A ESCASSEZ DO ALTRUÍSMO

 

Texto do nosso colaborador Gabriel Hilair.

No Brasil, o altruísmo da elite branca nunca existiu. Os séculos de escravidão e seus resquícios que ainda acometem os afrodescendentes foram apagados da memória e da boca dos brancos e dos embranquecidos, foram substituídos pelo discurso de meritocracia e usados em contrapartida às políticas afirmativas, como as cotas raciais nas universidades. A exclusão social e, acima de tudo, o difícil acesso à educação de qualidade não são vistos em contextualização com o passado de desumanização e exploração e a atual situação educacional da população negra brasileira.

A sociedade em que estamos inseridos tolera o analfabetismo e a educação de má qualidade, porém possui renda per capita elevada e, por isso, segundo índices como o PIB e o PNB, que são bastante utilizados para medir o grau de riqueza de um país, é considerada “desenvolvida”. Em nossa pátria, a educação é diferenciada de acordo com a renda familiar de uma criança e, ainda assim, neste mandato, foi intitulada “educadora”. Como acontece desde os tempos dos sinhozinhos, os que estudam se beneficiam da exclusão dos que não estudam e, acredite, “estamos livres da escravidão”.

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Em meio a tanto egoísmo e nepotismo, ao menos as palavras da língua portuguesa são altruístas. Ao abnegar da reiteração de seus significados quando usadas por intelectuais e economistas para comemorar a minúscula distribuição de renda, como antes os senhores, que se envaideciam da melhoria da alimentação de seus escravos em tempo de encarecimento no preço do açúcar. Não somos uma sociedade desenvolvida, não somos uma pátria educadora e, mormente, não estamos livres da escravidão. O Brasil continua escravocrata. Pois ainda hoje não fizemos a distribuição do conhecimento: o saber ainda não recebeu alforria da Casa Grande.

Os privilégios que são dados aos brancos ricos desde o nascimento lhes condiciona a olhar os negros sob uma ótica individualista. Dessa forma, eles continuam escravistas quando fazem necessário o regime de exclusão dos pretos como o preço a ser pago por sua posição social, por ocuparem, desde a colonização, o topo da pirâmide social brasileira, assim como no século XIX seus antepassados lucraram às custas do regime de cativeiro imposto à economia brasileira.

Atualmente, o altruísmo foi novamente deixado de lado devido à supervalorização tática, foi sobreposto pelo valor da especialização, pelo domínio e utilização de técnicas para enriquecimento próprio. A banalização da competitividade fez dos brancos pertencentes à elite pessoas ainda mais frias. A ganância reinante é tão grande que não se pode afirmar que deixaram de cultivar o anseio pela hierarquia e por uma sociedade estática como durante a escravidão. Não dá para pensar em ganância tendo outra cor senão a branca. Ambição pode ser negra, mas ganância pura e simples requer acesso às esferas de poder e isso poucos negros têm, até mesmo no continente africano.

Quando observamos a diferença na qualidade de vida de crianças nas periferias e em regiões metropolitanas e olhamos para o futuro traçado para elas pelos governantes, através desse desigual plano secular, é impossível julgá-las segundo uma ótica de mérito. Dependendo do poder aquisitivo, e do consequente acesso à educação de qualidade, alguns terão uma vida mais longa e linear, enquanto outros viverão menos e turbulentamente, pois quando o racismo não mata, adoece e/ou aleija.

A exclusão dessas crianças da trajetória de educação formal prevista por lei, hoje, substitui o sequestro na África, o transporte até o Brasil, o cativeiro e o trabalho forçado. Hoje, os brancos com poder não mais pagam para ter escravos sob a sua tutela, o dinheiro antes usado para comprar novos escravos agora é usado em benefício próprio e na formulação de leis trabalhistas mais favoráveis aos interesses dos novos escravistas.

Como podemos perceber pelas acusações de “vitimismo”, muito em breve poucos brancos vão se reconhecer como parcialmente culpados pelo maior crime coletivo de toda a história brasileira e da humanidade, praticado por seus ancestrais: a escravidão. E sequer no mais utópico dos devaneios terão em mente a reparação devida para sustentar o “sonho americano tupiniquim” ao cumprir essa dívida colossal. Decididamente, vivemos a escassez do altruísmo. Desse modo, nós, pretos, não devemos expectar uma beneficência que quiçá jamais realize-se, já que os brancos já demonstraram não estarem dispostos a discernir sua respectiva culpa, tampouco vivificar qualquer esboço de justiça.

Fonte: http://osentendidos.revistaforum.com.br/2016/03/07/escassez-altruismo/

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