Lixo cultural

“A GENTE SE VÊ”
Roberto Boaventura da Silva Sá
Dr. Jornalismo/USP; Prof. Literatura/UFMT

O artigo de hoje é o terceiro em que trato das “prisões virtuais”. Nos anteriores, abordei o tema de forma ampla. Neste, refiro-me a um concurso público à prefeitura de Cambé, cidade vizinha de Londrina-PR.
Ocorrido no último dia 25/03, o concurso – para garis – foi preparado pela Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR), campus de Cornélio Procópio.
Os primeiros comentários que vi, no Yahoo, acerca desse concurso foram assinados por Larissa Alberti, da Redação Unyleva. Essa autora demonstra espanto ao relatar que “a prova continha quarenta questões, sendo dez delas na categoria de Atualidades. Das dez, metade era sobre entretenimento”.
Assim, dentre outras, os candidatos deveriam saber “qual foi a frase que deixou a personagem Valéria, do programa Zorra Total, famosa; qual o nome da atriz que fez a protagonista Griselda em Fina Estampa, novela da Rede Globo”. Deveriam ainda saber “qual a música que o jogador do Real Madrid, Cristiano Ronaldo, dançou após fazer um gol contra o Málaga, pelo Campeonato Espanhol (opções: A) “Ai se eu te aperto”; B) “Ai como sou esperto”; C) “Ai delícia”; D) “Ai se eu te pego”; E) “Delícia, delícia, assim você me mata”); qual dupla sertaneja anunciou seu fim durante um show, mas depois alegou ser um mal-entendido; e qual foi a novela da Rede Globo que a cantora Paula Fernandes participou antes de ser famosa”.
Antes de tudo, registro que, no geral, as provas de Língua Portuguesa e Matemática, excetuando uma repetição na resposta n. 3, na prova de língua, foram bem elaboradas; compatíveis com a escolaridade exigida.
Agora, a de Atualidades é de lascar! Que alívio não ter de fazer uma prova desse tipo. Eu não saberia responder a última dessas questões. As demais, de tanto bombardeio da mídia, sim. Mas a última! Não faço ideia de qual telenovela a cantora participou; aliás, eu nem sabia de sua existência antes de se tornar mais uma das “celebridades” no país das mediocridades.
Depois que as críticas “caíram na rede”, a Banca do Concurso lançou “nota de esclarecimento”. Oito itens buscam amenizar o desconforto, dizendo, p. ex., que “As questões de Atualidades têm por objetivo verificar se o candidato está informado sobre o que está acontecendo no momento, seja o assunto político, econômico, social ou cultural…”
A nota se ancora ainda em matérias jornalísticas sobre as personagens Pereirão e Valéria, além do sucesso internacional (o mundo emburreceu) de Michel Teló. Conclusão da nota: “não houve prejuízos…”
Pode ser. Acontece que o que está em jogo é a concepção do que seja um “assunto político, econômico, social ou cultural”. Partindo da concepção que se tem desse conjunto é que Bancas Examinadoras fazem suas opções. E a opção em pauta recaiu sobre o chulo, o banal, a reverência à programação (via de regras, dispensável) da mídia.
Ao fazer essa opção, concursos assim ajudam a consolidar entre nosso povo a estupidez, o desnecessário. Perde-se, dessa forma, grande oportunidade de solicitar leituras e estudos mais relevantes dos candidatos. Isso é desserviço à cultura, à educação formal, pois desmotiva um povo a ler sua literatura, inclusive a infanto-juvenil, a ouvir músicas de qualidade, a apreciar uma pintura, como, p. ex., a de um Portinari, de um Di Cavalcanti… Desmotiva-se até mesmo de assistir aos telejornais.
Pior: condena-se a parte mais pobre de nosso povo à prisão nas telas da TV. Mais ainda: a um determinado padrão televisivo que pretende ver todos se vendo e se reconhecendo por ali. Perpetua-se a vida de gado… feliz!

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