Artigo de opinião

OS DESILUMINADOS

O principal telejornal da Rede Globo – Jornal Nacional – está mostrando durante esta semana uma série de reportagens sobre a educação brasileira. Na edição do dia 03, a pauta girou em torno da “falha na formação acadêmica”, vista como “um dos principais problemas na qualidade do ensino”.

De forma criativa, a repórter Graziela Azevedo montou seu trabalho em cima de dois Pitágoras. O primeiro refere-se ao fundador de uma escola de pensamento grega. Nascido em Samus, cerca de 500 anos a.C., o velho Pitágoras teve como sua principal mestra a filósofa e matemática Temstocleia.

O segundo Pitágoras da reportagem é um professor carioca de Matemática, visto como alguém que ainda teve “sorte”, pois seu pai fora um apaixonado professor da mesma matéria, o que lhe ajudara em sua formação acadêmica.

A tal “sorte” desse Pitágoras também foi ligada ao fato de ele estar trabalhando na disciplina em que se licenciara, uma vez que 52% dos nossos professores não têm essa mesma “sorte”. Pior: 25% sequer têm o curso superior.

Mesmo com tanta “sorte”, a reportagem mostrou o cotidiano daquele professor. Além de lecionar em três períodos, foram destacadas outras atividades de um docente: preparar aulas e corrigir (muitas) provas e (muitos) trabalhos. Detalhe: ele também trabalha aos sábados. Desumano.

De uma escola a outra, correndo riscos no trânsito, o professor se desloca de motocicleta. No meio do caminho, há uma pausa, rápida, mas há. Comer é necessário, mas sua refeição é feita em pé, num balcão qualquer, o que a longo prazo poderá comprometer sua saúde.

Diante desse quadro, a repórter aproveita uma sala de aula do professor Pitágoras e pergunta aos adolescentes: quem gostaria de ser professor?

Ninguém responde.

A explicação para esse silêncio foi dada por Mozart Neves Ramos, do Instituto Ayrton Senna, que diz: “apenas 2% dos jovens querem ser professores, e mesmo assim são aqueles que não tiveram grande desempenho no ensino médio. Eles veem na licenciatura o caminho mais fácil de chegar ao ensino superior”.

Na sequência, a repórter traz o enunciado central da matéria: “O aluno com dificuldades de ontem se torna o professor com dificuldades amanhã”; ou seja: estamos vivendo um círculo vicioso que, segundo a professora Bernadete Gatti, da Fundação Carlos Chagas, “não está sendo rompido nem pelos governantes nem pelas universidades”.

Conforme resultados da pesquisa de Gatti, nos cursos de Pedagogia “sobra teoria e falta conteúdo”. Apenas 7,5% das disciplinas em tais cursos abordam temas das séries iniciais do ensino fundamental”. Em outras palavras: “o que ensinar é deixado de lado”.

Na verdade, Gatti apenas confirma o que todo mundo já sabe. Com raras exceções, um estudante de Pedagogia entra vazio e sai murcho de conteúdo, quando não sai um semianalfabeto que alfabetizará alguém. Falência completa.

Por outro lado, Gatti – que vê necessidade de mudanças na estrutura e nos currículos – afirma que as demais licenciaturas deixam de lado o “como ensinar”, com o que não concordo. Em Letras, pelo menos, que conheço bem, já há exacerbada “pedagogização”.

Seja como for, a realidade geral é muito adversa à aquisição do saber. Sobre isso, professores confirmaram na matéria não ter tempo para leituras e nem dinheiro para adquirir livros. Aliás, os baixos salários dos professores precedem a qualquer discussão sobre o ensino no país.

Portanto, se o Brasil não resgatar logo o papel social e pedagógico dos professores, o maior apagão da história ainda está por vir num porvir bem próximo.

Roberto Boaventura da Silva Sá
Dr. Jornalismo/USP; Prof. Literatura/UFMT 9f4d7604c88c99f0bd73bae0aa35e0db

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