A importância de discutir a saúde mental de alunos e professores na escola

A importância de discutir a saúde mental de alunos e professores na escola

Evento de NOVA ESCOLA debateu a influência do clima escolar na saúde dos educadores e a relação entre a saúde mental e a identidade dos jovens

POR:Larissa Teixeira
02 de Outubro de 2018

Fernando Monteiro falou sobre o papel do professor no clima escolar durante o evento Saúde Mental na Escola. Crédito: Lucas Magalhães

O clima escolar é um dos fatores que influenciam a saúde mental dos jovens e, claro, dos professores. Para garantir a qualidade do processo de ensino e aprendizagem, é preciso antes de tudo que a escola favoreça um ambiente harmonioso, em que o respeito e a colaboração estejam inseridos nas práticas cotidianas. O papel dos alunos e docentes na construção de um clima saudável foi tema de debates durante o evento Saúde Mental na Escola, promovido pela NOVA ESCOLA, com apoio do Facebook e Instagram.


Para abordar a importância da cultura colaborativa e do diálogo entre toda a equipe da escola, Fernando Monteiro e Bárbara Dias compartilharam a experiência da organização Evoluir Brasil, especializada em desenvolver conteúdos e metodologias educacionais inovadoras para o desenvolvimento de pessoas.

Segundo Fernando, fundador e diretor-executivo da Evoluir, nenhum fator isolado determina o clima de uma escola, mas sim a interação entre vários elementos relacionados com o engajamento das pessoas, a segurança e a estrutura física da instituição. “Um ambiente que favorece relações mais respeitosas e horizontais tem uma influência direta não apenas na saúde mental de todos, mas também na aprendizagem. Em escolas em que os docentes conseguem colaborar e pensar junto, os alunos também têm um melhor desempenho”, explica.


Para ele, é preciso que haja uma mudança de mentalidade que valorize a ação coletiva entre os educadores, o que pode ser feito com base em três campos de ação. Em primeiro lugar, na esfera pessoal – o docente precisa desenvolver suas próprias habilidades socioemocionais para que consiga se relacionar melhor com os colegas. Em segundo, ele deve investir em métodos de interação com os outros, como a prática do diálogo, a escuta ativa e a comunicação não violenta. Por fim, é necessário pensar no campo ambiental, ou seja, compreender que todos fazem parte de um todo e que precisam conviver em harmonia.

A coordenadora de projetos Bárbara Dias trabalha com projetos contínuos desenvolvidos em escolas públicas. Crédito: Lucas Magalhães

Bárbara Dias, coordenadora de projetos do Evoluir, aponta que, em um momento de polarização e discursos violentos, essas práticas são essenciais para preservar a saúde mental dos educadores. “Embora cada escola tenha suas especificidades, todas elas enfrentam esse dilema do convívio, do estresse, da depressão e da angústia dos professores”, conta. Por isso, ela acredita que é necessário trabalhar o desenvolvimento de habilidades socioemocionais, como autoconhecimento e prática da empatia, também entre os educadores.

Saúde mental dos jovens
Um bom clima escolar é responsabilidade coletiva e envolve também a participação dos estudantes. Ao enfrentar problemas de saúde mental e perceber que muitos alunos de sua turma pareciam tristes ou deprimidos, três alunas do Colégio Dante Alighieri, em São Paulo, tiveram a ideia de desenvolver um projeto científico na área de psicologia social sobre saúde mental e construção de identidade.

A aluna Alessandra durante apresentação da palestra "Saúde mental e identidade jovem". Crédito: Lucas Magalhães

Criado pelas adolescentes Alessandra Maranca, Catharina de Morais e Maria Clara Nascentes, o projeto “O Bem-Estar do Jovem: A Busca pela Saúde Mental a partir da Construção da Identidade Autêntica” foi realizado dentro do programa Cientista Aprendiz, do Colégio Dante.

"Na época tínhamos 13, 14 anos. Eu era bulímica, andava hostil com as pessoas e tinha passado por situações de bullying. Quando a gente se reuniu, chegamos à conclusão de que nós três estávamos sofrendo, e também percebíamos isso ao conversar com outras pessoas. Então queríamos entender por que isso estava acontecendo", conta Alessandra.

Em uma pesquisa inicial, as jovens descobriram que existem cerca de 35 milhões de adolescentes entre 10 a 19 anos com algum transtorno de saúde mental. “Identificamos que uma das etapas mais cruciais para que o jovem se torne um adulto maduro é a construção da identidade, ou seja, ter um conjunto de metas e objetivos estabelecidos. Essa questão da identidade influencia a saúde mental, principalmente neste momento da hipermodernidade, em que temos muitas opções e um grande poder de escolha”, relata Maria Clara.

As estudantes Maria Clara e Catharina durante apresentação do projeto que desenvolvem no Colégio Dante. Crédito: Lucas Magalhães

Após as pesquisas, o primeiro passo foi realizar um questionário com escolas públicas e particulares para entender a correlação entre esses fatores. Na segunda fase, elas criaram um plano de intervenção baseado em alguns pilares, como o fortalecimento do diálogo com o grupo, discussões sobre padrões corporais e o princípio da identificação. “Muitas vezes, os jovens têm mais dificuldade de falar sobre determinados assuntos com os adultos. Por isso, pensamos que uma boa maneira de fazer isso seria colocar os próprios jovens para falar com as turmas”, explica Catharina.

Dentro do projeto, foram escolhidos alguns líderes para guiar o trabalho nas salas de aulas e mediar rodas de conversa sobre a formação da identidade. O trabalho ainda está em andamento, mas a ideia é que possa ser replicado em outras escolas.

Fonte:
https://novaescola.org.br/conteudo/12677/a-importancia-de-discutir-a-saude-mental-de-alunos-e-professores-na-escola?fbclid=IwAR01HRGSZ_cShJ-rQt4vK4csRw1g_u53wIHEstgTPwTn972vLe5vHPo7lQg

Saúde mental na escola: por que cuidar dela

O número de suicídios entre adolescentes de 10 a 19 anos cresceu 18% desde 2013. A escola pode ser uma grande aliada para virar esse jogo com um trabalho de prevenção e promoção da saúde mental na escola

POR:Laís Semis
21 de Setembro de 2018

O psiquiatra Gustavo Estanislau durante evento de Saúde Mental na Escola. Crédito: Lucas Magalhães

“Se você perguntar a alunos de 10 anos quais são os sintomas de um infarto, em poucos minutos as crianças te dão uma lista de sintomas e alguns bem específicos. Se você perguntar sobre como evitar, a lista é ainda maior”, diz o psiquiatra Gustavo Estanislau, integrante do grupo Cuca Legal, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), e autor do livro Saúde Mental na Escola. “Agora, se eu perguntar para um monte de adultos quais são os sintomas e como prevenir a depressão ou ansiedade generalizada, vai ter uma grande confusão”. O tema foi discutido no evento Saúde Mental na Escola, realizado pela NOVA ESCOLA, com apoio do Facebook e Instagram.


Para Gustavo, a diferença entre a apropriação de conceitos da cardiologia e da saúde mental é que há anos a cardiologia realizou um esforço em divulgar as informações, com estratégias bem organizadas, a ponto de que qualquer adulto tenha condição de transmitir esses conhecimentos. “Já na saúde mental, a gente vem fugindo desse assunto há muito tempo”, afirma o psiquiatra. O resultado do tabu em falar de assuntos como auto-mutilação, depressão e suicídio é que o número de casos fatais entre os jovens tem crescido entre os brasileiros. Dados do Sistema Único de Saúde (SUS) indicam, por exemplo, entre os adolescentes de 10 a 19 anos, o aumento de casos de suicídio foi de 18% nos últimos cinco anos.

Promoção e prevenção: o caminho para evitar casos graves

Gustavo Estanislau reconhece que a escola pública vivencia muitos casos difíceis, que se desdobram em agressividade dentro e fora dos espaços escolares. “Eu sei que a gente tem se assustado com os casos muito complicados, mas o caminho para lidar com essas situações é olhar mais cedo para eles”. Nesse contexto, a promoção da saúde mental e a prevenção são essenciais e a escola pode ser uma aliada importantíssima pela proximidade e pelo espaço de convivência com crianças e adolescentes.

Crédito: Lucas Magalhães

O primeiro passo é quebrar o estigma que existe diante desses casos. “A grande ferramenta contra o preconceito é falar sobre as coisas”, diz Gustavo. Só assim eles tendem a ir se dissolvendo. Nesse contexto, entra a  promoção. Em resumo, esta ação consiste em usar o que já existe dentro de cada um (os sentimentos e competências socioemocionais) e desenvolvê-las. “É buscá-las no aparato psicológico que cada um tem, de maior ou menor forma e estimulá-lo”. Para estimular essa ação, cinco competências são destacadas: autoconhecimento, consciência social, tomada de decisões responsável, habilidade de relacionamento e autocontrole. 


O psiquiatra, especialista em infância e adolescência, exemplificou como o autoconhecimento pode colaborar no processo. Essa competência se dividiria na habilidade de se auto-questionar sobre como a pessoa está se sentindo e responder corretamente a essa pergunta. “Às vezes, passamos vários dias irritados e não paramos para perguntar o que está acontecendo. Essa pergunta faz uma baita diferença”. O processo de falar sobre o que estamos sentindo ajuda a entender quais são os sentimentos envolvidos e organizá-los da melhor maneira. Para algumas pessoas, esse processo é mais intuitivo. Outros precisam de intervenção para desenvolvê-los.

Por “responder corretamente”, Gustavo atenta que é comum incidir em erros ao “afunilar” os sentimentos. Um jovem com tendências agressivas poderia fazer uma leitura equivocada desse sentimento e definir como raiva emoções que poderiam ser medo ou vergonha. No caso de uma pessoa mais negativa, a leitura de como os demais indivíduos a enxergam pode fazer com que fique isolada. Esses comportamentos podem afetar o indivíduo e suas relações dentro e fora da escola. Conhecer seus sentimentos também ajuda na identificação nos outros. “Se há um entendimento de que alguém está com raiva, a tendência é sair de perto dela. Mas se não é entendido como raiva, mas como vergonha, é possível acessá-la e oferecer ajuda”, explica o psiquiatra.


Casos complicados de adultos necessitam, muitas vezes, de intervenções mais complexas, que podem chegar até à internação, em situações de dependência química e agressividade. “Via de regra, a intervenção de promoção de saúde mental é muito mais barata, fácil e mais efetiva”, afirma o especialista. A partir do desenvolvimento de competências socioemocionais, os indivíduos se apropriam de mais estratégias para lidar consigo mesmos, com os outros e com as escolhas que vão fazer a partir daí. 

Crédito: Lucas Magalhães

Conselho não é tudo

Outra ação importante e que também pode ser desenvolvida pela escola é a prevenção. A base da prevenção é a informação. Entre os adolescentes, a prática da auto-mutilação pode ser comum em determinados círculos. Ter informações sobre o tema ajuda na hora de conversar com o jovem. As informações são importantes para dar segurança ao interlocutor. É por isso também que Gustavo Estanislau recomenda que professores pesquisem sobre o tema e troquem experiências entre si. 

Na hora da conversa, focar na postura emocional também ajuda. “A maior preocupação não deve ser a resposta que você vai dar, mas a postura que você vai ter: manter a tranquilidade e uma postura firme, mas afetiva ao mesmo tempo”, explica Gustavo. “Essa postura vem de informação, pesquisar o assunto e saber que esse tipo de evento não acontece só na escola”. Quebrar o tabu e puxar essa conversa com um aluno que pareça estar passando por uma situação de tristeza ou risco de vida pode ser o fator decisivo para mudar sua história.

Fonte:
https://novaescola.org.br/conteudo/12605/saude-mental-na-escola-por-que-cuidar-dela

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