Por dentro da escola

POR DENTRO DA ESCOLAescola

Uma recente matéria veiculada no Jornal Hoje – edição de 19/08 – roubou a cena e minha atenção: “Adolescentes fora de controle: brigas entre alunos são estimuladas por colegas”; aliás, é bom lembrar que isso já não é novidade. Contudo, mesmo assim, confesso que me inquieto toda vez que vejo esse absurdo, pois me ponho a pensar no futuro dessas gerações sem lenço, sem documento, sem nada; ou seja, são elas por elas mesmas.
Essencialmente, a matéria mostrou quatro incidências ocorridas em escolas. Na primeira, duas alunas de Santa Maria-RS se atracavam, caídas ao chão e aos pés de uma professora que chegara, tentando apartá-las. Na segunda, um adolescente de 15 anos, no interior de Pernambuco, apanhava de um grupo de adolescentes. Na terceira, em Olinda, também em Pernambuco, duas garotas se esmurravam. Na última, em São Paulo, mais duas adolescentes estavam envolvidas em confusão: uma havia se recusado a fazer um trabalho escolar para a outra.
Depois das cenas – grotescas, obviamente – vieram as considerações das autoridades: um delegado identificou um dos delitos; uma doutora em educação falou – com certa naturalidade – sobre a noção de pertencimento aos grupos que envolvem adolescentes e jovens; uma psicanalista, mostrando-se preocupada com o futuro da sociedade, disse que é preciso “segurar esse tipo de conduta”. Ao final da matéria, o apresentador acrescentou a necessidade da intervenção dos pais na educação dos filhos.
Desses enunciados, exceto a intervenção da edição da emissora, pronunciado pelo apresentador, todos tiveram (erradamente) algo em comum: focar o problema nos protagonistas das cenas. Logo, as inócuas saídas apresentadas foram: a) tratamento psicológico; b) aulas de boa convivência. Infelizmente, a meu ver, por questões óbvias, a doutora em educação perdeu ótima oportunidade para falar com toda a clareza que esse tipo de situação é fruto de gerações que vão sendo vitimadas por uma educação sem o menor sentido de ser, permissiva ao extremo; que essas gerações já estão completamente desprovidas de bens culturais de qualidade; que estão cada vez mais expostas à exacerbação de suas sexualidades precoces, por conta de uma sociedade desrespeitosa e voraz; que não têm o menor controle do uso das tecnologias; que estão usando álcool e outras drogas bem perto do berço, de onde acabaram de sair.
No que se referem a essas duas últimas pontualidades acima, sobre a primeira (tecnologia) é interessante observar que, enquanto protagonistas se atracam, vários expectadores assistem às cenas e alguns as filmam, postando-as imediatamente na internet; dali, às vezes, vão parar até na TV; ou seja, um sucesso fantástico para quem é reles anônimo e vazio de significado. Isso é uma realidade e um problemão deste tempo atual.
Outro problemão é o precoce uso de drogas, destacando-se o álcool, que é porta escancarada às demais. Sobre isso, foi aprovado no Congresso um Projeto de Lei que prevê mensagens antitabaco e antiálcool em livros escolares. No Senado, há resistência ao PL. Uma senadora petista (Fátima Cleide) relatou contrário à matéria. Independentemente do desfecho, o buraco é mais embaixo: trata-se de fazer com as publicidades que envolvem bebidas alcoólicas o que já foi com as do tabaco. Sem isso, não iremos longe; ou melhor: jogaremos essas gerações num beco sem saída. Pior: e não será fácil alterar o rumo, pois há cervejas ajudando a mover até atletas da Seleção Brasileira, quando não seu treinador. Tudo é exemplo às novas gerações.

Roberto Boaventura da Silva Sá
Dr. em Ciência da Comunicação/USP e Prof. da UFMT
rbventur26@yahoo.com.br

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