Herdeiros do Jardim Gramacho (RJ)

Em Gramacho, 2 anos após fim de lixão, 20 mil pessoas vivem sem saneamento

Gustavo Maia Do UOL, no Rio

Vizinhos de antigo lixão de Gramacho (RJ) vivem sem saneamento15 fotos

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As crianças brincam em meio ao lixo e esgoto a céu aberto em Jardim Gramacho, em Duque de Caxias (RJ). Os moradores reclamam que o fim do aterro –que sustentava cerca de 1.700 catadores de lixo quando foi encerrado, em junho de 2012– trouxe apenas desemprego e sofrimento Zulmair Rocha/UOL

Dois anos após a desativação do lixão de Jardim Gramacho, em Duque de Caxias, na Baixada Fluminense, moradores do bairro continuam a aguardar as melhorias prometidas pelo Governo do Estado e pela prefeitura para a região à época do fechamento. Apesar da promessa de transformação do local, que inspirou a criação do lixão da novela “Avenida Brasil”, em um “bairro sustentável”, os cerca de 20 mil moradores da área ainda vivem sem saneamento básico.

Eles reclamam que o fim do aterro –que sustentava cerca de 1.700 catadores de lixo quando foi encerrado, em junho de 2012– trouxe apenas desemprego e sofrimento. E ainda lamentam o encerramento da atividade que sustentou alguns deles por mais de três décadas.

Catadora desde os 13 anos, Maria Lúcia de Almeida, 39, não trabalha desde a desativação do aterro. “Eles prometeram que ia ter emprego pra gente, mas até agora nada. Está todo mundo desempregado, inclusive eu”, afirma Mara, como é conhecida. “A pior coisa daqui é que nada nunca muda.” Ela mora com nove dos 12 filhos em uma pequena casa, sem banheiro.

Quando foi desativado, o lixão de Gramacho recebia diariamente 11 mil toneladas de resíduos do Rio (75% do total) e de cinco municípios da Baixada. O material passou a ser levado para o Centro de Tratamento de Resíduos de Seropédica, onde não é permitida a presença de catadores de lixo.

Após o fechamento, foi criado o Fundo de Participação dos Catadores de Gramacho, que recebeu R$ 21 milhões de indenização para ser repartido entre os catadores que atuaram no aterro até janeiro de 2011, quando o encerramento dos trabalhos no local foi anunciado. Cada um recebeu em torno de R$ 14 mil.

Aterro de Jardim Gramacho45 fotos

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31.mai.2012 – O catador Geraldo da Silva Oliveira, 59, viveu grande parte da sua vida no lixão. ?Eu vi a rampa [área destinada ao despejo do lixo] começar e agora terminar. Foram quase 40 anos? Leia mais Guillermo Giansanti/UOL

Mas a promessa de emprego para os catadores, que se daria por meio da criação do Pólo de Reciclagem de Gramacho, não engrenou. Inaugurado pela SEA (Secretaria de Estado do Ambiente do Rio de Janeiro) em novembro do ano passado, o local emprega atualmente apenas 125 catadores, de acordo com a própria secretaria.

A meta, segundo a pasta, é que 500 catadores sejam absorvidos até a implantação completa do polo. Dois galpões estão ativos. Outros seis deverão ser construídos, mas dependem da arrecadação de recursos.

O projeto é fruto de convênio firmado com a Reduc (Refinaria Duque de Caxias), da Petrobras, que desde outubro de 2013 explora o biogás gerado a partir da decomposição do lixo captado no antigo aterro como fonte de energia.

Questionada pelo UOL, a Petrobras informou que o polo “absorveu 500 catadores que atuavam no antigo lixão de Gramacho”, número mais de três vezes maior que o informado pelo Governo do Estado e que é contestado pelos moradores da região.

Outra promessa feita em 2012, pelo então secretário estadual do Ambiente, Carlos Minc, foi a reurbanização de Jardim Gramacho. O projeto, que custaria R$ 80 milhões, ainda não saiu do papel. Os moradores continuam sem saneamento básico, com problemas no fornecimento de água e vivendo em casas em condições precárias. Os urubus de antes ainda rondam o bairro.

O cenário de degradação é reconhecido pelo atual secretário de Meio Ambiente de Duque de Caxias, Luís Renato Vergara, no cargo há três meses. “As famílias do Jardim Gramacho vivem em condições subumanas por conta do fechamento do aterro. É o verdadeiro Haiti brasileiro”, declara o secretário.

A SEA informou, em nota, que um “projeto de urbanismo e infraestrutura” no bairro onde ficava o lixão está sendo elaborado há um ano pelo Inea (Instituto Estadual do Ambiente), ao custo de R$ 1,7 milhão, com recursos do Fecam (Fundo de Conservação Ambiental e Desenvolvimento Urbano), e tem conclusão prevista para este mês.

De acordo com a secretaria, os objetivos do projeto são impedir a expansão de aterros clandestinos sobre o manguezal existente, combater a proliferação de doenças na população local, melhorar a qualidade de vida dos moradores da comunidade e prevenir acidentes devido à presença de urubus no local, que é rota de tráfego aéreo.

O secretário de Meio Ambiente de Duque de Caxias disse que a prefeitura considerou o projeto “limitado” e pretende ampliá-lo, por meio de um projeto de R$ 200 milhões, que será apresentado ao Governo Federal para inclusão no PAC 3 (Programa de Aceleração de Crescimento).

“Queremos garantir a melhoria de vida e o reassentamento das famílias que vivem nas áreas de mangue perto do antigo lixão para unidades do ‘Minha Casa, Minha Vida’ ou pagar indenizações, se elas preferirem”, explicou.

Segundo Vergara, a secretaria também pretende construir uma estação de tratamento de esgoto, recuperar toda a área do mangue de Jardim Gramacho, criar uma grande área de lazer no bairro, que hoje só conta com dois campos de futebol, e aumentar o polo de reciclagem. Se o projeto for aprovado no PAC 3, o secretário estima que ele comece a ser executado em julho do ano que vem.

Morador de Jardim Gramacho há sete anos, o marceneiro Iranildo Sales, 32, conta que muitos do que dependiam do lixo tiveram que ir embora. “Eles disseram que iriam investir milhões para fazer melhorias no bairro. Eles acham que podem enganar a gente”, afirmou. “Minha rua mesmo vivia enchendo quando chovia. Eu mandei colocar vários caminhões de terra e acabou esse problema, pelo menos. Iluminação pública também é com a gente, na base do improviso”, contou, mostrando uma lâmpada colocada na frente da sua casa, em meio a um emaranhado de fios.

Depois de passar 32 anos trabalhando no lixão, ganhando em média R$ 100 por dia, o ex-catador Sigcy Peçanha, 73, diz estar vivendo com um “salário de fome” –R$ 724 recebidos por conta da aposentadoria de outro trabalho.

“Antes eu trabalhava de manhã e de tarde já estava com o dinheiro na mão. Não tinha dia que eu voltasse para casa com a mão vazia”, conta o pai de 13 filhos, que hoje mora com dois deles em um barraco. “Eu olho para o terreno e só lamento. Era lá que eu tirava o meu ganha-pão.”

Dono de uma “vendinha” há 32 anos, a poucos metros da entrada do antigo aterro, Paulo Francisco Torres, 72, conta que “vendia bem” até o encerramento das atividades no lixão. “Agora acabou tudo, está tudo deserto. Agora eu só tiro uns R$ 30 por dia. Antes, era no mínimo R$ 100”, relata Paulo. Segundo outros moradores, a situação é a mesma para todos os comerciantes da região.

Ajuda e doações

Entre dezenas de moradores ouvidos pela reportagem, quase todos disseram receber algum tipo de doação. “A gente agora vive de ajuda ou de algum bico aqui ou ali”, conta a ex-catadora Patrícia Pereira, 38, que trabalhou 12 anos na “rampa”.

Voluntários da ONG Teto, de origem chilena, chegaram a Jardim Gramacho em junho do ano passado e já construíram 41 casas no bairro, sendo quatro no último fim de semana. Uma das beneficiadas, a auxiliar de limpeza Heloiza de Souza, 26, ganhou um novo teto em outubro. “Eu morava em um barraco que estava caindo por cima de mim e dos meus dois filhos”, relata Heloiza.

As novas casas seguem o mesmo modelo: tem três janelas e uma porta, de madeira colorida, diferentes dos outros barracos erguidos no bairro. Elas duram de cinco a dez anos, a depender das intempéries naturais.

À frente do grupo de voluntários Gramachinhos, voltado para as crianças carentes do bairro, a estudante de direito Júlia Blakeney, 19, vai todas as semanas para o bairro levar doações e brincar com os meninos e meninas de Jardim Gramacho. Acompanhada da mãe e de cerca de outros 50 voluntários, ela organizou uma festa no último domingo (8), com camas elásticas e um animador. “As crianças daqui precisam muito”, afirma.

 

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