Qual a importância da natureza para o bem-estar humano?


Qual a importância da natureza para o bem-estar humano?

Alice Ramos de Moraes e Cristiana Simão Seixas

27 Ago 2020 (27 Ago 12h10)

Como a biodiversidade contribui para a manutenção da água? De onde vêm nossas fontes de energia renováveis? Qual o impacto de áreas verdes para a vida nas cidades? Veja como pesquisas respondem a essas questões

Não importa se você mora numa grande metrópole, no litoral ou na zona rural, a natureza é imprescindível para seu bem-estar! A natureza fornece ao ser humano desde elementos básicos para a vida (água, alimento, energia, ar puro) até oportunidades para recreação, inspiração e benefícios psicológicos e espirituais. No jargão científico, esses são os serviços ecossistêmicos, também conhecidos mais recentemente como “contribuições da natureza para as pessoas”.

A provisão de serviços ecossistêmicos varia no tempo e no espaço e depende diretamente da biodiversidade, dos processos ecológicos e dos elementos de uma paisagem, incluindo as atividades humanas e seus impactos. Diferentes serviços contribuem para diferentes aspectos do bem-estar humano, como segurança alimentar, segurança hídrica, saúde, segurança energética e continuidade de modos de vida de grupos culturais. O conceito de serviços ecossistêmicos ressalta a interdependência entre ser humano e natureza – mostra, portanto, como as ações humanas que impactam os ecossistemas e sua biodiversidade afetam, inevitavelmente, as próprias sociedades humanas.

 

1. Como a biodiversidade contribui para a segurança alimentar?

A biodiversidade — termo que designa o conjunto da diversidade biológica, desde os genes até os ecossistemas — fornece uma variada gama de alimentos à população brasileira, sejam eles de origem terrestre ou aquática, cultivados ou extraídos da natureza. Espécies de nossa flora nativa são comumente consumidas como alimentos, a exemplo da mandioca, amendoim, guaraná, pupunha, cacau, além daqueles regionais, como o pinhão da Araucária ou o pequi do Cerrado. Mais de 460 espécies de plantas são cultivadas em sistemas agroflorestais no Brasil e boa parte dessas são alimentos. Além disso, a extração e o cultivo de espécies nativas contribuem para a segurança alimentar e geração de renda dos agricultores, especialmente aqueles de base familiar.

A pesca marinha e de água doce sustenta cerca de 1 milhão de pescadores e suas famílias, a maioria artesanais. A caça, proibida no país para fins esportivos ou profissionais, é importante fonte de proteína para populações tradicionais e indígenas de diversas regiões. As abelhas, além de produzirem mel e outras substâncias, como a geleia real, também contribuem com um serviço ecossistêmico importantíssimo: a polinização. A maioria das plantas (76%) utilizadas para produção de alimentos no Brasil depende da polinização por animais, principalmente abelhas.

2. Por que a biodiversidade é importante para a segurança hídrica?

água é fundamental à vida — tanto para o funcionamento orgânico dos seres vivos, como para o desenvolvimento das sociedades humanas. Assegurar o acesso à água potável, para uma vida saudável e produtiva, bem como garantir as condições para que ecossistemas produzam e forneçam água em quantidade e de qualidade são elementos relacionados ao conceito de segurança hídrica 1, um dos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável da ONU.

A biodiversidade é importante para a segurança hídrica sob diversos aspectos, com destaque para o papel exercido pela vegetação nativa. Com sua malha de raízes, ela facilita a infiltração da água no solo, recarregando aquíferos e contribuindo para o ciclo hidrológico. À margem de corpos d’água, a vegetação atua como barreira física, filtrando os materiais de origem terrestre, contribuindo para a qualidade da água. Árvores de raízes profundas do Cerrado atuam como verdadeiras bombas hídricas, puxando a água de aquíferos profundos com suas raízes e liberando-a na atmosfera pela evapotranspiração. Analogamente, a floresta amazônica contribui para a disponibilidade hídrica em outras regiões do país, como o Sudeste, pelo fenômeno dos rios voadores - correntes atmosféricas originadas no oceano Atlântico, ao norte do Brasil, carregadas de umidade e acrescidas pela evaporação e transpiração da floresta.

3. Qual a relação entre saúde e biodiversidade?

A biodiversidade contribui para diferentes aspectos da saúde humana. Além de ser importante para a alimentação e segurança hídrica, ela fornece recursos medicinais (animais, plantas e fungos) e princípios ativos para fabricação de fármacos e cosméticos, entre outros produtos, e regula a qualidade do ar que respiramos. Outro aspecto importante para a saúde são experiências na natureza que melhoram nosso bem-estar físico, mental e emocional, como visitas a parques urbanos e a áreas protegidas.

A perda e a alteração de áreas naturais são fatores reconhecidamente relacionados com a emergência de doenças infecciosas conhecidas – como leishmaniose, malária e febre amarela – e desconhecidas. Atividades humanas em ecossistemas naturais propiciam o contato com fluidos de animais silvestres, e o consumo de sua carne ou vísceras expõe os seres humanos a doenças até então não identificadas, como as causadas pelo vírus Ebola e o vírus da aids. A pandemia de covid-19, causada pelo coronavírus Sars-CoV-2, que até recentemente era desconhecido, é um exemplo impactante dos potenciais efeitos da perda da biodiversidade para a saúde.

4. De onde vêm as principais fontes de energia renováveis que sustentam nosso bem-estar e economia?

A matriz de energia elétrica brasileira é predominantemente hidrelétrica, seguida por biomassa (que inclui materiais de origem vegetal como lenha, bagaço de cana e outros). Em relação ao setor de transportes, o etanol – produzido a partir da cana-de-açúcar – e o biodiesel – produzido principalmente a partir da soja – correspondem a 14% do combustível consumido no Brasil 2. Ambos são considerados renováveis e representam alternativas mais sustentáveis ao uso de combustíveis fósseis, como o petróleo e o carvão.

Apesar de o senso comum perceber a matriz hidrelétrica como renovável e mesmo sustentável, há que se mencionar importantes questionamentosa essa fonte de energia. A construção de barragens para a formação dos lagos das hidrelétricas tem impactos profundos na fauna e na flora – localmente ou mesmo a muitos quilômetros de distância das obras. Alterações nos regimes de cheia e velocidade da água modificam a comunidade de organismos vivos associada ao rio, causando a eliminação de espécies de peixes. Os prejuízos são especialmente sentidos por povos indígenas e comunidades tradicionais, cujos territórios passam a abrigar tais estruturas, e para quem se rompem modos de vida e valores culturais associados ao território. Tais grupos são realocadas para outros locais, num processo que frequentemente contribui para o aumento de sua pobreza, violência e marginalização.

5. Qual a importância da natureza para a diversidade sociocultural e a segurança de modos de vida?

O Brasil tem uma megadiversidade biológica e sociocultural. Atualmente, essa sociodiversidade inclui 305 etnias indígenas e 28 grupos de populações tradicionais, como quilombolas, caiçaras, ribeirinhos, veredeiros, pantaneiros, pescadores artesanais, entre outros. A importância da natureza para a sociodiversidade se reflete em conhecimentos, línguas e culturas gerados por meio de práticas de uso e manejo da biodiversidade e dos ecossistemas. Os conhecimentos resultantes do contato estreito com a natureza se consolidaram por gerações, como no uso de diferentes espécies (ou o tabu imposto sobre elas) para fins alimentares, medicinais, de construções, vestimentas, adornos, rituais, entre outros. Os conhecimentos sobre os ecossistemas e seu manejo também são importantes para a segurança física dessas populações e a manutenção da biodiversidade, como acontece no manejo do fogo no Cerrado.

Segurança de modos de vida é um termo utilizado pelas Nações Unidas que se refere à ausência de ameaças para a manutenção dos modos de vida, ou ausência de receio de que esses modos de vida sejam prejudicados. Ela requer, portanto, a manutenção das condições necessárias para que determinado grupo social viva a partir do desenvolvimento de suas próprias atividades, incluindo assegurar a conservação dos ecossistemas dos quais esse grupo depende. Garantir a segurança de modos de vida também significa reconhecer e respeitar a diversidade sociocultural (com suas tradições, valores, linguagens, visões de mundo) desenvolvida por essas populações a partir do profundo conhecimento dos ecossistemas onde estão inseridas.

6. Como o bem-estar das pessoas que vivem nas cidades depende da natureza?

Embora muitos não se deem conta, todo alimento, toda água e boa parte da energia, vestimentas, móveis e materiais de construção que contribuem para o bem-estar das pessoas nas cidades são provenientes da natureza. Além disso, os habitantes urbanos são beneficiados pela natureza presente em áreas verdes nas cidades (como parques e praças), por corpos d’água e pela arborização de ruas e avenidas.

Lazer e práticas esportivas em áreas verdes, por exemplo, contribuem para a saúde física e psicológica dos indivíduos. Uma pesquisa de 2019 aponta evidências de menor risco de mortalidade em geral em habitantes que vivem a cerca de 500 metros de praças ou parques. Ademais, áreas verdes e arborização urbanas promovem a melhoria da qualidade do ar — filtrando poluentes e contribuindo para o aumento da umidade relativa —, atenuam a radiação solar e melhoram o conforto térmico. Essas áreas onde também são feitas atividades culturais e educativas, fornecem habitat para outras espécies da flora e da fauna, incluindo algumas aves que alegram as pessoas devido à sua coloração e ao canto.

7. O que são pegada ecológica e biocapacidade?

pegada ecológica é um índice criado para medir o impacto causado pelo ser humano no planeta em função dos padrões de uso e consumo de recursos naturais e serviços ecossistêmicos. Já a biocapacidade diz respeito à capacidade de oferta de recursos naturais e serviços ecossistêmicos por determinada porção do território.

A relação entre a pegada ecológica e a biocapacidade é similar a um “orçamento ecológico”: quando a pegada (isto é, o consumo) supera a biocapacidade (a oferta de recursos), entramos no “cheque especial”, com juros altíssimos para as futuras gerações. O Dia de Sobrecarga da Terra, que varia anualmente, resulta de uma estimativa de quando a humanidade atinge o “orçamento ecológico” de um ano. Para o ano de 2020, a estimativa é 22 de agosto.

A pegada ecológica do Brasil ainda é inferior à sua biocapacidade, o que indica a oportunidade de o país se desenvolver de forma ecologicamente sustentável, socialmente justa e economicamente viável. Porém, a biocapacidade do país vem sendo rapidamente erodida, com perda de mais de 50% nos últimos 50 anos – algo extremamente preocupante.

8. O que podemos fazer para diminuir nossa pegada ecológica?

Como o conceito de pegada ecológica se relaciona ao uso e consumo de recursos e serviços ecossistêmicos - seja por indivíduos, organizações ou países -, é natural inferir que, para diminuí-la, é preciso mudar os padrões de consumo em geral, adotando práticas mais amigáveis ao ambiente em nível individual e em nível coletivo.

Alguns exemplos envolvem mudar hábitos alimentares — evitar desperdícios de alimentos, dar preferência a produtos orgânicos e cultivados localmente, diminuir o consumo de carne —, reduzir o consumo de água, evitar o consumo de itens descartáveis e de pouca durabilidade, dar preferência a produtos feitos localmente ou em regiões próximas e, no transporte, diminuir o uso do automóvel particular, optando por viagens por transporte coletivo, caronas, a pé ou de bicicleta.

A mudança de atividades e padrão de consumo no nível individual é desafiadora porque muitas pessoas não querem se privar daquilo que consideram parte de seu bem-estar e felicidade. Entretanto, se cada um fizer a sua parte, contribuirá para o bem-estar da sociedade como um todo e para as futuras gerações. Além da ação no nível individual, as escolhas coletivas que fazemos, quando elegemos nossos governantes e apoiamos determinado modelo de desenvolvimento econômico, estão intrinsecamente relacionadas com a pegada ecológica e nosso país.

Fonte: https://pp.nexojornal.com.br/perguntas-que-a-ciencia-ja-respondeu/2020/Qual-a-import%C3%A2ncia-da-natureza-para-o-bem-estar-humano?utm_medium=Social&utm_campaign=Echobox&utm_source=Twitter#Echobox=1598895561


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