Nosso trânsito de cada dia.

Neste momento em que o Brasil busca implantar, ainda que timidamente, políticas públicas de uso da bicicleta como meio de transporte, é preciso que a sociedade amadureça no sentido da valorização da vida e da igualdade de direitos e deveres. Uma simples buzinada para que o ciclista saia da frente significa muito mais do que impaciência do motorista. Ela mostra o quanto ainda somos intolerantes e egoístas no trânsito, prestigiamos o automóvel como símbolo de status e riqueza, e ignoramos os cuidados de proteção ao ser humano. Sem estes valores bem estabelecidos na lei, na justiça e nas consciências, inserir a bicicleta em meio aos carros é quase como travar uma guerra.

 

ciclista.jpg Buzinar para um ciclista sair da frente significa muito mais que impaciência do motorista.

Que ciclista já não recebeu a buzinada de um motorista apressado ao dividir o espaço na rua? A falta de paciência de alguns motoristas para aguardar um ciclista sair da frente é no mínimo um fator de stress e insegurança para quem está pedalando. Como só depende de suas pernas, a pressão que o ciclista sofre nesse momento é um risco evidente e desnecessário. Sem falar que o motorista pode tentar uma ultrapassagem arriscada. Uma queda da bike pode ser fatal.

Recentemente pedalei nas ruas de um bairro tipicamente americano na cidade de Miami. Todos sabemos que os Estados Unidos são uma sociedade que valoriza o automóvel. Prova disso é que Miami é extremamente mal servida de transporte público e não se encontram tantas facilidades para o ciclista como em cidades européias. Embora cortada por avenidas largas e de trânsito rápido, Miami conta com algumas ciclovias bem sinalizadas, outras não em tão bom estado, com desníveis causados pelas raízes das árvores. Mas apesar de a bicicleta ser um meio de transporte quase insignificante naquele local, pedalar com segurança é um direito garantido a qualquer cidadão. Por isso, a treino, passeio ou deslocamento, com ou sem ciclovia, o ciclista tem total respeito e cuidado dos motoristas.

Houve momentos em que, devido à pista estreita, uma fila de carros se formava atrás de mim aguardando o momento de me ultrapassarem com a distância de segurança necessária. Nenhuma buzina,recriminação ou demonstração de impaciência. Apesar de não ter pedalado à noite, soube que se a bike estiver sem os devidos sinalizadores os motoristas não hesitam em berrar: “Lights!” (luzes). Afinal, o ciclista tem que cumprir sua parcela de responsabilidade e garantir que seja visto de longe pelos motoristas. Deve respeitar a distância do meio-fio e estar atento ao trânsito em sua volta, contribuindo para evitar acidentes e possíveis ações na justiça.

Para que alcancemos essa realidade, no entanto, é preciso primeiro consolidar entre os cidadãos valores como a convivência pacífica, respeitosa e harmônica nas vias públicas, a igualdade social (o dono de um carro não vale mais que o dono de uma bicicleta), e, sobretudo, o respeito à lei e à vida. Estes valores exigem maturidade e fraternidade no convívio entre todos e, por parte do estado, ações educativas, fiscalização e punição das infrações de ambas as partes.

Neste momento em que o Brasil busca implantar, ainda que timidamente, políticas públicas de uso da bicicleta como meio de transporte, é preciso que a sociedade amadureça no sentido da valorização da vida e da igualdade de direitos e deveres. Uma simples buzinada para que o ciclista saia da frente significa muito mais do que impaciência do motorista. Ela mostra o quanto ainda somos intolerantes e egoístas no trânsito, prestigiamos o automóvel como símbolo de status e riqueza, e ignoramos os cuidados de proteção ao ser humano. Sem estes valores bem estabelecidos na lei, na justiça e nas consciências, inserir a bicicleta em meio aos carros é quase como travar uma guerra.

Por isso os bons exemplos de maturidade social precisam ser cada vez mais vivenciados e compartilhados em prol de estabelecermos a convivência verdadeiramente pacífica entre carros e bicicletas.

 

CICLOVIAS EXIGEM EDUCAÇÃO, CONVIVÊNCIA E RESPEITO

O reconhecimento da necessidade da convivência pacífica na metrópole entre os diversos modais de transporte e deslocamento, educação.

Images photos espagne 1382.jpg

A partir do anúncio pela Prefeitura de São Paulo da implantação de uma extensa rede cicloviária em São Paulo, suscitaram reações das mais diversas pela cidade. Daquelas fundamentadas às mais infundadas, esta iniciativa propiciou uma importante mexida no modus operandi no qual a cidade sempre esteve acostumada a lidar.

Nosso país sempre teve o transporte individual como prioridade, uma ênfase desde os tempos de Juscelino Kubitschek com a implantação das primeiras indústrias automobilísticas no Brasil. Mais do que um modal, o carro tornou-se um ícone simbólico de status, que dificilmente alguém não gostaria de lançar mão.

Márcio FernandesAE.jpg

Ciclofaixa de lazer em São Paulo. Foto: Márcio Fernandes/AE

A criação anos atrás da ciclofaixa de lazer aos domingos, em São Paulo, foi uma boa oportunidade para o começo do cultivo desta necessária convivência. No entanto admito que fui um crítico ferrenho dessa escolha à época, pois sempre me pareceu uma forma demagógica de se substituir a ausência das ciclovias. Creio que eu não estava errado, pois o ritmo de implantação era irrisório e não se promoviam campanhas maciças de educação e esclarecimento.

Luiz Guadagnoli Secom.jpgTrecho da ciclovia implantada em São Paulo. Foto: Luiz Guadagnoli/Secom

Mas uma cidade mais inclusiva deve ter seu foco no pedestre, e também, numa ‘extensão’ dele, no ciclista. Claro que não estou querendo comparar os modais de carros ou ônibus com as bicicletas, mas sim mostrar que um necessário equilíbrio na cidade deve e pode ser buscado. Para tal, deve-se ter bons projetos de ciclovias, integração entre si e com os modais de transporte coletivo como Metrô e ônibus, e… educação.

Se a iniciativa da prefeitura merece elogios, seja pela extensão desta rede em implantação quanto pela importância deste modal, que entre tantos benefícios proporciona saúde, lazer e menos poluição atmosférica, peca pela forma implantada. Um bom projeto de ciclovia, além das sinalizações necessárias, deve ser segregada, ou seja, protegida dos carros e ônibus. Nota-se claramente a vulnerabilidade com o qual o ciclista irá se defrontar na maior parte de sua extensão, vide um exemplo na foto anterior: não serão ‘tartarugas’ no asfalto que irão proteger o ciclista! No entanto, existem algumas poucas extensões em que a condição de ciclovia segregada existe.

Images photos espagne 1018.jpgTrecho de ciclovia da cidade de Sevilha, Espanha. Repare neste caso a segregação entre pedestres e ciclistas.

Já tivemos claros conflitos envolvendo ciclistas x carros, ciclistas x motos, ciclistas x ônibus, com acidentes inclusive. Previsíveis? Eu diria que sim, pois não existe em nossa cidade ou país a cultura dessa imperiosa convivência. E mesmo em Sevilha, notem na foto acima que existem pequenos ‘postes’ a proteger a ciclovia na interface com a rua.

Apenas como ilustração, já que isso também depende de vias segregadas ou calçadas largas e amplas: ainda em Sevilha, o exemplo da boa convivência marca-se também quando a ciclovia é apenas demarcada por “medalhões” com o símbolo consagrado aplicados ao piso, e ali circulam de forma misturada pedestres e ciclistas, sem conflitos, mas com muita atenção. É claramente notável a convivência pacífica e ordenada.

conv.jpgCiclovia em Sevilha, Espanha: preservação da calçada original, marcação discreta e convivência harmoniosa.

Images photos espagne 1381.jpg

Para se conviver pacifica e harmoniosamente, seja numa metrópole como em qualquer outro lugar, há que se ter cultura, compreensão e respeito mútuo entre os diversos modais. O esclarecimento e educação são fundamentais, e isso se inicia pela correta administração pública, em todos os níveis. Não creio que seja pedir demais, apenas planejar, projetar e viver… divulgar, educar! Cabe responsabilidade a todos, principalmente de seus cidadãos.

Todas as fotos, à exceção daquelas com a devida citação, são de autoria de Edgard Georges El Khouri, copyright ®elkhouri

REALIDADES REVISTAS

Portugal: Lisboa, Porto e tantas outras cidades trazem a lembrança de que é ainda possível se viver com qualidade e preservação, com sociabilidade e amizade!

Images photos espagne 043.jpg Sempre quando se conhece um novo país, a expectativa sobre o que se pode ver por ali é muito grande. Um misto de ansiedade por confirmar aquilo o que se pesquisou antes de viajar, uma possível identificação com o lugar, como se virar ante a novos costumes e língua… ah, mas um momento, estamos falando de Portugal!

Sim, estamos. Um país que tradicionalmente acolhe muito bem os brasileiros por toda a história que envolve os dois países etc, a língua é igual… bem, não é exatamente assim. De qualquer forma, falar sobre um país como Portugal exigiria muitos capítulos, uma resenha básica sobre sua história e como ela se interrelaciona com a do Brasil, mas deixemos isso para os historiadores e sociólogos, a conversa aqui é outra!

Do alto fica muito fácil de se identificar Lisboa numa geografia bem particular, predominantemente plana e recortada pelo seu lindo rio Tejo, e uma grande massa urbanizada, aliás várias delas – facilmente reconhecemos uma cidade moderna e com plano urbanístico claro. E é exatamente aí onde se tem apenas um arremedo do que realmente é a cidade. Images photos espagne 057.jpg E aí, já no mesmo plano da cidade, Lisboa começa a se revelar pela clareza de suas amplas avenidas, o como elas se integram às áreas mais tradicionais e históricas. E aí, a primeira grata surpresa.

Uma área não compete com a outra, cada qual tem a sua identidade e charmes próprios, e dessa forma vivem harmoniosamente. Passa-se de um registro e área histórica de uma forma muito tranquila, mergulha-se no passado com muita eloquência, e a volta ao moderno se dá de forma a lembrar que você está no século XXI. Não por uma abrupta modernidade em si, traduzida por edifícios megalomaníacos, mas pela clareza de como se preserva a história. Entendo que a melhor forma de se conhecer uma cidade ou país é efetivamente andar por suas ruas e becos, caminhar quase que à exaustão conhecendo seus cafés, lojas e restaurantes. Images photos espagne 198.jpg É um encanto, verdadeiro deleite, conhecer por exemplo as ruas do bairro do Chiado. Exímias construções seculares a emoldurar suas ruas sinuosas, a boemia comportada das manhãs sugerindo uma rica vida noturna e cultural. A arquitetura enche os olhos do mais desavisado andarilho, os focos e enfoques necessariamente passam por um olhar mais apurado. Simplesmente não há como não se deparar à magnitude do design de fachadas arrebatadoras e muito bem conservadas, traço característico dessa cidade.

Até no bonde, um dos símbolos desta cidade, se tem um belo resgate visual e charme do locomover por ali. Não dá sequer para reclamar de um céu em contraste com a rede elétrica aérea destes bondes… Images photos espagne 202.jpg Lisboa é sem dúvidas cosmopolita, mas também tradicional. É moderna, mas também provinciana. E são justamente essas duas cidades que convivem, se delimitam, mas que se mesclam ao mesmo tempo, e moldem talvez um dos grandes segredos da forma lisboeta de ser.

O povo português, extremamente cálido, gentil e por demais simpático faz com que se sinta em casa. E olha que não tenho qualquer traço de descendência portuguesa, minha família é a primeira geração no Brasil. Mas o que será que afinal nos cativa tanto estar por aqui?

Demorei a juntar e decifrar os elementos que me faziam parecer tão familiares este clima e comportamentos, e acho que ao menos cheguei a uma conclusão pessoal. Entendi… percebi… me lembrei! IMG_6974.JPG Não foi uma situação específica, mas o conjunto delas. Não foi memória falada ou contada, mas eu tinha a certeza de que sabia que já havia sentido aquilo… bingo!

Portugal me fez relembrar de algo não mensurável, de algo que fica no campo das sensações, mas eu tinha certeza de que sabia que aquilo era algo conhecido. E lembrei. IMG_6166.JPG Portugal me fez sentir menino, criança… me fez relembrar de sensações que eu já não acreditava mais serem possíveis. Me lembrei do Brasil que vivi quando criança, um Brasil de cordialidade e educação, de segurança e civilidade. Uma realidade que o Brasil vivenciou por alguns anos, onde buscava espelho justamente em países europeus. Contribuição dos muitos imigrantes que vieram, de governos que buscavam as referências européias, enfim… IMG_6176.JPG Portugal me devolveu de forma mágica as convicções de uma realidade possível, de um Brasil que no passado ‘beliscou’ esta realidade, e que hoje não mais a temos em nossas grandes metrópoles, talvez até no Brasil como um todo. Eu vivi aquilo, longe da fantasia de uma criança, e senti que é realidade ainda para alguns. Crises à parte, Portugal não perdeu a referência do bem viver.

TODOS OS DIREITOS RESERVADOS AO SITE © obvious: http://lounge.obviousmag.org/arquitexturas_musicais_e_a_vida/2012/06/realidades-revistas.html#ixzz47sgS1krO
Follow us: @obvious on Twitter | obviousmagazine on Facebook

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *