REPRESENTAÇÕES FEMININAS Roteiristas de ficção e publicidade estão revendo as representações de grupos femininos


REPRESENTAÇÕES FEMININAS

 

Roteiristas de ficção e publicidade estão revendo as representações de grupos femininos

22 JUL 2020 | ALÉM DO GÊNERO

POR GLOBO

Em 1985, a historiadora americana Marylin French espantou a academia ao informar o uso errado que todos fazemos da palavra matriarcado.Em seu "Beyond Power: On Women, Men and Morals" (Ballantine books) French explica que a palavra "matriarcado" não significa o contrário, ou o oposto de patriarcado. Muito pelo contrário. Por conta do radical grego "arche", que forma as duas palavras, ambas querem designam uma mesma estrutura social, baseada no exercer o poder sobre o outro.

O radical grego "arche" significa "poder sobre". As sociedades em que mulheres gerenciam os arbítrios, hoje raras, porque gradualmente substituídas pelo modelo patriarcal, não exercem, nunca exerceram, o poder de-forma-sobre. E sim o exercer-poder-com.

French, então, sugere que substituamos a palavra "matriarcal" pela palavra "matrifocal" ou "matricêntrica".

E que passarmos a representar as sociedades matricêntricas pelo que elas são: sociedades onde se exerce o poder-com, e não o poder sobre.

EXEMPLOS DE CASOS INFLUENCIADOS PELA SUGESTÃO DE MUDANÇA DE PARADIGMA PROPOSTA POR FRENCH:

A mudança de paradigma no gênero "séries de presídio feminino". Popular nos EUA, no Brasil representado pela novela "Presídio de Mulheres", escrita por Mario Lago e Ciro Bassini, sucesso na TV Tupi no ano de 1967. Na dramaturgia, as personagens de Maria Luisa Castelli e Rutinéia de Morais exercem poder sobre o grupo de presidiárias.

Em 2013, a série Orange Is The New Black, a evolução do mesmo gênero, traz, entre as presidiárias, uma distribuição horizontal de poder, informações e tomada de decisões. Desta vez temos, também, uma autora roteirista: Jenji Kohan criou a série baseada no romance autobiográfico de outra autora, Piper Kerman.

No filme Nashville, do americano Robert Altman, 1975, o conjunto de modernas e angustiadas personagens femininas procuram proteção e conforto nos personagens masculinos, representados, enquanto dramaturgia, hierarquicamente superiores . Os homens cuidam, solucionam, socorrem.

Em 2018, o grupo de modernas personagens femininas da série Boneca Russa, veiculada na Netflix e indicada a 13 Emmys em 2019, escrita e estrelada por Natasha Lyonne, atriz e roteirista, formam uma rede de apoio para os tormentos existenciais da personagem. Mulheres contemporâneas não pedem ajuda de homens, é o caso aqui.

No filme Mad Max, além da Cúpula do Trovão, de 1985, escrito por George Miller, a personagem de Tina Turner comanda, em um mundo pós apocalíptico, uma comunidade de forma vertical. Sonega informação, centraliza poder. Uma sociedade Matriarcal. Poder sobre o outro.

Em 2015, o mesmo George Miller escreve Mad Max - A Estrada da Fúria. Agora, o grupo de mulheres em fuga em um mundo apocalíptico é liderado pela personagem Imperatriz Furiosa, interpretada por Charlize Theron. Mas liderança e poder são distribuídos entre todas as outras personagens femininas da trama, elas de todas as idades e classes. A distribuição é horizontal. Suprimentos, informação e poder de decisão. Um microcosmo matricêntrico ou matrifocal.

Na novela televisiva Gabriela, da TV Globo, de 1975, a personagem título, interpretada por Sônia Braga, em tudo depende de seu patrão, o imigrante Nacib. As personagens mulheres da Ilhéus não formam um conjunto unido. Quando se unem, é para protestar contra os impulsos independentes de Gabriela.

Em Bacurau, 2019, a mesma Sônia Braga interpreta o papel de Domingas, a médica da cidade. À princípio, ela parece ser a líder do local. Rapidamente descobrimos que não há uma liderança. Nem sequer uma hierarquia. Bacurau é uma comunidade matricêntrica, ou matrifocal, onde tudo é decidido em conjunto, refletindo-se na dramaturgia e no tempo de tela de cada personagem, equalitário. Esta distribuição horizontal de poderes revela algo tido com essencialmente feminino por Marylin French. As personagens criam uma rede de apoio.

A grande vencedora dos prêmios Emmy de 2019, a série Fleabag, criada e escrita pela dramaturga e atriz Phoebe Waller-Bridge, conta a história de uma personagem que, para além de seu arco dramático, diverte-se com amigas.

No filme Mulher-maravilha, de 2017, a personagem heroína nasce e é educada durante infância e juventude na comunidade matricêntrica ou matrifocal, da ilha Themyscira (ou Ilha Paraíso), onde há uma estrutura hierárquica e patriarcal de poder. Trata-se, então, de um matriarcado. Mais tarde, já em nosso mundo, a heroína irá desenvolver um interesse romântico e cuja dramaturgia se dará em torno dele.

Em 2018, o filme Capitã Marvel traz uma heroína que é criada em um ambiente matriarcal, se rebela contra o sistema, e constrói adulta um pequeno sistema matricêntrico e matrifocal composto por uma amiga e a filha dela. A dramaturgia se desenvolve sem a necessidade do recurso de roteiro ou interesse/par romântico.

Um estudo de 2018, conduzido pela agência americana Creative Agency, em conjunto com o movimento "Time's up", que milita contra o assédio sexual contra mulheres, revelou que, hoje, filmes com protagonistas mulheres produzem mais lucro que os filmes com protagonistas homens.

Ao Los Angeles times, Megan Smith, CEO da agência responsável pelo estúdio, afirmou, à respeito da atenção que deve-se dar, em dramaturgia e publicidade, que "Você não pode ser o que você não pode imaginar".

O século XXI revelou a profissionais de criação e redação novas formas de representação do universo feminino. Esta polifonia de novas formas é, ao mesmo tempo, um desafio para cada profissional. Hoje, são tantas as mulheres possíveis, que é necessário acompanhar cada evolução com atenção. Estas representações, agora libertas de clichês, são representações de consumidoras, e a maioria delas não está disposta a não lidar com certos aspectos de seu próprio reflexo em produtos audiovisuais.

No artigo "As redes sociais e de apoio: o conviver e a sua influência sobre a saúde", de Tereza Etsuko da Costa RosaI, Mestre e Doutora em Saúde Pública pela USP e Maria Helena D'Aquino BenícioII Pesquisadora Científica do Instituto de Saúde da Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo, as redes de apoio, hoje principal característica de grupos matricêntricos ou matrifocais (ou simplesmente, mulheres que constituem-se em um grupo), caracterizam-se por: 

1) Apoio emocional, o que envolve afeto, 2) apoio instrumental ou material, ajuda para trabalhos práticos (ajuda em tarefas de escritório ou domésticas),  3) apoio de informação (aconselhamentos, sugestões, orientações), e 4) interação social (se divertir e relaxar com).

Arte: Gabriela Costa / Imagens: iStock by Getty Images e Divulgação / Texto: Dodô Azevedo

 

Fonte: https://gente.globo.com/representacoes-femininas-matriarcado-nao-e-o-que-voce-pensa/


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