Parabolicamará – Gilberto Gil.

Parabolicamará

Gilberto Gil

Antes mundo era pequeno
Porque Terra era grande
Hoje mundo é muito grande
Porque Terra é pequena
Do tamanho da antena parabolicamará
Ê, volta do mundo, camará
Ê, ê, mundo dá volta, camará

Antes longe era distante
Perto, só quando dava
Quando muito, ali defronte
E o horizonte acabava
Hoje lá trás dos montes, den de casa, camará
Ê, volta do mundo, camará
Ê, ê, mundo dá volta, camará

De jangada leva uma eternidade
De saveiro leva uma encarnação

Pela onda luminosa
Leva o tempo de um raio
Tempo que levava Rosa
Pra aprumar o balaio
Quando sentia que o balaio ia escorregar
Ê, volta do mundo, camará
Ê, ê, mundo dá volta, camará

Esse tempo nunca passa
Não é de ontem nem de hoje
Mora no som da cabaça
Nem tá preso nem foge
No instante que tange o berimbau, meu camará
Ê, volta do mundo, camará
Ê, ê, mundo da volta, camará

De jangada leva uma eternidade
De saveiro leva uma encarnação
De avião, o tempo de uma saudade

Esse tempo não tem rédea
Vem nas asas do vento
O momento da tragédia
Chico, Ferreira e Bento
Só souberam na hora do destino apresentar
Ê, volta do mundo, camará
Ê, ê, mundo dá volta, camará

© Gege Edições Musicais ltda (Brasil e América do Sul) / Preta Music (Resto do mundo)

ficha técnica da faixa:
voz e violão: Gilberto Gil
violão: Celso Fonseca
bateria e bandolim: Jorge Gomes
flauta: Lucas Santana
percussão: Marcos Suzano
baixo: Arthur Maia

“Eu queria fazer uma canção falando dos contrastes entre o rural e o urbano, o artesanal e o industrial, usando um linguajar simples, típico de comunidades rudimentares, e uma cadência de roda de capoeira. Aí, compondo os primeiros versos, quando me ocorreu a palavra ‘antena’ – seguida de ‘parabólica’ – para rimar com ‘pequena’, eu pensei em ‘camará’ [palavra usada comumente nas cantigas de capoeira como vocativo] para completar a linha e a estrofe. Como ‘parabólica camará’ dava um cacófato, eu cortei uma sílaba ‘ca’ e fiz a junção das palavras, criando o vocábulo ‘parabolicamará’. Uma verdadeira invenção concretista; uma concreção perfeita em som, sentido e imagem. Nela, como um símbolo, vinham-me reveladas todas as interações de mundos que eu queria fazer. Aí se tornou irrecusável prosseguir e, mais, fazer daquilo um emblema do conceito, não só da canção, mas de todo o disco (Parabolicamará).”

*

“Em Parabolicamará pus o tempo existencial, psíquico, em contraposição ao tempo cronológico – a eternidade, a encarnação e a saudade à jangada e ao saveiro – e estes dois ao avião -, para insinuar o encurtamento do tempo-espaço provocado pelo aumento da rapidez dos meios de comunicação física e mental do mundo-tempo moderno e das velocidades transformadoras em que vivemos. Pus também o tempo sub-atômico, da partícula, da subfração de tempo; do átomo de tempo – cuja imagem mais representativa é exatamente a correção equilibradora que a Rosa faz com o balaio. E pus por fim o tempo da morte, o tempo-corte, o tempo que corta, ceifa, o tempo-foice, onde alguma coisa é e de repente foi-se, lembrando – na citação dos caymmianos Chico, Ferreira e Bento – a morte do meu filho: a situação, segundo se imagina, de ele meio sonolento no volante do carro sendo subitamente assaltado pelo evento acidental que o levaria à morte.”

 

Música da década de 1980, Parabolicamará apresenta um Gilberto Gil comprometido em traçar um paralelo entre passado, presente e futuro. Com a solidificação do império da televisão no Brasil, a parabólica tornou-se um elemento comum em toda a extensão do país, tornando-se a primeira ponte entre um futuro e um passado em locais com suas próprias tradições. O enfoque nas tradições começa desde o título até a estética da música: Camará é uma das palavras típicas da capoeira e, aglutinada à parabólica, torna-se uma possibilidade mundial. A música tem, ainda, uma estrutura que lembra as canções regionalistas, principalmente nordestinas, com a repetição constante de um refrão.

A música começa um verso capital:

Antes mundo era pequeno
Porque Terra era grande
Hoje mundo é muito grande
Porque Terra é pequena
Do tamanho da antena
Parabolicamará
Gilberto Gil expõe uma perspectiva de mundo em relação a dois momentos distintos: antes da chegada da tecnologia, da parabólica, e depois do contato do homem com a plenitude dos meios de comunicação. Antes da tecnologia, o homem via um mundo com uma perspectiva curta, ao alcance daquilo que ele pode ver cotidianamente, seu espaço de vida; a Terra era, portanto, imensa, um espaço inalcançável para a limitação do homem. Depois da chegada da tecnologia, o mundo ficou imenso, repleto de possibilidades e de espaços possíveis; a Terra ficou, nesse momento, pequena, acessível ao homem, ao alcance de um botão. O verso seguinte corrobora esta visão.

O compositor, então, faz diversas comparações entre a cultura popular e a tecnologia, assim como no título da música:

De jangada leva uma eternidade

De saveiro leva uma encarnação
Pela onda luminosa
Leva o tempo de um raio
Tempo que levava Rosa
Pra aprumar o balaio
Quando sentia
Que o balaio ia escorregar
[…]
Esse tempo nunca passa
Não é de ontem nem de hoje
Mora no som da cabaça
Nem tá preso nem foge
No instante que tange o berimbau
Meu camará
[…]
Esse tempo não tem rédea
Vem nas asas do vento
O momento da tragédia
Chico Ferreira e Bento
Só souberam na hora do destino
Apresentar
No primeiro verso destacado, Gil cita dois meios de transporte típicos do Nordeste, fazendo uma pequena alusão a Dorival Caymmi, o compositor da vida simples. Em seguida, Gilberto Gil já apresenta toda a velocidade dos raios dos meios de comunicação e a iguala ao homem comum, à Rosa que ajeita o balaio, ela é, portanto, já parte do cotidiano do homem comum e nenhuma novidade assombrosa em sua vida.

Na segunda estrofe destacada, Gil fala sobre o tempo. Com as maiores velocidades a cada dia, a tecnologia apresenta uma nova perspectiva de tempo, cada vez mais curto seguindo demandas. No entanto, segundo o compositor, basta que se toque o berimbau para tudo mudar, para os tempos passados serem invocados, todas as tradições caberem no som da cabaça e resistirem, firmemente, aos tempos que virão.

Por fim, na terceira estrofe, a comparação do tempo com suas formas de apresentação. Gilberto Gil consagra a forma de Dorival Caymmi por meio dos seus personagens Chico Ferreira e Bento. O tempo não tem rédeas, tanto pela maior velocidade com que se encara o mundo, quanto pela atemporalidade das produções humanas. O tempo não tem rédeas perante as possibilidades de invenção e de criação.

 

 

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *