A Vênus Negra

Recebi de presente o filme “Vênus Negra” de um amigo, já no finalzinho do ano passado. À primeira vista não sabia nem do que se tratava a obra, e o título também não me sugeria nenhuma ideia. Resolvi assisti-lo, pois só assim teria minhas dúvidas sanadas. Confesso que logo nas primeiras cenas, não sabia o porquê de estar apreciando aquilo, e logo entenderão o motivo. Pensei em desligar o computador e fazer algo mais interessante, mas ainda assim hesitei e resolvi seguir assistindo-o. Julguei necessário para entender algumas coisas que, fora de contexto, parecem não fazer nenhum sentido.

Vênus Negra retrata a história da sul-africana Saartjie Baartman, ambientada na Europa do século XIX. Saartjie foi uma mulher negra que trabalhava como doméstica na fazenda de Hendrick Cezar, seu então dono.

Saartjie foi levada à Europa com a finalidade de se apresentar em espetáculos circenses como uma selvagem que fora capturada na Cidade do Cabo. E como selvagem a ser exibida na Europa cosmopolita da época, tudo tinha de parecer o que temos ainda hoje como “exótico”, “diferente”, “exacerbado”. Como detinha de formas corporais bastante robustas, e as nádegas muito proeminentes, o que era aspecto bastante explorado nas apresentações, e bastante reforçado, pois seu dono a obrigava a comer muito para engordar e compor o personagem que representava. Saartjie usava roupas coladas ao corpo a fim de que ficasse “exoticamente” delineado e atraísse o público. Nos espetáculos, ela ficava dentro de uma jaula, não falava o idioma do local, e era exibida como a “Vênus Hotentote” (ver significado de Hotentote aqui).

Além de ser exibida como a selvagem, tinha de se jogar em cima do público com atitudes violentas, com a pretensão de atacá-lo, afinal de contas, ela era uma africana no meio dos europeus em pleno século XIX. Nada mais justo do que ver uma selvagem, brutalizada e sem a menor noção de civilização. Até porque a ideia do africano selvagem era usada para justificar o avanço colonial europeu sobre o continente africano no século XIX. Os europeus eram os “superiores” que tinham a missão de levar as luzes da civilização que viviam nas trevas do paganismo e do obscurantismo. Clique aqui e assista ao filme.

Paula Libence (autora do texto e do blog Escrevivência)

http://www.escrevivencia.wordpress.com

 

mulata

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *