O CÂNCER NÃO ESPERA FILA.

O Senado aprovou o projeto de lei que fixa um prazo máximo (60 dias) para início do tratamento de pacientes com câncer pelo SUS. Ainda falta a sanção da presidente Dilma Rousseff, que dificilmente vetaria um projeto dessa natureza.

Mas será que existe alguma chance de esse prazo ser respeitado pela rede pública? Tenho minhas dúvidas.

O tratamento do câncer é uma das áreas mais críticas do SUS. Segundo relatório do Tribunal de Contas da União, em 2010, só 34% dos pacientes de câncer conseguiram fazer radioterapia. Outros 53% demoraram muito para conseguir uma cirurgia.

O tempo médio de espera por uma quimioterapia foi de 76 dias. Apenas 35% dos pacientes foram atendidos em 30 dias, prazo que o próprio Ministério da Saúde recomenda e considerado o ideal pelos especialistas. Na radioterapia, são 113 dias de espera, em média.

Apenas 16% são atendidos no primeiro mês. Isso sem contar o tempo precioso perdido entre o cidadão perceber que tem algo errado, conseguir consulta com especialista e encontrar vaga em centro oncológico.

ESTÁGIO AVANÇADO

Essa espera faz com que muitos pacientes comecem o tratamento com o tumor em estágio mais avançado e, portanto, com menor chance de cura. Estudos mostram que enquanto em outros países os pacientes com câncer sobrevivem de 12 a 16 anos, em média, no Brasil esse tempo é reduzido para dois a quatro anos.

Diante desse cenário, fica difícil pensar que, num passe de mágica, as pessoas passarão a ser atendidas em até dois meses após o diagnóstico da doença –com medicamentos, quimioterapia, radioterapia e cirurgia.

O fato é que o país não se preparou para enfrentar a doença, que tem 500 mil novos casos por ano. Faltam leitos, equipamentos e profissionais qualificados. E não há solução a curto prazo. É preciso que se faça investimentos no desenvolvimento de uma infraestrutura que possa dar vazão à demanda, que só crescerá com o envelhecimento populacional.

O que acontece hoje no Estado de Rondônia (Norte) é um bom exemplo para entender o tamanho da complicação. Quase todos (97%) dos pacientes que têm câncer diagnosticado por lá viajam mais de 3.000 km para serem atendidos no Hospital de Câncer em Barretos, interior de SP, porque não existem centros especializados naquela região.

O próprio ministro da Saúde, Alexandre Padilha, reconhece a desigualdade de acesso ao tratamento oncológico, especialmente nas regiões Norte e Nordeste, mas diz que o SUS tem ampliado o volume de recursos para tratamento contra o câncer. No ano passado, foram R$ 2,2 bilhões de investimentos –R$ 400 milhões a mais do que em 2010.

Padilha também já anunciou a compra de 80 aceleradores nucleares (ainda em processo licitatório) para a realização de radioterapia, o principal gargalo no serviço público. Mas isso, na melhor das hipóteses, só começará a funcionar em 2015.

DISPARIDADE

Enquanto isso, milhares de brasileiros vão continuar morrendo porque não tiveram a mesma sorte de pessoas como a presidente Dilma e o ex-presidente Lula de estarem em um centro oncológico de excelência, onde puderam diagnosticar e tratar seus tumores precocemente.

Há três anos, uma pesquisa feita com mulheres que tiveram câncer de mama mostrou que a sobrevida das que são tratadas no SUS é 10% menor do que aquelas acompanhadas pelos serviços privados. Entre elas, o câncer também foi diagnosticado em estágios mais avançados (36% contra 16%).

A incorporação recente da droga trastuzumabe no SUS (usada por 25% das mulheres com câncer de mama), dez anos depois de a rede privada já oferecê-la, é outro exemplo da disparidade entre os mundos da saúde pública e da privada.

Portanto, garantir o atendimento integral aos doentes oncológicos em um menor período de tempo possível é a única chance de o país reduzir as mortes evitáveis pela doença. Não há números de quantas elas seriam, mas uma coisa é certa: o câncer não espera na fila.

Fonte: Folha de São Paulo

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Filas para cirurgias aumentam angústia de pacientes com câncer

Apesar de lei determinar o tratamento aos pacientes até 60 dias depois do diagnóstico, não é isso que é encontrado na prática.

A imagem impressiona. O que parece um planeta com uma grande mancha escura é, na verdade, um globo ocular com um tumor de coroide, um câncer. É o olho da Shirley de Souza Marques. Veja no vídeo acima.

“Diagnosticou um tumor de 4,1 milímetro dentro de um período para tratamento. A partir de 6 milímetros ele já começa a não ter mais chance de tratar, com 9 milímetros é a enucleação total do globo ocular”, explica a recepcionista.

Enucleação é a retirada total para a colocação de um olho de vidro, mas no caso da Shirley havia opção.

“A braquiterapia é um tratamento que consiste de uma radioterapia de contato. A grande vantagem é a tentativa da preservação do olho e da visão, sendo uma radiação focalizada para aquela região do tumor”, aponta a oftalmologista Márcia Motono.

Descobrir a doença no comecinho, como aconteceu com a Shirley, representa uma enorme vantagem para chegar à cura. Mas muitos brasileiros que dependem do SUS já começam em desvantagem. Demoram na largada, que é o diagnóstico. Além disso, há barreiras pela frente, elas são muitas e atrasam ou derrubam quem sonha com a vitória.

A primeira barreira Shirley encontrou no hospital federal onde teve o diagnóstico. “Faz braquiterapia no hospital São Paulo, mas não tem verba para a placa. Não tem verba, não tem dinheiro”, diz.

Ela continuou a corrida, só que agora na pista estadual. “Eu fiquei o dia inteiro no Hospital das Clínicas fazendo exames. A solução: ‘Não faz, não fazemos braquiterapia, o Hospital das Clínicas não faz o tratamento braquiterapia ocular’”, conta.

A angústia só aumentava. “Falava para meu filho assim: ‘Filho, mamãe sai de casa com uma bolsa de exames e na outra mão é uma bolsa de esperança. Aí eu chego nos lugares, a bolsa de esperança fica no lixo’”.

O medo da doença se espalhar fez Shirley pensar em desistir de preservar o olho.

“Falei: ‘Eu vou tirar, não quero mais’. É muito não, é muita humilhação, é muito sofrimento. Então se no Hospital São Paulo fazem a enucleação, é a enucleação que vou fazer”, diz.

O marido sofria junto, mas não a deixava fraquejar. O fim da maratona, para chegar ao tratamento, estava na pista municipal. Só que Shirley teria que partir do zero. Como mora em Osasco precisou de um comprovante de residência de parente em São Paulo para entrar na fila do município.

“E eu entrei no sistema siga. Aí a fila é aquela fila a perder de vista”, lembra Shirley.

O Jornal Nacional foi até a chamada Central de Regulação da cidade de São Paulo para saber como funciona esse sistema de encaminhamento dos pacientes para os especialistas e para os tratamentos contra o câncer.

Os computadores estão ligados aos postos de saúde, que mandam os pedidos de quem já tem o diagnóstico de câncer. Já os institutos e hospitais que tratam a doença, oferecem vagas e horários com especialistas. Os profissionais de saúde, de olho nas telas, juntam os dois.

A médica que coordena o serviço surpreende.

Marli da Costa Taraia, coordenadora da Central de Regulação de São Paulo: Hoje eu não tenho fila.
Jornal Nacional: Por que pessoas estão esperando então, às vezes?
Marli: Na verdade falta o diagnóstico para ele ter acesso ou ele está andando de um lado para o outro e não conseguindo chegar.

E ela vai mostrando os problemas: erro na ficha do paciente pode travar o sistema. “Um CEP que não foi preenchido, você para todo o serviço e vai procurar”, diz Marli da Costa.

Já um hospital que não atende pode fazer um paciente de alto risco voltar para o começo da corrida.

“Tentou marcar oncologia cabeça e pescoço, na Santa Casa, mas foi orientado a procurar uma UBS, porque não havia vaga. Aí tem o resultado da biopsia, que é um carcinoma espinocelular moderadamente diferenciado e invasivo”, exemplifica a coordenadora.

O Brasil precisa com urgência que o sistema de regulação saia do papel e distribua os pacientes com câncer pelos serviços estaduais, municipais e federais. É uma reivindicação que ouvimos de todos os especialistas.

“Acho que precisava ser um fluxo mais transparente. Que eu possa ligar para uma central ou que eu possa acessar uma internet que me fale em que lugar da fila eu estou. ‘Vai para casa que te chamo’, não dá pra ser assim”, comenta Luciana Holtz de Camargo, presidente do Instituto Oncoquia – SP.

“Ao meu ver, a saída é o investimento maior em saúde. Uma gestão muito mais profissionalizada. Tentando sempre fazer uma análise muito correta de custo benefício”, diz o diretor do Centro Oncológico Antônio Ermírio de Moraes, Fernando Cotait Maluf.

“O Sistema Único de Saúde, ele é perfeito. Acho um sistema magnífico. O problema é a burocratização que o sistema coloca. E o câncer ele não pode ficar esperando essa burocracia. Ele avança rapidamente”, afirma Pascoal Marracini, Diretor do Instituto do Câncer Dr. Arnaldo Vieira de Carvalho – SP.

Quando a Shirley finalmente entrou no sistema, havia oito pessoas precisando do mesmo tratamento e só quatro vagas. Foi difícil, mas ela conseguiu vaga no Hospital AC Camargo, um dos melhores do país e que atende pacientes do SUS e particulares também.

“Finalmente. Graças a Deus. A tão esperada hora. Era o tratamento, a batalha foi longa, mas graças a Deus estou aqui”, diz Shirley.

Chegar em um centro público de excelência é uma glória. O Icesp, Instituto do Câncer do Estado de São Paulo, é um deles. Trata atualmente 48 mil pacientes e recebe mil novos por mês. Foi criado para fazer tratamento humanizado e de ponta. Tem até robô para a cirurgia. Mas não dá para todo mundo.

“Os indivíduos fazem, na busca da cura, é uma corrida de barreira. Ele vence um obstáculo, tem que vencer um segundo, um terceiro porque é a vida dele”, aponta William Nahas, chefe de Urologia do Instituto do Câncer do Estado de SP.

Cura é a palavra que a Shirley ainda tem que esperar para ouvir, mas os primeiros exames depois da cirurgia mostram que a braquiterapia foi um sucesso. A alegria é enorme.

“Alívio, alívio de saber que eu estou enxergando, que eu não precisei retirar meu olho, meu globo ocular está aqui, verde, lindo, maravilhoso”, comemora Shirley.

Mas a felicidade não é completa. “E as outras pessoas que estão aguardando na fila? Como estão? O que será de cada uma delas?”, questiona Shirley.

http://g1.globo.com/jornal-nacional/noticia/2016/01/filas-para-cirurgias-aumentam-angustia-de-pacientes-com-cancer.html

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Ministério reafirma compromisso: início de tratamento de câncer em até 60 dias no SUS

16/05/2013 – Lei sancionada pela Presidenta Dilma Rousseff entra em vigor dia 23; contagem do prazo tem início a partir da inclusão do diagnóstico no prontuário do paciente.

Pacientes com câncer deverão ter o início de seu tratamento assegurado em no máximo 60 dias após a inclusão da doença em seu prontuário. Prevista na Lei 12.732/12, sancionada pela presidente Dilma Rousseff, a medida teve sua regulamentação detalhada nesta quinta-feira (15) pelo ministro da Saúde, Alexandre Padilha. O prazo máximo vale para que o paciente passe por uma cirurgia ou inicie sessões de quimioterapia ou radioterapia, conforme prescrição médica. A Portaria 876, de 16 de maio de 2013, dispõe sobre a aplicação da lei.

“É um grande desafio o que a lei propõe, mas a presidenta Dilma Rousseff e o seu governo entendem que esta obrigatoriedade vai mobilizar a sociedade e os gestores locais para que seja oferecido tratamento adequado do câncer”, avaliou Padilha.

Antes mesmo da vigência da lei, 78% dos pacientes em estágio inicial da doença têm seu tratamento iniciado em menos de 60 dias, sendo que 52% têm esse direito assegurado em até duas semanas, conforme registros do INCA. Para casos avançados, o acesso em até dois meses já ocorre para 79% dos pacientes, sendo 74% destes em até uma quinzena.

A formação de médicos especialistas no tratamento do câncer, segundo Padilha, é fundamental para o cumprimento da lei e para a redução das desigualdades regionais. “Estamos formando especialistas em oncologia clínica, pediátrica, cirúrgica, entre outras áreas. Criamos um incentivo financeiro no valor de R$ 200 mil, além de incentivo mensal de custeio. A medida é para que os hospitais tenham estímulo para abrir novas vagas de residência em áreas prioritárias como a oncologia”, explicou.

Segundo o Secretário de Atenção à Saúde do Ministério, Helvécio Magalhães, “as novas regras, além de decisivas para a redução do tempo de espera, deixam claras as atribuições da União, dos estados e dos municípios no diagnóstico e no tratamento do paciente com câncer e estruturam uma lógica para atendimento ágil e de qualidade”.

Para auxiliar estados e municípios, que são os gestores dos serviços oncológicos da rede pública, a gerenciar sua fila de espera e acelerar o atendimento, o Ministério da Saúde criou o Sistema de Informação do Câncer (Siscan). O software, disponível gratuitamente para as secretarias de saúde a partir dessa semana, reunirá o histórico dos pacientes e do tratamento, possibilitando acompanhar o panorama da doença.

A partir de agosto, todos os registros de novos casos de câncer terão de ser feitos pelo Siscan. Estados e municípios que não implantarem o sistema até o fim do ano terão suspensos os repasses feitos pelo Ministério da Saúde para atendimento oncológico.

Patrícia Chueiri, coordenadora geral de Atenção às Pessoas com Doenças Crônicas do Ministério, aponta o avanço na reestruturação do atendimento, que deve funcionar em rede. “O SUS está se reorganizando para oferecer o diagnóstico precoce do câncer e o tratamento adequado para a doença”, avaliou.

Monitoramento – Outra medida adotada pelo MS para garantir o cumprimento da lei em todo o País é a realização de visitas aos hospitais que atendem pelo SUS para avaliar as condições de funcionamento e a capacidade de ofertar o atendimento com agilidade.

Esse trabalho será desempenhado pela Comissão de Monitoramento e Avaliação do cumprimento da Lei nº 12.732, de caráter permanente, que terá entre suas atribuições acompanhar os processos de implantação do Siscan e a execução dos planos regionais de oncologia.

Reforço no atendimento – Com apoio técnico e recursos do MS, unidades de saúde que ofertam serviços de radioterapia serão estimuladas a adotar um terceiro turno de funcionamento – atualmente, o atendimento costuma ocorrer pela manhã e pela tarde -, de cinco horas de duração. Até agora, 93 serviços demonstraram interesse em expandir o horário de funcionamento. Outra alternativa é a contratação de hospitais da rede privada para prestação de serviços ao SUS.

Também está em curso a seleção de empresa que instalará 80 serviços de radioterapia em todo o país, considerando a ampliação de 39 serviços já existentes e a criação de outros 41, com investimento federal da ordem de mais de R$ 500 milhões.

Ampliação do acesso – O Ministério da Saúde tem investido na melhoria do acesso da população a prevenção, exames e tratamentos do câncer. De 2010 a 2012, o investimento do Governo Federal em oncologia disparou 26% – de R$ 1,9 bilhão para R$ 2,1 bilhões. Com estes recursos, foi possível ampliar em 17,3% no número de sessões de radioterapia, saltando de 7,6 milhões para mais de nove milhões. Para a quimioterapia houve aumento de 14,8%, passando de 2,2 milhões para 2,5 milhões.

Em decorrência da inclusão de novos tipos de cirurgia oncológica e da ampliação dos investimentos no setor, a expectativa para 2013 é que o número de operações supere a marca dos 120 mil, 25% a mais que as 96 mil realizadas no ano passado. A expansão está sendo custeada por uma elevação de 120% no orçamento destinado a estes procedimentos – de R$ 172,1 milhões em 2012 para R$ 380,3 milhões em 2013.

Houve expansão no rol de medicamentos de alto custo ofertados gratuitamente pelo SUS, com a inclusão de drogas biológicas modernas como o mesilato de imatinibe (contra leucemia), o rituximabe (para o tratamento de linfomas) e o trastuzumabe (contra o câncer de mama). A ampliação veio acompanhada de aperfeiçoamento na gestão dos insumos, que passaram a ser comprados de maneira centralizada pelo MS, reduzindo custos com o ganho da escala de compras.

Números no País – Em 2012, foram realizadas cerca de mais de 500 mil internações na rede pública para tratamento do câncer, ao custo de R$ 806 milhões.

Em 2010 (último dado consolidado), o Brasil registrou 179 mil mortes pela doença. O câncer de pulmão foi o tipo que mais matou (21.779 pessoas), seguido do de estômago (13.402), próstata (12.778), mama (12.853), e colorretal (8.385).

(Fonte: Agência Saúde – Ascom/MS)

 

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