O FUTURO PERTENCE ÀS CRIANÇAS EMPREENDEDORAS


O FUTURO PERTENCE ÀS CRIANÇAS EMPREENDEDORAS

 

A rápida transformação do mundo requer uma educação para a criatividade, inovação e empreendedorismo

2 JUL 2020 | GERAÇÕES SEM IDADE

POR GLOOB

Desde os anos 1980, com o surgimento da economia globalizada e da revolução tecnológica, o foco da produção de riquezas não se concentra somente na produção em série, de larga escala, e sim nas especializações flexíveis, favorecendo o fortalecimento das pequenas e médias empresas, com destaque para as startups. Ao mesmo tempo, as mudanças socioeconômicas e culturais das últimas décadas impelem as novas gerações para o consumo consciente, a sustentabilidade, os negócios de impacto social e a valorização dos produtos regionais.

Empreendedorismo e criatividade são as palavras-chave para o manual de sobrevivência das crianças e adolescentes de hoje como adultos nas próximas décadas. Afinal, muitos empregos estarão obsoletos em 2040 e a capacidade de mudar, se reinventar e se adaptar a um mundo imprevisível será crucial.

Por isso, muitos pais – e filhos – estão levando a sério a proposta de uma educação empreendedora dentro e fora da escola. Estatísticas apontam que 69% dos pais brasileiros estimulam que seus filhos sejam os melhores no que fazem.  Nesse contexto, o kidspreneurship (empreendedorismo infanto-juvenil) está se tornando um fenômeno no mundo inteiro.

Muito além da Feira de Ciências

No Reino Unido, aproximadamente metade das crianças estão iniciando pequenos negócios para fazer seu próprio dinheirinho, mesmo recebendo mesadas e presentes dos pais. Além da escola e dos momentos de brincadeira, algumas mostram seu espírito empreendedor limpando o carro do vizinho ou vendendo brinquedos antigos em sites como eBay, enquanto outras inventam novos produtos e serviços e criam negócios mais sofisticados.

Uma pesquisa liderada pela investidora britânica Sarah Willingham aponta que 32% das crianças locais querem ser donas do próprio negócio quando crescerem.


Márcio Junior

Exemplo disso no Brasil é Márcio Júnior, menino-empresário de Vicente de Carvalho (RJ) que, motivado a comprar um novo videogame, começou a produzir bijuterias com peças de Lego. Sua empresa, MJ Bricks, já foi tema de uma quadro no programa Caldeirão do Huck.

Um estudo do Kings College de Londres aponta que o talento dos fundadores de grandes negócios está no DNA e não pode ser ensinado, porém uma outra pesquisa da Universidade de Minessota aponta que características inatas como paixão, visão, tolerância ao risco, persistência e liderança natural só determinam o sucesso de um empreendedor 30% do tempo. O restante depende de habilidades comportamentais e emocionais como boa comunicação, empatia, foco, flexibilidade, colaboração e comprometimento, que só podem ser desenvolvidos a partir das experiências individuais. Outras capacidades que podem ser treinadas desde a infância são a criatividade, o pensamento crítico e a resolução de problemas complexos.


Jasmine Lawrence

Nos Estados Unidos, onde é crescente o movimento pela educação empreendedora, há muitas escolas que já incorporaram o empreendedorismo à grade curricular, com direito ao ensino de metodologias e planos de negócios. Em Austin, no estado do Texas, as escolas públicas participantes de um programa de ensino do empreendedorismo criaram incubadoras de negócios que promovem até mesmo uma espécie de Shark Tank para que seus alunos vendam suas ideias e recebam investimentos para viabilizá-las. Há projetos que incluem crianças a partir dos 5 anos e vai se tornando mais complexo até atingir as turmas de adolescentes. A ideia pegou e o país já conta com várias feiras de negócios juvenis. 

Criado em Nova York, em 1987, a NFTE (Network for Teaching Entrepreneurship) é uma rede pioneira em educação para o empreendedorismo. Steve Mariotti, seu fundador, era um professor e matemática de uma escola carente do Bronx que vivia frustrado com o número de alunos que abandonavam os estudos. Ele notou que a esperteza e criatividade deles poderia ser melhor canalizada para idealizar e viabilizar novos negócios, além de aumentar o engajamento dos adolescentes com a escola e com a sociedade, iniciando uma entidade sem fins lucrativos que ganhou escala global.


Juan Daniel Ramos Fuentes

Hoje, a NFTE atua em diversas áreas de baixa renda em vários países. Entre os ex-alunos que prosperaram em seus negócios, estão Jasmine Lawrence, que criou a marca de cosméticos naturais Eden BodyWorks aos 11 anos, e hoje fatura milhões de dólares. Graduada em Engenharia, ela trabalha como gerente de projetos no Facebook enquanto lidera seu próprio negócio. Nascido em El Salvador, o adolescente Juan Daniel Ramos Fuentes mal falava inglês quando se mudou para os EUA, em 2010. Dois anos depois, ele e seu sócio criaram o Better Than History, um game que ajuda os jogadores a compreenderem a História criticamente. Em 2014, eles foram convidados a representar o NFTE na Feira de Ciências da Casa Branca. Hoje, Juan é engenheiro de software em Austin, no Texas.

Escola X Aprendizado self-service

No Brasil, o pesquisador Fernando Dolabela é o pai  da “pedagogia empreendedora”, hoje adotada por grandes grupos de educação básica e universitária. Ela implica em preparar intelectualmente os alunos para a inovação, o planejamento e a tomada de riscos com mais chances de sucesso, quebrando paradigmas da educação tradicional e utilitária, e criando seres humanos autônomos, que contribuam criativamente para uma sociedade heterogênea e multicultural. 

SEBRAE também conta com um programa de desenvolvimento dessas habilidades voltado para crianças e adolescentes entre 6 e 16 anos de idade. É interessante perceber a força de temas como a sustentabilidade e a responsabilidade social permeiam as ideias desses alunos tão naturalmente desde cedo.

Entretanto, a escola não é a única porta de entrada para este tipo de conhecimento. O consumo de cursos, vídeos no YouTube, tutoriais, podcasts e outros conteúdos na internet já está sendo visto não apenas como via complementar, mas como caminho principal para o aprendizado autônomo de diversos conceitos. Há, inclusive, estudos que apontam que o aprendizado virtual deve ser o padrão da próxima década.

O pesquisador britânico Ken Robinson, por exemplo, aposta que o “aprendizado self-service” vai promover uma revolução, criando condições para que os talentos individuais possam florescer. Isso significa que muitas crianças de hoje não precisarão ir à universidade para obterem o conhecimento que precisam para atuar no mundo de maneira ativa e bem sucedida. Nesse sentido, os pais também podem ajudar com orientações para uma vida empreendedora.

Características comuns ao mundo infantil – como a curiosidade, a abertura para o aprendizado e a capacidade inventiva - estão entre os requisitos básicos para empreender com sucesso e desenhar a sociedade das próximas décadas. Em casa ou na escola, é importante que a educação de hoje seja capaz de compreender e preparar as novas gerações para agirem com autonomia, segurança e conhecimento para vencer os desafios do século 21.

Arte e ilustração: Jordana Leite / Imagem: Nadezhda1906 / Texto: Renata D’elia

 

Fonte: https://gente.globo.com/o-futuro-pertence-as-criancas-empreendedoras/


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