Porcarias das Universidades

PORCARIAS DAS UNIVERSIDADES
Roberto Boaventura da Silva Sá
Dr. Jornalismo/USP; Prof. Literatura/UFMT

De antemão, informo: o palavrão do título deste artigo foi usado em discurso do papa Francisco numa região de muitos mafiosos na Itália. Aqui, também falo de corrupção. Para isso, começo afirmando: poucos docentes universitários foram às manifestações ocorridas este mês no Brasil.

Na do dia 13/03 não foram, pois a maioria nunca se identificou com a CUT, MST e outras entidades promotoras, ainda que tais estejam cooptadas pelo governo federal, ente político tão caro à maioria dos docentes. Aliás, muitos deles afirmaram que só Dilma/13 manteria os recursos para as universidades.

Mentiram ou foram enganados?

Na manifestação do dia 15 também não foram, pois aquilo – diziam – era armação de golpistas da elite branca.

De minha parte, analiso que não foram porque (com exceções) também são corruptos, e ambas as manifestações gritavam (pelo menos na aparência) contra a corrupção, algo de raiz cultural; por isso, poucos de nós todos estão isentos de ser corruptos, inclusive muitos dos que estavam em ambas as passeatas.

Logo, a corrupção também não isenta as universidades. Ali, ela é mais intensa entre doutores.

Após a afirmação, aproprio-me das palavras do físico Rogério Cezar de Cerqueira Leite – 83 anos –, publicadas no artigo “Lixo acadêmico, causas e prevenções” (Folha de SP: 06/03/15; A3).

Para tratar desse tipo de “lixo”, do qual já falei em outros tempos, o emérito aponta que os “critérios que levam em conta citações em artigos acadêmicos ensejam artimanhas para ludibriar sistemas de avaliação”. Para Leite, “Essa contingência não teria importância não estivesse ela sendo agregada sorrateiramente à cultura acadêmica brasileira”.

Na sequência, o professor categoriza os tipos mais comuns de corrupção na academia:

1. O “pedágio”.
Ele “se estabelece quando um pesquisador consegue, por mérito ou oportunismo, apoderar-se de um meio de produzir dados. Com o que afluem outros pesquisadores ao seu laboratório e, como pagamento, incluem em artigos o nome do ‘dono da bola”;

2. “O compadrio’.
Observa-se nesses últimos 15 ou 20 anos um crescimento do número de autores por artigo publicado. Grupos de pesquisas também cresceram, e o número de autores com frequência passa de 10 e às vezes chega a 20. A conclusão é a de que há um acordo de cavalheiros entre membros de grupos para compartilhar autorias. O número de publicações e de citações é assim multiplicado”;

3. “O ‘franciscanismo’ (dar para receber)”.
Ele é “intra ou inter, dependendo se a burla ocorre entre membros de uma ou mais instituições. Com frequência começa como troca de gentilezas para depois degenerar em perversão consciente”.

No mesmo jornal (19/03/15: C5), a matéria “Cientistas fazem participação em congresso virar artigo publicado” exemplifica o que o físico disse acima, pois “Pelo menos 30 pesquisadores brasileiros ‘turbinaram’ seus currículos com trabalhos apresentados em um evento realizado por uma editora chinesa acusada de transgredir normas acadêmicas de publicação.”

Por que isso ocorre?

Porque, conforme a matéria, “Nas avaliações de currículos para concursos, promoções, bolsas e auxílios a projetos de pesquisa (que envolvem grana e micro poder interno), os estudos aceitos por revistas científicas contam mais que os apresentados em congressos”.

Quem está de fora desse espaço contaminado das pós-graduações não imagina o quanto a maioria é corrupta. Por isso, muitos se calam perante a corrupção. Em geral, a maioria não vale nada: nem como pesquisadores, nem como seres humanos.

Porcarias.

 

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