos precursores do movimento simbolista, para a sensação provocada pela ingestão de haxixe vem a calhar para explicar a sinestesia: “O olfato, a visão, o ouvido, o tato cooperam igualmente”, e “os sons se vestem de cores e as cores têm música”. Outro grande nome é o do Rimbaud. Considerado mestre das construções sinestésicas na linguagem poética e da indeterminação, conseguia multiplicar o sentido do texto – seus poemas são cheio de referências a cores, associando significados a partir das diferenças entre cores, sons e sensações. O poeta reivindicou para si a invenção da cor-vogal: “Eu inventei as cores das vogais […]. Eu determinei a forma e o movimento de cada consoante e, com os ritmos instintivos, eu me orgulho (flatter) de inventar uma linguagem poética acessível, um dia ou outro, a todos os sentidos.” Vogais, logo abaixo, evidencia bem essa característica rimbaudiana.

VOGAIS
(Tradução de Ivo Barroso)

A negro, E branco, I rubro, U verde, O azul: vogais,
Um dia hei de dizer vossas fontes latentes:
A, negro e veludoso enxame de esplendentes
Moscas a varejar em torna aos chavascais.

Golfos de sombra; E, alvor de tendas tumescentes,
Lanças de gelo altivo, arfar de umbelas reais;
I, púrpuras, cuspir de sangue, arcos labiais
Sorrindo em fúria ou nos transportes penitentes;

U, ciclos, vibrações dos mares verdes, montes
Semeados de animais pastando, paz das frontes
Rugosas de buscar alquímicos refolhos;

O, supremo Clarim de estridores profundos,
Silêncios a esperar pelos Anjos e os Mundos:
– O, o ômega, clarão violáceo de Seus Olhos!
*
A estrela chorou rosa ao fundo de tua orelha
O espaço rolou branco entre a nuca e o quadril
O mar perolou ruivo a mamila vermelha
E o Homem sangrou negro o flanco senhoril.

 

Bibliografia:

BASBAUM, Sérgio Roclaw. Sinestesia, arte e tecnologia: fundamentos da cromossonia. São Paulo: Annablume / Fapesp, 2002. Disponível aqui.

RIMBAUD, Arthur. Poesia completa – tradução, prefácio e notas de Ivo Barroso. Rio de Janeiro: Topbooks, 1995.

SACKS, Oliver. Alucinações musicais – relatos entre a música e o cérebro. São Paulo: Companhia das Letras, 2007.

SOUZA, Maria das Neves Augusto Alencar. Sinestesia e indeterminação na poesia rimbaudiana traduzida para o português. Fortaleza: Universidade Federal do Ceará, 2009.

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