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O MÉDICO – RUBEM ALVES

O MÉDICO – POR RUBEM ALVES

“O Médico”

                                                    

“… e, de repente, um canto de minha memória que o esquecimento escondera se iluminou,
e eu o vi de novo, do jeito como o havia visto pela primeira vez: o quadro.
Vejo-me, menino, na sala de espera do consultório médico.
Estou doente. Meus olhos assustados passeiam pelos objetos à minha volta, até que o encontram.
Pendia, solitário, na parede branca. Levanto-me e me aproximo, para ver melhor.
Leio o nome da tela: O médico.

É a sala de uma casa. Cena familiar.

Tudo está mergulhado na sombra, exceto o lugar central, iluminado pela luz de um lampião.
Mas a luz é inútil. O lugar mais iluminado é o mais obscuro: uma menina doente.
A clareza dos detalhes só serve para indicar o lugar onde o mistério é mais profundo.
Quando a luz se acende sobre o abismo, o abismo fica mais escuro.
Seus olhos estão fechados, mergulhados em um esquecimento febril.
Nada sabe do que acontece à sua volta. Por onde andará ela?
Infinitamente longe, num lugar ignorado, onde gesto algum pode tocá-la.
Seu braço pende, inerte, sobre o vazio.

O lampião ilumina a menina doente. Mas os olhos de quem examina a tela com atenção desconfiam e percebem a presença de uma outra luz.

Do lampião a querosene
sai uma outra luz que ilumina a menina.
Mas a menina doente sai da luz que ilumina a cena inteira: luz triste, luz sombria,
que inunda a sala com o seu mistério: a luz da morte. Também a morte tem a sua luz.

O artista escolheu de propósito. Se, em vez de uma menina, fosse um velho, a morte seria uma outra.
A morte tem muitas faces. A morte dos velhos, por mais dolorosa que seja,
é parte da ordem natural das coisas: depois do crepúsculo segue-se a noite.
A morte dos velhos é triste, mas não trágica. É conto o acorde final de uma sonata.
O fim é o que deveria ser. Mas a morte de um filho é uma mutilação.

A luz da vida é alegre, brincalhona, esbanja cores,
vive de uma exuberância que pode se dar o luxo de desperdiçar.
Todos os objetos ficam coloridos ao seu toque –
os grandes e os pequenos, os importantes e os insignificantes.
A luz da morte, entretanto, só ilumina o essencial. Naquela sala se sabe a verdade essencial.
O universo inteiro está encolhido. O centro absoluto, em torno do qual giram todos os mundos,
é uma menina doente. De que valem as montanhas e os mares, os homens, seus negócios,
seus amores e suas guerras, se naquele quarto uma menina luta contra a morte?

Num canto, o casal, pai e mãe, imagens da impotência. Nada sabem fazer, nada podem fazer.
A mãe está debruçada sobre uma mesa. Seu rosto está mergulhado no vazio. Só lhe resta chorar.
O marido, de pé, pousa a mão sobre o ombro da esposa. Mas imagino que ela não a sente.
Naquele momento ela não é nem esposa, nem dona de casa: é mãe, apenas mãe.
O gesto do marido, que quererá dizer?
Será uma tentativa de consolo, como se dissesse: “Eu estou aqui…”? Pobre consolo!
Ou será o contrário, uma discreta busca de apoio, como se dissesse:
“Também eu estou desamparado!”? Tudo é uma despedida pronta a cumprir-se.
E o amor, a coisa mais alegre, revela-se como a coisa mais triste.
Diante da morte, o amor ganha cores trágicas.

O pai está vestido com um pesado capote.É estranho! Por que tanto agasalho dentro de casa?
O capote nos conta de sua viagem pelo frio, o desamparo em busca de socorro.
Doutor, venha depressa! A minha filha… Voltou e nem se lembrou de tirá-lo.
Pois que importa o desconforto de um capote dentro de casa quando a filha luta com a morte?

Ao lado da menina,um estranho,assentado: o médico. Pois o médico não é um estranho?
Estranho,sim,pois não pertence ao cotidiano da família.
E,no entanto,na hora da luta entre o amor e a morte,é ele que é chamado.

O médico medita.Seu cotovelo se apóia sobre o joelho,seu queixo se apóia sobre a mão.
Não medita sobre o que fazer.As poções sobre a mesinha revelam que o que podia ser feito
já foi feito. Sua presença meditativa acontece depois da realização dos atos médicos,
depois de esgotados o seu saber e o seu poder.
Bem que poderia retirar-se,pois que ele já fez o que podia fazer… Mas não.
Ele permanece. Espera.Convive com a sua impotência.Talvez esteja rezando.
Todos rezamos quando o amor se descobre impotente. Oração é isto: essa comunhão com o amor,
sobre o vazio… Talvez esteja silenciosamente pedindo perdão aos pais por ser assim tão fraco,
tão impotente, diante da morte.
E talvez sua espera meditativa seja uma confissão: – Também eu estou sofrendo…

Amei esse quadro a primeira vez que o vi,sem entender.
Talvez ele seja a razão por que, quando jovem,por muitos anos,sonhei ser médico.
Amei a beleza da imagem de um homem solitário,em luta contra a morte.
Diante da morte todos somos solitários. Amamos o médico não pelo seu saber,
não pelo seu poder,mas pela solidariedade humana que se revela na sua espera meditativa.
E todos os seus fracassos (pois não estão, todos eles,
condenados a perder a última batalha?) serão perdoados se;
no nosso desamparo,percebermos que ele, silenciosamente,permanece e medita,junto conosco.

Hoje o quadro já não mais se encontra nas salas de espera dos consultórios médicos. A modernidade transferiu a morte do lar,lugar do amor,para as instituições,lugar do poder.

E os médicos foram arrancados dessa cena de intimidade e colocados numa outra
onde as maravilhas da técnica tornaram insignificante a meditação impotente diante da morte.

Mas a bela cena não desapareceu.Sobrevive em muitos,como memória e nostalgia,
em meio às frestas das instituições. A esses médicos,cujos nomes não preciso dizer
(pois eles sabem quem são), que silenciosamente meditam
diante do abismo misterioso da tragédia humana,ofereço minha própria meditação impotente.
Olho para eles com os mesmos olhos do menino que, pela primeira vez,
se defrontou com a beleza dessa cena,na sala de espera de um consultório.”

 

O Médico à procura do Ser Humano 

Rubem Alves* 

Antigamente a simples presença do médico irradiava vida. Antigamente os médicos eram também feiticeiros. “Mestre, diga uma única palavra, e minha filha será curada…”. A vida circulava nas relações de afeto que ligavam o médico àqueles que o cercavam. Naquele tempo os médicos sabiam dessas coisas. Hoje não sabem mais. 

Aquele médico ao lado da menina: não se parece ele com um cavaleiro solitário que vai sozinho lutar contra a morte? Naquele tempo os médicos sabiam qual era seu destino. Havia muito sofrimento, sim. 

Havia muito medo, sim. Medo e sofrimento são parte da substância da vida. Mas nunca soube de um médico que ficasse estressado. Não são as batalhas que produzem o estresse. As batalhas, ao contrário, dão coesão, pureza, integração ao corpo e à alma. O cavaleiro solitário é um herói com o corpo coberto de cicatrizes mas de alma inteira. Os estressados são aqueles que, sem ter uma batalha a travar, são puxados em todas as direções por uma legião de demônios. 

A imagem do cavaleiro solitário que luta contra a morte é uma imagem romântica. Bela. Comovente. Quem não desejaria ser um? Criticam o romantismo. Fernando Pessoa comenta: mas não é verdade que a alma é incuravelmente romântica? O médico de antigamente era um herói romântico, vestido de branco. As jovens donzelas e as mulheres casadas suspiravam ao vê-lo passar. Ainda bem que a consulta permitia o gozo puro do toque da sua mão… 

O cavaleiro solitário que luta contra a morte é um santo. Quem, jamais, ousaria pensar qualquer coisa de mau contra o médico? Hoje são comuns os processos contra os médicos por imperícia. Ser médico transformou-se num risco. Porque ninguém mais acredita na sua santidade. Talvez porque eles tenham deixado mesmo de ser santos… Mas, naquele tempo, as pessoas julgavam que o médico era um santo, e porque as pessoas pensavam assim, eles eram santos. 

Eu me apaixonei pela imagem. Queria ser feiticeiro. Queria ser o cavaleiro solitário que luta contra a morte. Queria ser o santo. E esse ideal, para mim, não era uma abstração. Ele tinha um nome: Albert Schweitzer – um dos homens mais geniais do século XX. Organista, escritor, teólogo, fez um trato com Deus: até os 30 anos, faria essas coisas que lhe davam prazer cultural. Depois, iria se dedicar inteiramente aos sofredores. Entrou para a escola de medicina aos 30 e, depois de médico, passou o resto da vida num lugar perdido das selvas africanas, construiu um hospital de madeira e sapé onde distribuía alívio da dor. Claro, nunca ficou rico. Nem teve estresse. Sua bela imagem o fazia feliz. Ganhou o prêmio Nobel da Paz. 

Não fui médico. Mas segui pela vida encantado por aquele quadro. O encanto foi quebrado quando fui fazer meu doutoramento nos Estados Unidos. Um dia fui ouvir uma palestra do diretor do hospital da cidade de Princeton, NJ, onde eu estudava. Ele começou sua preleção com esta afirmação que estilhaçou o quadro: “O hospital de Princeton é uma empresa que vende serviços”. “Meu Deus”, eu pensei. “Aquele médico não existe mais”. 

E percebi que, agora, os médicos se encontram lado a lado com os prestadores de serviço, os encanadores, os eletricistas, os vendedores de seguro, os agentes funerários, os motoristas de táxi. É só procurar na lista de classificados. A presença mágica já não existe. O médico é um profissional como os outros. Perdeu sua aura sagrada. E me veio, então, uma definição do médico compatível com a definição que o diretor dera para o hospital de Princeton: “um médico é uma unidade biopsicológica móvel, portadora de conhecimentos especializados, e que vende serviços”. 

Essa imagem, em absoluta conformidade com as condições sociais e econômicas do mundo moderno, não fez nada comigo. Não me comoveu. Não desejei ser igual. O mito de Narciso, eu acho, é o mito mais profundo. Todos nós, como Narciso, estamos em busca da nossa bela imagem. Mas para ver a nossa bela imagem temos necessidade de espelhos. Espelhos são os outros. É no rosto dos outros que vemos a nossa própria imagem refletida. Nos tempos antigos todas as pessoas eram espelhos para o médico. Todos o conheciam. Todos olhavam para ele com admiração. Hoje, morto o médico do quadro, o médico é agora procurado não por ser amado e conhecido, mas por constar no catálogo do convênio. 

Seus espelhos não são mais os clientes, parentes, todo mundo. São os seus pares: colegas de empresa, sócios de consultório, congressos. Perigosas, essas relações entre pares. O primeiro assassinato registrado foi de um irmão que matou o irmão. A relação do médico antigo com seus espelhos era uma relação de gratidão e admiração. A relação do médico de hoje com seus espelhos é uma relação de inveja e competição. Acho que os médicos, hoje, são infelizes por causa disto: eles resolveram ser médicos por desejar ser belos como o cavaleiro solitário, puros como o santo, e admirados como o feiticeiro. Era isso que estava dentro deles, ao tomarem a decisão de estudar medicina. E é isso que continua a viver na sua alma, como saudade… 

É. A vida lhes pregou uma peça. E hoje a imagem que eles vêem, refletida no espelho, é a de uma unidade biopsicológica móvel, portadora de conhecimentos especializados, e que vende serviços… Os médicos sofrem por saudade de uma imagem que não existe mais. 

* Alves é psicanalista e escritor, autor de várias obras publicadas pela Editora Papirus. Esta crônica faz parte do livro “O médico”, 2002.

 

Em defesa da vida

 

É um homem grande, 1.90 de altura; obviamente, um homem forte. Seus cabelos castanhos já estão grisalhos. E tem um grande bigode. Seus olhos profundos são azuis e bondosos. E o seu piscar revela humor. Um veadinho se esfrega nele pedindo carinho e sua mão grande deixa a caneta sobre a mesa e delicadamente agrada o bichinho. Lá fora, os crocodilos algumas vezes dormem com suas enormes mandíbulas abertas. E há os hipopótamos, os pelicanos, a vegetação impenetrável que se reflete nas águas barrentas do rio.

A aparência é de um homem solidamente plantado nesse mundo. Mas não é verdade. Seu coração e sua cabeça se movem de acordo com uma lógica estranha de um outro mundo que só ele vê.

Nasceu em 1875, numa aldeia da Alsácia, filho de um pastor protestante. Desde muito cedo ficou claro que ele era diferente. Sua sensibilidade para a música chegava à dor. Ele mesmo conta que, à primeira vez que ouviu duas vozes cantando em dueto – ele era muito pequeno ainda – ele teve de se encostar na parede para não cair. Outra vez, ouvindo pela primeira vez um conjunto de metais ele quase desmaiou por excesso de prazer. Com cinco anos começou a tocar piano. Mas logo se apaixonou pelo órgão de tubos da igreja na qual o seu pai era pastor. Aos nove anos já era o organista oficial da igreja, e tocava para os serviços religiosos.

Sentimento amoroso idêntico lhe provocavam os animais. Ele relata que, mesmo antes de ir para a escola, lhe era incompreensível o fato de que as orações da noite que sua mãe orava com ele apenas os seres humanos fossem mencionados. ‘Assim, quando minha mãe terminava as orações e me beijava, eu orava silenciosamente uma oração que compus para todas as criaturas vivas: \’Oh, Pai, celeste, protege e abençoa todas as coisas que vivem; guarda-as do mal e faz com que elas repousem em paz.\’‘

Ele conta de um incidente acontecido quando ele tinha sete ou oito anos de idade. Um amigo mais velho ensinou-o a fazer estilingues. Por pura brincadeira. Mas chegou um momento terrível. O amigo convidou-a a ir para o bosque matar alguns pássaros. Pequeno, sem jeito de dizer não, ele foi. Chegaram a uma árvore ainda sem folhas onde pássaros estavam cantando. Então o amigo parou, pôs uma pedra no estilingue e se preparou para o tiro. Aterrorizado ele não tinha coragem de fazer nada. Mas nesse momento os sinos da igreja começaram a tocar, ele se encheu de coragem e espantou os pássaros.

Seu amor pelas coisas vivas não era apenas amor pelos animais. Ele sabia que por vezes era preciso que coisas vivas fossem mortas para que outros vivessem. Por exemplo, para que as vacas vivessem os fazendeiros tinham de cortar a relva florida com ceifadeiras. Mas ele sofria vendo que, tendo terminado o trabalho de cortar a relva, ao voltar para a casa, as suas ceifadeiras fossem esmagando flores, sem necessidade. Também as flores têm o direito de viver.

Também não podia contemplar o sofrimento dos animais em cativeiro. ‘Detesto exibições de animais amestrados. Por quanto sofrimento aquelas pobres criaturas têm de passar a fim de dar uns poucos momentos de prazer a homens vazios de qualquer pensamento ou sentimento por eles.’

O nome desse jovem era Albert Schweitzer. Doutorou-se em música, tornou-se o maior intérprete de Bach da Europa, dando concertos continuamente. Doutorou-se em teologia e escreveu um dos mais importantes livros de teologia desse século. Doutorou-se também em filosofia, e era professor na universidade de Estrasburgo, sendo também pastor e pregador.

Schweitzer tinha tudo aquilo que uma pessoa normal pode desejar. Ele era reconhecido por todos. Mas havia uma frase de Jesus que o seguia sempre: ‘A quem muito se lhe deu, muito se lhe pedirá.’ E, aos vinte anos, ele fez um trato com Deus. Até os trinta anos ele iria fazer tudo aquilo que lhe dava prazer: daria concertos, falaria sobre literatura, sobre teologia, sobre filosofia. Aos trinta anos ele iniciaria um novo caminho. E foi o que ele fez. Aos trinta anos entrou para a escola de medicina, doutorou-se em medicina, e mudou-se para a África, para tratar de uns pobres homens atacados pelas doenças e abandonados. E lá passou o resto de sua vida.

É preciso entender que Schweitzer não era só um médico curando doentes. Ele não se conformaria com isso. Dentro dele viviam a música, a filosofia, o misticismo, a ética. Schweitzer sabia que somente o pensamento muda as pessoas. E o que ele mais desejava era descobrir o princípio que vivia encarnado nele. E ele conta que foi numa noite – ele e remadores navegavam pelo rio para chegar a uma outra aldeia – seu pensamento não parava – e ele se perguntava – ‘qual é o princípio ético?’ De repente, como um relâmpago, apareceu na sua cabeça a expressão: ‘reverência pela vida.’ Tudo o que é vivo deseja viver. Tudo o que é vivo tem o direito de viver. Nenhum sofrimento pode ser imposto sobre as coisas vivas, para satisfazer o desejo dos homens.

Há algo estranho na psicologia de Schweitzer. Um dos maiores desejos da alma humana – de todos – é o desejo de reconhecimento. Na Europa Schweitzer era admirado universalmente: organista, filósofo, teólogo, escritor. Aos vinte e poucos anos seu nome já era símbolo. Aí toma uma decisão que o levaria para longe de todos os olhos que o admiravam: a absoluta solidão de uma aldeia miserável. Hoje uma decisão como a dele seria imediatamente notada: os jornais e a televisão logo fariam brilhar a sua imagem de Cavaleiro Solitário – e ele apareceria como herói. Seria grande, imensamente grande na sua renúncia! Também as renúncias podem ser motivo de vaidade! (A esse respeito relembro a última cena do filme O Advogado do Diabo. Merece ser visto de novo.) Mas ele opta pela invisibilidade, a solidão, longe de todos os olhos e de todos os aplausos. Isso só tem uma explicação: ele era, antes de tudo, um místico. O que lhe importava não era o brilho narcísico mas a consciência de ser verdadeiro com o princípio de ‘reverência pela vida’, o seu mais alto princípio religioso.

Esse princípio, Schweitzer viveu intensamente. Não é difícil ter reverência pelas coisas fracas, a relva, os insetos, os animais. Fracos, eles não têm o poder de nos resistir. Difícil é ter reverência pelos homens fortes, que se encontram ao nosso lado. Jesus ordenou ‘amar o próximo’. Porque é fácil amar o distante. O próximo é aquele que está no meu caminho, que tem o poder de me dizer não. Mais difícil que amar os doentes, que são carência pura, fraqueza pura, dependência pura, mendicância pura, é amar aqueles que estão ao meu lado e que são tão fortes quanto eu.

Reverência pelos que estão ao meu lado. Se Schweitzer se relacionou com os pobres negros doentes por meio da compaixão, ele se relacionou com seus próximos, iguais, companheiros de hospital por meio de amizade. E ele formula, na sua Ética, o princípio de que ‘um homem nunca pode ser sacrificado para um fim.’

Schweitzer não era um ser desse mundo. Talvez ele tenha compreendido isso e que essa tenha sido uma das razões porque ele saiu do mundo civilizado, se embrenhando nas selvas da África. No mundo civilizado, das organizações, será possível ter reverência pelo próximo? Na lógica das organizações não há ‘próximos’ nem amigas. A lógica das organizações diz: ‘cada funcionário é apenas um meio para o fim da organização, não importa quão grandioso ele seja!’ Nas organizações os sinos das igrejas não tocam para impedir que o pássaro seja morto.
(O amor que acende a lua, p. 25.)

Rubem Alves

 

O ANESTESISTA

A anestesia foi a primeira de todas as especialidades médicas. São as Escrituras Sagradas que o afirmam. Pois Deus, para retirar de Adão a costela necessária para a criação de Eva, fez cair sobre o homem um sono profundo. Isso, fazer dormir, é ato de anestesista. Foi só então, depois de exercer as funções de anestesista, que Deus se transformou em cirurgião.Deus não queria que o homem sentisse dor. Uma cirurgia feita sem anestesia é uma experiência de uma brutalidade indescritível. Muitos prefeririam morrer a sofrer os horrores da dor de uma cirurgia sem anestesia.O livro O físico descreve como era a cirurgia antes da descoberta da anestesia. Amputação de uma perna. A pessoa amarrada. A navalha cortando a carne. Os gritos. As contorções do corpo. O sangue jorrando.Depois a serra no seu reque – reque serrando o osso.Seguia-se a costura da carne. E, para terminar, o cautério com azeite fervente ou ferro incandescente.

A dor é o que existe de mais terrível na condição humana.Muito cedo nós a experimentamos. O nenezinho chora e se contorce com suas cólicas. Delas não tenho memória. Mas me lembro das cólicas do meu primeiro filho, que chorou por seis meses, sendo que todos os chás, remédios e benzeções foram inúteis. A única coisa que aliviava era pegá-lo no braço e colocá-lo de barriga para baixo. Todo pai gostaria que os deuses fossem caridosos e transferissem para ele a dor do filho.Doeria menos sentir a dor do filho que vê-lo sentindo dor sem nada poder fazer.Dores fazem parte da infância: dor de barriga, dor de dente, dedo cortado com faca, pé cortado em caco de vidro, perna quebrada, galo na testa, martelada no dedo. Aos doze anos entrei correndo na cozinha no momento em que a cozinheira levava uma panela de água fervente. A colisão foi inevitável. A água me caiu no ombro e escorreu pelo peito e pelo braço direito.Ainda tenho marcas. Nunca me esquecerei. Depois vieram outras dores. Cólica de apendicite, cólica de cálculo renal. Dizem que é pior que dor de parto. Só me lembro que uma vez, havendo sido inúteis seis injeções de Buscopan, a dor sendo tão forte que o vômito vinha, o médico ordenou a dolantina. Cinco minutos depois eu não tinha mais dor. Conheci então a felicidade celestial!Não existe nada mais maravilhoso que não sentir dor! Experimentei depois as dores das hérnias de disco. Há sempre o recurso à cirurgia – mas não é sempre que os resultados são definitivos. Um ortopedista que consultei me disse: “Só opero hérnia quando o paciente ameaça suicidar-se!…” Claro, foi uma brincadeira. Brincadeira curta que juntava duas verdades. Primeiro, o caráter duvidoso da cirurgia. Segundo, que a dor pode ser tão forte que as pessoas chegam a imaginar que viver com dor tamanha não vale a pena. É melhor morrer. Na morte não se sente dor.Meu filho Sérgio, o que sofreu cólicas por seis meses, é médico e se especializou em anestesia. É possível que Freud explique. Nossos impulsos vocacionais têm raízes em lugares obscuros da alma. O que não acontece com as escolhas profissionais, que nascem de considerações racionais sobre o mercado de trabalho. É possível que sua vocação de anestesista indefeso, à mercê. Quem está dormindo volta a ser criança. As crianças têm medo de dormir. Por isso elas choram, não querem dormir sozinhas, desejam alguém ao seu lado. Alguém que cuide delas enquanto elas dormem. As canções de ninar são para tirar o medo afim de que o sono seja tranqüilo. A anestesia pode ser feita de duas formas. A primeira é a anestesia como ato técnico, científico, competente, ato que se executa sobre o corpo da pessoa que vai ser operada. A segunda é igual à primeira, acrescida de um cuidado maternal. O anestesista assume, então, a função do pai e da mãe que cantam canções para espantar o medo. Foi o Sérgio que me contou. Conversamos muito sobre o que fazemos. E como ele se orgulha do que faz, ele me conta. Contou-me sobre as visitas aos pacientes amedrontados, às vésperas da cirurgia. Na maioria, crianças e adolescentes. O objetivo dessa visita é técnico: checar o estado físico do paciente: pressão, coração, vias respiratórias etc. Mas a pessoa que está ali é mais que um corpo. É um ser humano. Está com medo. Medo da dor. Medo da morte, pois nunca se pode ter certeza. É preciso espantar o medo para que a vida não se encolha. Mas o medo só sai quando se confia. Não é qualquer pessoa que tira o medo de dormir da criança. Há de ser alguém em quem ela confia. Essa pessoa, e somente ela, tem o poder de cantar uma canção de ninar. O anestesista se transforma então em mãe e em pai: pega no colo a criança amedrontada diante da cirurgia todos nós somos crianças!Sim, há riscos. Mas os riscos não são do tamanho que você imagina. Você tem medo de andar de carro? Pois os riscos da anestesia são infinitamente menores que os riscos de andar de carro. Pode ficar tranqüilo. Amanhã estarei lá, tomando conta de você! No dia seguinte, na sala de cirurgia, os rostos dos médicos e das enfermeiras cobertos pelas máscaras, ele abaixa a máscara, sorri para o paciente já meio grogue, e diz: “Estou aqui!”. Ele me contou de uma jovem que estava apavorada. O medo era enorme. Não conseguia se tranqüilizar. Esgotados todos os recursos maternais, veio-lhe uma iluminação mística. “Você acredita em anjo da guarda?”, ele perguntou para a menina. A menina respondeu: “Acredito.” E ele concluiu: “Pois amanhã eu serei o anjo da guarda tomando conta do seu sono”. Ela ficou tranqüila.
Rubem Alves

 

DOENÇAS E REMÉDIOS 

Minhas netas: quando vocês estão com dor de cabeça vocês sabem que aspirina é o remédio. É uma tosse fraquinha? É só comprar um xarope na farmácia. A tosse não passa, está com febre? É melhor ir ao médico. Pode ser pneumonia. O médico examina, escuta os pulmões com um estetoscópio. Muitas palavras a gente usa sem saber o que significam. Estetoscópio é uma delas. Quem batizou esse instrumento, possivelmente o seu inventor, juntou duas palavras gregas: stethos, que quer dizer “peito”, e skopein, que quer dizer “ver, examinar”. Então estetoscópio é um instrumento que se usa para ouvir o que está dentro do peito. Antes do estetoscópio o médico usava era mesmo o ouvido. Li, não sei onde, e nem sei se é verdade, que quem inventou o estetoscópio era um médico muito tímido que ficava vermelho de vergonha toda vez que tinha de encostar o seu ouvido no peito de uma mulher, especialmente se os seios dela eram grandes e ele tinha de usar suas mãos para afastá-los. Para se livrar desse embaraço ele passou a usar um canudo de papelão, e descobriu que assim se ouvia muito melhor. O resto foram melhorias… Pois o médico escuta os pulmões, diz que há um ronco estranho na base do pulmão esquerdo, pede uma radiografia para confirmar o que o ouvido ouviu. Radiografia, como vocês sabem, é um tipo especial de fotografia. O aparelho de Raio-X, que faz a radiografia, é uma máquina fotográfica que fotografa aquilo que os olhos não vêem, o que está dentro do corpo, usando raios que atravessam os músculos. O médico vê a fotografia dos pulmões, encontra uma mancha no lugar onde o estetoscópio havia detectado um ronco, e dá o diagnóstico, isto é, diz a sua conclusão. “É, você está com pneumonia. Tem de tomar um antibiótico.” A pessoa toma o antibiótico e fica boa. Nós procedemos assim porque confiamos nos remédios e nos médicos. Confiamos nos remédios porque eles são produzidos com os resultados da ciência. E confiamos nos médicos porque os seus saberes são os saberes da ciência. Não sabemos. Confiamos.

Mas lá na roça não havia remédios para se comprar porque não havia farmácias e nem médicos que identificassem a doença e conhecessem o remédio certo. Na roça a farmácia não era de comprimido, xarope e injeção. Na roça a farmácia crescia na horta: ervas medicinais. E cada pessoa tinha de saber transformar a erva em bebida. O processo era simples: tomavam-se as folhas e as colocavam em água fervente. Virava chá. Chá de guaco, chá de camomila, chá de hortelã, chá de folha de laranja, chá de funcho, chá de boldo, chá de carqueja, chá de losna… A lista não tem fim. E cada pessoa tinha de ser o médico: tinha de saber identificar as doenças: vento virado, espinhela caída, nó na tripa, estupor, dor de barriga, indigestão, caganeira, torcicolo, batedeira do coração, congestão, galo, queimação no estrambo, erisipela, furunco, cabeça de prego, barriga d’água, derrame, reumatismo, mal dos sete dias, picadura de cobra, picadura de aranha, picadura de escorpião, queimadura, espinho, hérnia, dor de cabeça, sangue pisado, corte, queimadura de taturana, coceira de urtiga, enjôo de estrambo, crupe, coqueluche, tétano, morróida, nervosia, perna quebrada, bicho-de-pé, berne, lumbriga…

Quem faz chás já sabe um pouco de química: sabe que água fervendo é solvente poderoso que pode extrair das folhas das plantas os seus líquidos curativos. O que me intriga é a história de como os homens descobriram as plantas que curam. Porque plantas, há aos milhares. Como é que eles ficaram sabendo que essa planta é boa para isso, aquela outra é boa para aquilo? Conhecimento não cai do céu. Ele nasce da experiência. Por vezes, vendo o efeito da planta num animal. Conta a lenda que foi assim que se descobriu o café: um pastor de cabras, no oriente, percebeu que suas cabras ficavam mais ativas e vivas depois que comiam umas frutinhas vermelhas Ele ficou curioso, começou a experimentar as frutinhas, teve a idéia de torrar as sementes e moê-las para misturá-las com água fervente – e foi assim que o café foi descoberto. Por vezes a experiência era outra: o animal comia a planta, estrebuchava e morria. A conclusão era clara: aquela planta era veneno. Quem bebe veneno morre. Mas podia ser usado em pontas de flechas. O filósofo Sócrates foi condenado por um tribunal da cidade de Atenas a morrer, bebendo o suco de uma planta venenosa chamada cicuta. Peça ao seu professor ou ao seu pai que lhe conte a história de Sócrates e lhe explique o que ele ensinava. Os venenos sempre foram usados com fins políticos, para matar os inimigos. Prestem atenção quando forem ao restaurante: quando se serve vinho, o garçom põe o vinho primeiro no copo daquele que vai pagar a conta, e ele bebe e aprova. Dizem que é para ver se o vinho está bom. Não é não. Esse ritual tem suas origens em tempos muito antigos: o anfitrião (aquele que convidou) bebia do vinho diante dos convidados como que para lhes dizer: “Podem beber. Não está envenenado!” Hoje, para matar os inimigos, os políticos não usam mais bebidas envenenadas. Eles usam palavras envenenadas… O interessante é que os venenos, se usados em doses mínimas, podem ter efeitos curativos.

Eu mesmo experimentei e ainda experimento os poderes dos chás. Um deles, terrível, se chama losna. É uma planta que cresce no mato. Eu já era mais crescidinho e fiz uma maldade. Peguei uma saracura numa arapuca. Saracura é uma ave do tamanho de um franguinho. Pois eu matei a saracura e pedi para a cozinheira fazer um ensopado de saracura. Ela fez. Eu comi. Castigo da saracura: tive uma dor de estômago terrível. A cozinheira, apelidada Tofa (seu nome era Astolfina) me disse: “O remédio é chá de losna”. Ela fez o chá de losna e eu bebi. Juro: não existe no mundo coisa mais amarga que losna. Foi o chá de losna cair no meu estômago e a saracura saiu voando pela minha boca… Fiquei curado da minha dor.

E os poderes do maracujá? O maracujá é calmante. Há muitos remédios em nossas farmácias feitos à base de maracujá. Sobre o maracujá há uma linda lenda. O nome científico do maracujá é “passiflora”: do Latim passio, que quer dizer “paixão” e flora, que quer dizer “flor”: flor da paixão. Que paixão? A paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo, na cruz. A flor do maracujá é roxa. A lenda explica por que ela é roxa. Havia até uma poesia que começava assim: “Maracujá já foi branco,/ Eu posso inté lhe jurá,/ Mais branco que o argodão,/ Mais branco que o luá…” O resto, eu esqueci. Mas me lembro da estória. Ao pé da cruz de Cristo havia um pé de maracujá florido com suas flores brancas. Mas o sangue de Cristo pingou nas flores, e elas ficaram roxas. É por isso que se chama passiflora, flor da paixão. É claro que isso é apenas uma lenda… bonita… Refresco de maracujá é bom para quem tem insônia. Um copo de refresco de maracujá antes de dormir dá sono tranqüilo…

Quando eu estava com tosse – a maldita tosse de cachorro, aquela que raspa na garganta e dói – minha mãe me dava um chá de canela e punha angu quente no peito. Angu quente porque não havia bolsa de água quente. Minha mãe sabia que o calor ajudava a dissolver os catarros que ficam nos brônquios e nos pulmões. Claro, não era angu quente, direto no peito. Derramava-se o angu mole num pano, embrulhava-se o angu no dito pano e se colocava o calor embrulhado sobre o peito. Era bom. O calor ajuda a aliviar a dor. Para dor de garganta, gargarejo de água morna e sal. Ou um pano embebido em álcool (pinga faz o mesmo efeito) e enrolado no pescoço.

Quando eu era menino e estava na escola não gostava de estudar história. História amargava feito losna. Eu tinha de decorar datas, nomes de batalhas, nomes de homens sem sentido, acontecimentos políticos que não me interessavam, guerras. Acontecia o que aconteceu com o ensopado de saracura: eu vomitava, esquecia… Mas eu teria amado estudar a história dos homens na sua luta contra a dor, contra a doença e a morte!
No princípio era a dor… Foi a dor que fez os homens pensar. Pensaram no que fazer para parar de sofrer. A ciência começa sempre com a dor. E todo o conhecimento científico que os homens criaram e acumularam através dos milênios tem um objetivo apenas: fazer com que soframos menos. É preciso não sofrer para poder ter alegrias. Assim, a ciência, que tira a dor, está a serviço da arte, que dá alegria.

Rubem Alves

 

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O ACORDE FINAL 
Eu havia colocado no toca-discos aquele disco com poemas do Vinicius e do Drummond, disco antigo, long-play – o perigo são os riscos que fazem a agulha saltar, mas felizmente até ali tudo tinha estado lindo e bonito, sem pulos e sem chiados, o próprio Vinicius, na sua voz rouca de uísque e fumo, havia recitado os sonetos da separação, da despedida, do amor total, dos olhos da amada. Chegara meu favorito, “O haver” – o Vinicius percebia que a noite estava chegando e tratava então de fazer um balanço de tudo o que fora feito e do que sobrara disso. Assim, as estrofes começavam todas com uma mesma palavra, “Resta…” – foi isso que sobrou.
 
Resta essa capacidade de ternura, essa intimidade perfeira com o silêncio…
Resta essa vontade de chorar diante da beleza, essa cólera cega em face da injustiça e do mal-entendido…
Resta essa faculdade incoercível de sonhar e essa pequenina luz indecifrável a que às vezes os poetas tomam por esperança…
 
Começava, naquele momento, a última quadra, e de tanta vezes lê-la e outras tantas ouvi-la, eu já sabia de cor suas palavras, e as ia repetindo dentro de mim, antecipando a última, que seria o fim, sabendo que tudo o que é belo precisa terminar.
 
O pôr-do-sol é belo porque suas cores são efêmeras, em poucos minutos não mais existirão.
 
A sonata é bela porque sua vida é curta, não dura mais que 20 minutos. Se a sonata fosse uma música sem fim, é certo que seru lugar seria entre os instrumentos de tortura do Diabo, no inferno.
 
Até o beijo… Que amante suportaria um beijo que não terminasse nunca?
O poema também tinha de morrer para que fosse perfeito, para que fosse belo e para que eu tivesse saudades dele, depois do seu fim. Tudo o que fica perfeito pede para morrer. Depois da morte do poema viria o silêncio – o vazio. Nasceria então uma outra coisa em seu lugar: a saudade. A saudade só floresce na ausência.
 
É na saudade que nascem os deuses- eles existem para que o amado que se perdeu possa retornar. Que a vida seja como o disco, que pode ser tocado quantas vezes se desejar. Os deuses – nenhum amor tenho por eles, em si mesmos. Eu os amo só por isso, pelo seu poder de trazer de volta para que o abraço se repita. Divinos não são os deuses. Divino é o reencontro.
A voz do Vinicius já anunciava o fim. Ele passou a falar mais baixo.
E eu, na minha cabeça, automaticamente me adiantei, recitando em silêncio o último verso: “ sem saber que é a minha mais nova namorada”.
 
Foi então que, no último momento, o imprevisto aconteceu: a agulha pulou para trás – talvez tivesse achado o poema tão bonito que ser recusava a ser uma cúmplice de seu fim, não aceitava sua morte, e ali ficou a voz morta do Vinicius repentindo palavras sem sentido: “ sem saber que é a minha mais nova…” , “ sem saber que é a minha mais nova…”, “ sem saber que é minha mais nova…”.
 
Levantei-me do meu lugar, fui até o toca-discos, e consumei o assassinato: empurrei suavemente o braço com o meu dedo, e ajudei a beleza a morrer, ajudei-a a ficar perfeita. Ela me agradeceu, disse o que precisava dizer “ sem saber que é a minha mais nova namorada…” Depois disso foi o silêncio.
 
Fiquei pensando se aquilo não era uma parábola para a vida, a vida como uma obra de arte, sonata, poema, dança. Já no primeiro momento, quando o compositor ou o poeta ou o dançarino preparam sua obra, o último momento já está em gestação. É bem possível que o último verso do poema tenho sido o primeiro a ser escrito pelo Vinicius. A vida é tecida como a teia de aranha: começa sempre do fim. Quando a vida começa do fim, ela e sempre bela, por ser colorida com as cores do crepúsculo.
 
 
Não, eu não acredito que a vida biológica deva ser preservada a qualquer preço.
 
“Para todas as coisas há o momento certo. Existe o tempo de nascer e o tempo de morrer ( Eclesistes 3 1-2).
 
A vida não é uma coisa biológica. A vida é uma entidade estética. Morta a possibilidade de sentir alegria diante do belo, morre também a vida, tal como Deus no-la deu – ainda que a parafenália dos médicos continue a emitir seu bips e a produzir ziguezagues no vídeo.
 
A vida é como aquela peça. É preciso terminar.
A morte é o último acorde que diz: está completo. Tudo o que se completa deseja morrer.
 
Do livro: As melhores crônicas de Rubem Alves
 
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A chegada e a despedida

Em Minas, em agradecimento a uma esmola que lhes tivesse sido dada por uma grávida, as mendigas a benziam com a saudação “Nossa Senhora do Bom Parto que lhe dê boa hora!” Benzeção confortante porque a hora da grávida é hora de dor e angústia, precisando da proteção da Virgem Parteira. Vendo, ninguém acreditaria que um nenezinho pudesse passar por canal tão apertado. Dor para a mãe, angústia para o nenê.

No lugar onde as palavras nascem elas brilham com uma clareza espantosa. Vou ao nascedouro da palavra Angústia: nasceu do verbo latino angere, que significa apertar, sufocar. Assim, no seu nascedouro, angústia queria dizer estreiteza. O nenezinho, que estava numa boa, vai ser apertado e sufocado dentro de um canal. Vai sentir angústia. E, pelo resto de sua vida, sempre que tiver de passar por um canal apertado e escuro, vai sentir de novo o mesmo que sentiu para nascer. Angústia e dor misturadas assim, não admira que as mendigas invocassem a Virgem…

A medicina, descrente de Virgens e benzeções de mendigas, não conseguiu se livrar das angústias e dores das grávidas, e tratou de arranjar alguém que fizesse as vezes da Virgem para cuidar delas quando chegasse a sua hora. Criou uma especialidade alegre, a mais antiga de todas: a obstetrícia. “Obstetrix”, em latim, quer dizer parteira. Uma tradução literal da palavra seria “aquela que está diante”. A parteira está diante da mãe. Diante da mãe ela aguarda o nenezinho. Sua função é ajudar a vida a atravessar a apertada angustiante passagem que leva do escuro da barriga da mãe à luz do mundo aqui de fora: “dar à luz”. Que fantasias terríveis devem passar pela criancinha ao se sentir espremida, deslocada, empurrada, arrancada, apertada! é possível que ela sinta que vai morrer. Mas, ao final do canal apertado, a “obstetrix” a acolhe, como se fosse a mãe… é ela, a parteira, a primeira experiência do mundo que a criancinha tem, a Virgem bendita.

A vida começa com uma chegada. Termina com uma despedida. A chegada faz parte da vida. A despedida faz parte da vida. Como o dia, que começa com a madrugada e termina com o sol que se põe. A madrugada é alegre, luzes e cores que chegam. O sol que se põe é triste, orgasmo final de luzes e cores que se vão. Madrugada e crepúsculo, alegria e tristeza, chegada e despedida: tudo é parte da vida, tudo precisa ser cuidado. A gente prepara, com carinho e alegria, a chegada de quem a gente ama. é preciso preparar também, com carinho e tristeza, a despedida de quem a gente ama.

Sobre isso sabem melhor que nós os orientais. Sabem que os opostos não são inimigos: são irmãos. Noite e dia, silêncio e música, repouso e movimento, riso e choro, calor e frio, sol e chuva, abraço e separação, chegada e partida: são os opostos pulsantes que dão vida à vida. Vida e Morte não são inimigas. São irmãs. Chegada e despedida… Sem a frase que a encerra a canção não existiria. Sem a Morte a Vida também não existiria pois a vida é, precisamente, uma permanente despedida…

A medicina criou a obstetrícia como uma especialidade cuja missão é “estar diante” da vida que está chegando. Acho que ela, por amor aos homens, deveria também criar uma especialidade simétrica à obstetrícia, cuja missão seria “estar diante” daqueles que estão morrendo. A Morte também está cheia de medos de dor. A Morte é também um angustiante canal apertado e escuro. E solidão. O nenezinho, na passagem escura e apertada, está totalmente sozinho e abandonado. Aquele que está morrendo, também, está absolutamente sozinho e abandonado. Aqueles que o amam e o cercam estão longe, muito longe: as mãos dadas não transpõem o abismo. A Morte é sempre um mergulho no abandono.

Pensei nessa especialidade… Pois a missão da medicina não é cuidar da vida? Pois a despedida também é parte da vida. Os que estão partindo ainda estão vivendo… Eles precisam de tantos cuidados quanto aqueles que estão nascendo. E até inventei um nome para tal especialidade. Combinei duas palavras: Moriens, entis, do latim, que quer dizer: “que está morrendo”; e therapeuein, do grego, que quer dizer “cuidar, servir, curar”. Saiu, então, morienterapia, os cuidados com aqueles que estão morrendo. E o morienterapeuta seria aquele que, à semelhança do obstetra, se encontra “diante” daquele que está se despedindo. Nossa Senhora do Bom Parto é a padroeira das parturientes. Procurei uma outra Nossa Senhora para ser a padroeira dos que estão morrendo. Eu a descobri na Pietà: aquela que acolhe no seu colo o filho que está morrendo. Morrer nos braços da Pietà é, talvez, sentir-se finalmente voltando para o colo de uma mãe que nunca se teve mas que sempre se desejou ter. No colo da Pietà a despedida poderia ser vivida, então, talvez como um retorno ao colo materno.

Alguns me dirão que tal especialidade já existe: os intensivistas são “aqueles que estão diante” daqueles que estão morrendo. Quem diz isso não me entendeu. A missão dos intensivistas é o oposto do que estou dizendo. A missão deles é a impedir a despedida, a qualquer custo. Por isso eles são pessoas agitadas. A qualquer momento pode haver uma parada cardíaca – e se eles não correrem e não forem competentes a partida acontecerá. Cada partida é uma derrota. O morienterapeuta, ao contrário, entra em cena quando as esperanças se foram. A despedida é certa. Ele ou ela – tem de estar em paz com a vida e a morte – tem de saber que a morte é parte da vida: precisa ser cuidada. Por isso, o morienterapeuta terá de ser um ser tranqüilo, em paz com o fim, com o fim dos outros de quem ele cuida, em paz com o seu próprio fim, quando outros cuidarão dele. Dele não se esperam nem milagres e nem recursos heróicos para obrigar o débil coração a bater por mais um dia. Dele se esperam apenas os cuidados com o corpo – é preciso que a despedida seja mansa e sem dor. E os cuidados com a alma: ele não tem medo de falar sobre a morte.

Sei que isso deixa os médicos embaraçados. Aprenderam que sua missão é lutar contra a Morte. Esgotados os seus recursos, eles saem da arena, derrotados e impotentes. Pena. Se eles soubessem que sua missão é cuidar da vida, e que a morte, tanto que o nascimento, são parte da vida, eles ficariam até o fim. E assim, ficariam também um pouco mais sábios. E até – imagino – começariam a escrever poesia…

 

 

SAÚDE MENTAL

Fui convidado a fazer uma preleção sobre saúde mental. Os que me convidaram supuseram que eu, na qualidade de psicanalista, deveria ser um especialista no assunto. E eu também pensei. Tanto que aceitei. Mas foi só parar para pensar para me arrepender. Percebi que nada sabia. Eu me explico.

Comecei o meu pensamento fazendo uma lista das pessoas que, do meu ponto de vista, tiveram uma vida mental rica e excitante, pessoas cujos livros e obras são alimento para a minha alma. Nietzsche, Fernando Pessoa, Van Gogh, Wittgenstein, Cecília Meireles, Maikóvski. E logo me assustei. Nietzsche ficou louco. Fernando Pessoa era dado à bebida. Van Gogh se matou. Wittgenstein se alegrou ao saber que iria morrer em breve: não suportava mais viver com tanta angústia. Cecília Meireles sofria de uma suave depressão crônica. Maiakóvski suicidou.

Essas eram pessoas lúcidas e profundas que continuarão a ser pão para os vivos muito depois de nós termos sido completamente esquecidos.

Mas será que tinham saúde mental? Saúde mental, essa condição em que as ideias se comportam bem, sempre iguais, previsíveis, sem surpresas, obedientes ao comando do dever, todas as coisas nos seus lugares, como soldados em ordem unida, jamais permitindo que o corpo falte ao trabalho, ou que faça algo inesperado, nem é preciso dar uma volta ao mundo num barco a vela, basta fazer o que fez a Shirley Valentine (se ainda não viu, veja o filme!), ou ter um amor proibido ou, mais perigoso que tudo isso, que tenha a coragem de pensar o que nunca pensou. Pensar é coisa muito perigosa…

Não, saúde mental elas não tinham. Eram lúcidas demais para isso. Elas sabiam que o mundo é controlado pelos loucos e idiotas de gravata. Sendo donos do poder, os loucos passam a ser os protótipos da saúde mental. É claro que nenhuma mamãe consciente quererá que o seu filho seja como Van Gogh ou Maiakóvski. O desejável é que seja executivo de grande empresa, na pior das hipóteses funcionário do Banco do Brasil ou da CPFL. Preferível ser elefante ou tartaruga a ser borboleta ou condor. Claro que nenhum dos nomes que citei sobreviveria aos testes psicológicos a que teria de se submeter se fosse pedir emprego. Mas nunca ouvi falar de político que tivesse stress ou depressão, com exceção do Suplicy. Andam sempre fortes e certos de si mesmos, em passeatas pelas ruas da cidade, distribuindo sorrisos e certezas.

Sinto que meus pensamentos podem parecer pensamentos de louco e por isso apresso-me aos devidos esclarecimentos.

Nós somos muito parecidos com computadores. O funcionamento dos computadores, como todo mundo sabe, requer a interação de duas partes. Uma delas se chama hardware, literalmente coisa dura e a outra se denomina software, coisa mole. A hardware é constituída por todas as coisas sólidas com que o aparelho é feito. A software é constituída por entidades espirituais – símbolos, que formam os programas e são gravados nos disquetes.

Nós também temos um hardware e um software. O hardware são os nervos, o cérebro, os neurônios, tudo aquilo que compõe o sistema nervoso. O software é constituído por uma série de programas que ficam gravados na memória. Do mesmo jeito como nos computadores, o que fica na memória são símbolos, entidades levíssimas, dir-se-ia mesmo espirituais, sendo que o programa mais importante é linguagem.

Um computador pode enlouquecer por defeitos no hardware ou por defeitos no software. Nós também. Quando o nosso hardware fica louco há que se chamar psiquiatras e neurologistas, que virão com suas poções químicas e bisturis consertar o que se estragou. Quando o problema está no software, entretanto, poções e bisturis não funcionam. Não se conserta um programa com chave de fenda. Porque o software é feito de símbolos, somente símbolos podem entrar dentro dele. Assim, para se lidar com o software há que se fazer uso de símbolos. Por isso, quem trata das perturbações do software humano nunca se vale de recursos físicos para tal. Suas ferramentas são palavras, e eles podem ser poetas, humoristas, palhaços, escritores, gurus, amigos e até mesmo psicanalistas.

Acontece, entretanto, que esse computador que é o corpo humano tem uma peculiaridade que o diferencia dos outros: o seu hardware, o corpo, é sensível às coisas que o seu software produz. Pois não é isso que acontece conosco? Ouvimos uma música e choramos. Lemos os poemas eróticos do Drummond e o corpo fica excitado.

Imagine um aparelho de som. Imagine que o toca-discos e acessórios, o software, tenha a capacidade de ouvir a música que ele toca, e de se comover. Imagine mais, que a beleza é tão grande que o hardware não a comporta, e se arrebenta de emoção! Pois foi isso que aconteceu com aquelas pessoas que citei, no princípio: a música que saía do seu software era tão bonita que o seu hardware não suportou.

A beleza pode fazer mal à saúde mental. Sábias, portanto, são as empresas estatais, que têm retratos dos governadores e presidentes espalhados por todos os lados: eles estão lá para exorcizar a beleza e para produzir o suave estado de insensibilidade necessário ao bom trabalho.

Dadas essas reflexões científicas sobre a saúde mental, vai aqui uma receita que, se seguida à risca, garantirá que ninguém será afetado pelas perturbações que afetaram os senhores que citei no início, evitando assim o triste fim que tiveram.

Opte por um software modesto. Evite as coisas belas e comoventes. Cuidado com a música. Brahms e Mahler são especialmente perigosos. Já o roque pode ser tomado à vontade, sem contra indicações. Quanto às leituras, evite aquelas que fazem pensar. Há uma vasta literatura especializada em impedir o pensamento. Se há livros do Dr. Lair Ribeiro, por que arriscar-se a ler Saramago? Os jornais têm o mesmo efeito. Devem ser lidos diariamente. Como eles publicam diariamente sempre a mesma coisa com nomes e caras diferentes, fica garantido que o nosso software pensará sempre coisas iguais. A saúde mental é um estômago que entra em convulsão sempre que lhe é servido um prato diferente. Por isso que as pessoas de boa saúde mental têm sempre as mesmas ideias. Essa cotidiana ingestão do banal é condição necessária para a produção da dormência da inteligência ligada à saúde mental. E, aos domingos, não se esqueca do Sílvio Santos e do Gugu Liberato.

Seguindo esta receita você terá uma vida tranquila, embora banal. Mas como você cultivou a insensibilidade, você não perceberá o quão banal ela é. E, ao invés de ter o fim que tiveram os senhores que mencionei, você se aposentará para, então, realizar os seus sonhos. Infelizmente, entretanto, quando chegar tal momento, você já não mais saberá como eles eram.
(Provavelmente escrito em 1994)

Conheça o Instituto Rubem Alves e participe de seus projetos.

Fonte: https://rubemalvesdois.wordpress.com/2011/07/26/o-anestesista/

 

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