Erotização infantil: o que é perigo real e o que é mito?

Erotização infantil: o que é perigo real e o que é mito?

Adultização precoce, sexualização e erotização infantil: tudo isso é nocivo para a criança. Porém, há muitas notícias falsas em torno do tema. Proteja-se

Erotização infantil

Portal Lunetas

  • Publicado em: 26.10.2018

Erotização infantil. Este é um tema que preocupa pais, professores, cuidadores e todos aqueles que convivem com crianças e zelam por seu desenvolvimento pleno. No Lunetas, defendemos que uma educação saudável e integral é aquela contempla a multiplicidade de dimensões da criança, ou seja, que considera que a criança tem uma existência física, mental e psíquica.

“Cuidar para que a infância seja vivida de forma plena é permitir que as crianças sejam crianças”

Por demanda dos nossos leitores, que frequentemente manifestam dúvidas sobre erotização infantil, nesta matéria, vamos destrinchar o tema. O que é, quem são os atores envolvidos neste processo, quais são os pontos de atenção? Quais os perigos reais e os imaginados? Quem é responsável por salvaguardar os direitos da criança? Ensinar sexualidade na escola estimula a erotização? No final da matéria, você pode tirar suas dúvidas com cartões interativos de perguntas e respostas.

Para isso, vamos explicar detalhadamente os termos que frequentemente aparecem nesta discussão, e revisitar reportagens e entrevistas que já publicamos. Utilizaremos como fonte de pesquisa instituições de renome neste segmento, que há anos realizam um trabalho compromissado em honrar a infância, como a Childhood Brasil, o Unicef e a ONU. Assim, o leitor terá um material resumido, didático e informativo para consultar sempre que tiver dúvidas, e aproveitá-lo em discussões na escola, em casa e na família. Além disso, queremos com este material pontuar a diferença entre os mitos e verdades que rondam o assunto.

Proteção à criança

Antes de mergulhar no assunto, cabe refletir sobre um ponto anterior: o ímpeto de proteção à criança. Seja qual for a posição social, política, econômica ou religiosa do indivíduo, é possível supor que todos têm em comum o desejo de oferecer segurança à criança – exceto em casos de desequilíbrio mental, psíquico ou de alguma outra ordem. Assim, adultos bem ajustados concordam que a criança é prioridade absoluta, e deve ser tratada como tal.

Em nome desse zelo, muitas atitudes são tomadas, a depender, aí sim, dos ideais morais, éticos, sociais, econômicos, religiosos, entre outros. Alguns apostam em uma educação libertária e pautada pela autonomia, outros defendem um tipo de educação mais rígida.

Seja qual for o modelo que funciona em cada família, cabe avaliar que essas decisões são sempre tomadas pelos adultos que cercam a criança, afinal, enquanto ser em desenvolvimento, os pequenos têm pouco ou nenhum poder de escolha. Portanto, é preciso considerar os impactos disso em seu desenvolvimento, já que as crianças estão o tempo todo sujeitas ao que os outros decidem por ela.

Em entrevista ao Lunetas, o psicanalista Christian Dunker avalia o excesso de proteção à criança como nociva em muitos aspectos. Principalmente, porque o mundo lá fora – ou seja, externo ao ambiente familiar – é cheio de perigos, antagonismos, obstáculos e diferenças, coisas que a criança terá que assimilar e com as quais terá que aprender a lidar.

O psicanalista aponta que estamos vivendo um tempo difícil em relação à educação dos filhos, porque a criança frequentemente ocupa um lugar de fragilidade no imaginário dos adultos em que qualquer inimigo iminente é visto como ameaça à sua proteção, independentemente da posição política ou social que se defenda. Ou seja, há uma disputa de narrativas em jogo, em que ambos os lados brigam para ver quem consegue ‘proteger mais’ a criança.

Segundo Dunker, em relação à experiência não só escolar, mas também de vida, esse pensamento limita a visão de mundo da criança, criando o que ele chama de “projeto de condomínio” – cultural, político e social.

“Como a gente lida com o diferente, essa gente que ‘contamina’ a conversa? Elimina, tira fora do mundo, nega, invisibiliza, constrói muros. Tudo isso é o que? O modo como estamos lidando com o medo. A verdadeira educação narcísica é aquela que ensina para a criança que sua atitude de vida tem que ser a do tirano”, conclui.

O que é erotização infantil?

Dito isto, vamos aos conceitos. Segundo a própria definição de dicionário, “erotização” é a “ação ou resultado de erotizar-se”, que por sua vez é “provocar sensações eróticas em alguém ou em si mesmo; sentir excitação”.

Portanto, a erotização infantil é praticar essa ação em relação a crianças. Vale ressaltar que a erotização infantil pode se dar de forma direta ou indireta, ou seja, com ou sem a participação imediata da criança. Deste modo, podem ser englobados como processos de erotização tanto um a peça publicitária que exponha o corpo da criança de forma sexualizada quanto um abuso sexual consumado – neste caso, é preciso considerar também a diferença entre violência direto e indireta, confira nossa reportagem sobre abuso sexual para saber mais sobre este tópico.

Assim, a conclusão é que erotização infantil é nociva para a criança, à medida em que atravessa seu processo natural de desenvolvimento e a expõe a experiências com as quais ainda não está preparada para lidar ou mesmo se defender. De acordo com a Childhood Brasil, a erotização infantil é considerada como uma das principais causas da violência sexual contra crianças – clique aqui para saber mais.

Um relatório da Childhood sobre violência sexual na infância publicado em setembro de 2016 revela que, entre 2012 e 2015, foram registrados mais de 157 mil casos de violência sexual (que engloba tanto a exploração quanto o abuso) de crianças e adolescentes. Isso significa que, a cada uma hora, há pelo menos 4 casos de uma criança ou adolescente sexualmente violentada no Brasil. A maior parte dos abusos é praticado por pessoas do convívio da criança.

Sexualidade x Sexualização

O próximo tópico da conversa sobre erotização infantil é entender a fundamental diferença entre sexualidade e sexualização, que muitas vezes é são colocados como sinônimos e impossibilitam um diálogo honesto sobre o assunto.

sexualidade é inata ao ser humano e deve ser estimulada de maneira saudável, de modo que a criança tenha familiaridade com seu próprio corpo e possa se apoderar dele, até mesmo para saber identificar onde dói para ajudar os pais e cuidadores a tomar conta de sua saúde. A criança que conhece o seu corpo pode também se instrumentalizar para estabelecer os limites entre carinho e abuso sexual. Cabe reforçar aqui que o desenvolvimento da sexualidade deve respeitar os limites do tempo da criança, ou seja, o seu desenvolvimento natural.

Já a sexualização, como o próprio nome indica, é uma ação que ocorre de fora para dentro, ou seja, não é um processo natural da criança. Assim, a sexualização precoce é uma manobra externa, que adultiza a criança, e muitas vezes é encabeçada por atores sociais como publicidade infantil, sociedade de consumo ou mesmo por adultos do seu convívio que indiretamente expõem a criança a repetir padrões de comportamento inadequados para sua faixa etária.

Portanto, discutir sexualidade não é sinônimo de erotizar a criança, ao contrário do que se pode supor, pois trata-se de refletir sobre um processo natural da criança – claro, respeitando os limites de faixa etária adequados a cada discussão, que cabe à família avaliar e decidir, a partir do conhecimento sobre as demandas e necessidades da sua criança. Da mesma forma, conversar sobre sexualização e quais são os seus perigos reais também é essencial para garantir a saúde e a integridade da criança.

Famílias que dialogam abertamente sobre sexualidade oferecem à criança um espaço seguro para falar de sentimentos e delatar abusos.

Educação sexual

Este é um assunto frequente no Lunetas. Frequentemente, entrevistamos especialistas no tema, sobretudo porque ele gera muitas dúvidas e medos.

Refletir sobre corpo e sexualidade em relação à infância ainda é um processo que sofre muita resistência, pois as pessoas associam a temática à erotização da criança ou ao incentivo à relação sexual precoce, quando, na realidade, educação sexual diz respeito à saúde da criança.

“Educação sexual é falar sobre higiene íntima, anatomia, fisiologia, autocuidado, autoproteção”

É permitir à criança saber como é sua genitália, para que serve, como funciona, e assim oferecer a oportunidade de um crescimento saudável e conectado com os limites e as potências do seu corpo.

Caroline Arcari é especialista em Educação Sexual pelo Centro de Sexologia de Brasília (Cesex) e mestre em Educação Sexual pela Universidade Estadual Paulista (UNESP). É presidente do Instituto Cores, uma ONG que há doze anos atua na defesa dos direitos da criança e do adolescente, com ênfase na Educação Sexual e na prevenção de violência sexual. Autora do livro “Pipo e Fifi”, ela explica, em entrevista ao Lunetas, o conhecimento sobre sexualidade é fundamental para a proteção da criança.

“Quem estuda desenvolvimento de crianças e adolescentes e convive com quem sofreu violência sexual, sabe que a informação e o conhecimento protegem”

Pais, mães e cuidadores não devem ter vergonha de conversar com os filhos sobre sexualidade. Conhecer os limites do próprio corpo é fundamental para se defender contra o abuso sexual, principalmente de pessoas próximas do convívio da criança. Da mesma forma, a escola e os professores devem estar preparados para não só abordar o assunto com as crianças, mas também para acolher o medo dos pais de como este tema é colocado na sala de aula.

O trabalho em educação sexual inclui metodologias, livros e materiais didáticos, voltados para a educação sexual, prevenção de violência sexual, igualdade de gênero e direitos humanos.

Sexualidade na escola

Base Nacional Comum Curricular (BNCC), documento que norteia a educação no Brasil, aborda o assunto sexualidade no tópico “Ciências da Natureza” (página 325). O documento normativo estabelece os processos essenciais que os alunos devem desenvolver em cada etapa da educação básica brasileira.

Leia o que diz o texto:

“Nos anos iniciais, pretende-se que, em continuidade às abordagens na Educação Infantil, as crianças ampliem os seus conhecimentos e apreço pelo seu corpo, identifiquem os cuidados necessários para a manutenção da saúde e integridade do organismo e desenvolvam atitudes de respeito e acolhimento pelas diferenças individuais. (…) Nos anos finais, são abordados também temas relacionados à reprodução e à sexualidade humana, assuntos de grande interesse e relevância social nessa faixa etária.”

É no oitavo ano – entre 13 e 14 anos – que o tema sexualidade aparece na disciplina Ciências da Natureza, que transmite aos estudantes habilidades como analisar e explicar transformações da puberdade, hormônios sexuais e sistema nervoso, conhecer a importância de prevenir gravidez indesejada e doenças sexualmente transmissíveis (DST) e identificar as múltiplas dimensões da sexualidade humana (biológica, socioculural, afetiva e ética).

Quando conversar sobre sexualidade?

Como em qualquer outro tópico relacionado à criação de um filho, não há uma resposta pronta e nem uma receita única. Cada família e cada criança terão vivências diferentes. Mas, via de regra, o que costuma funcionar é atender às próprias demandas da criança. Seu filho pergunta sobre o assunto? Manifesta curiosidade em saber para que servem as partes do corpo? Ele ou ela já demonstraram querer por que meninas e meninos têm genitálias diferentes? Todos esses comportamentos (ou a ausência deles, quando for o caso) são indícios. A própria criança dá sinais do quanto está ou não preparada para conversar sobre determinadas coisas.

Se a família decidir iniciar o assunto, há uma série de materiais que podem ajudar. A literatura infantil, por exemplo, podem ser ótimos aliados. No Lunetas, divulgamos uma série de livros infantis sobre sexualidade, como o didático “Pipo e Fifi”, da educadora Caroline Arcari, e “Não me toca, seu boboca“, escrito por Andrea Taubman e ilustrado por Thais Linhares.

“A simples pergunta “De onde eu vim?” não remete apenas à biologia, mas a toda história consciente e inconsciente envolvida antes e durante a concepção, gestação, nascimento e vida extrauterina.  O conteúdo anatomofisiológico é de extrema importância, mas não é tudo”, explica a psicóloga Patrícia Grinfeld.

Adultização

Como o próprio nome indica, “adultizar é o ato de dar ou tomar caráter de adulto”. Uma criança é submetida à adultização em muitos contextos e de muitas formas distintas, tanto de forma planejada e intencional quanto de forma não proposital.

A adultização infantil atravessa as etapas de desenvolvimento da criança e antecipa seus aprendizados, o que pode ser bastante nocivo. Podemos entender que toda erotização infantil adultiza, mas nem toda adultização erotiza. Por exemplo, uma criança que aparece em uma propaganda de roupas vestindo sapatos de salto alto e batom está submetida à adultização, mas não é necessariamente erotizada. De modo que uma mesma propaganda que exiba partes do corpo, aí sim, expõe a criança à erotização, contribuindo para a ação de abusadores.

Outros comportamentos , incluindo aqueles que socialmente são considerados normais e inofensivos, também contribuem para a adultização da criança. Por exemplo, incentivar o namoro entre crianças, mesmo que de brincadeira, coloca a criança em um papel próprio do adulto, impróprio para o seu livre desenvolvimento.

Isso não quer dizer que as crianças não possam ter curiosidade a respeito do mundo adulto e queiram satisfazer esse interesse pelo que observam, por meio da interpretação lúdica desses papeis. Mas é fundamental que tenham clareza dos limites que existem entre o brincar e a realidade, o que pode ser compartilhado e o que invade os limites do outro. Esse norte será dado sempre pelos adultos, por isso sua participação decisiva nessa condução.

“Ilustremos com uma situação relativamente comum nos dias de hoje: se um menino ou uma menina, ainda pequenos, são apresentados a uma cena de sexo explícito, seja ela televisionada ou assistida ao vivo, muito provavelmente eles, além de não entenderem completamente do que se trata, serão invadidos por uma gama de sentimentos e fantasias a respeito do ato, que pode gerar desde uma excitação exacerbada que provoca ansiedade, até sentir medo por acharem que se trata de algo violento, que machuca, gera dor. Em ambas as situações – ou em quaisquer outras possíveis impressões que os pequenos possam vir a ter em relação ao que viram – o impacto dessa apresentação tão adiantada em suas vidas acaba por trazer interpretações equivocadas, deixando marcas importantes nesse processo”, diz a publicação do nosso parceiro Toda Criança Pode Aprender sobre o assunto.

Fake news e erotização infantil

O livro “Aparelho Sexual e Cia.”, de Philippe Chappuis e Hélène Bruller, sobre a descoberta do corpo na puberdade, foi mencionado pelo candidato à presidência Jair Bolsonaro como um exemplo de obra “subversiva”. Após o fato, a publicação e se transformou em alvo de diversas fake news distribuídas nas redes sociais e Whatsapp.

Em entrevista ao Jornal Nacional, da TV Globo, o candidato afirmou que o livro fazia parte do mítico “kit gay” e que foi distribuído pelo MEC (Ministério da Educação) nas escolas, o que se revelou uma notícia falsa, conforme nota emitida pelo Ministério da Educação e pela empresa envolvida no caso, a editora Companhia das Letras. Quanto ao livro, trata-se de um best-sellerfrancês com milhões de cópias vendidas no mundo todo, e traduzido para dez idiomas.

Já em relação ao termo “kit gay”, é uma alcunha criada para descreditar o material “Escola Sem Homofobia“. Clique aqui para ler o posicionamento oficial do MEC em relação ao projeto. Neste mês em outubro, considerando a importância de desvendar fake news nas eleições, publicamos um infográfico sobre o “kit gay”, como ficou conhecido o material “Escola Sem Homofobia”.S

Fonte: https://lunetas.com.br/erotizacao-infantil/?fbclid=IwAR3iFkL0HhY4fOpSHXlkOofJOzAyNAFiTCtI6ubbYnPGrIb6s090JJlszlk

Post Author: Priscila Germosgeschi

Formada no curso de Letras na UFMT. Professora na rede particular desde 2001. Professora de Redação em Curso Pré Vestibular na cidade de Cuiabá (MT).

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