O petróleo, a hegemonia e a distribuição do poder

Por Rennan Martins em 24/02/2015 na edição 839

A ordem global unipolar, irradiada desde Washington e possibilitada após a queda da URSS em 1991, chega a nossos dias seriamente debilitada, o que por sinal comprova a falsidade da pretensiosa tese de Fukuyama, postulante do fim da história.

As cada vez mais recorrentes crises financeiras provocadas por um capitalismo altamente desregulado, conjugadas a crises sociais decorrentes de desastrosos planos de liberalização e austeridade, somam-se às crises humanitária e ambiental, frutos, em seu tempo, de guerras expansoras de mercado e da superexploração de recursos naturais, necessária num sistema onde a lógica predominante é a do crescimento infinito.

Os desmandos e arbitrariedades de uma potência que instrumentaliza os conceitos de democracia e direitos humanos objetivando impor sistemas e governos que lhes garantam hegemonia política e econômica, aliados a negligência do vencedor que se julga incontestável, foram fértil terreno de construção de projetos políticos alternativos, principalmente no que se refere à América Latina e aos países em desenvolvimento de maneira geral.

Eis que estes projetos chegaram ao poder em diversas partes do mundo e iniciou-se a construção de alianças e instituições alheias às receitas ocidentais que constam no FMI e Banco Mundial. Acontecimentos emblemáticos deste movimento foram a Cúpula Celac-China e o acordo dos Brics para a criação do Novo Banco de Desenvolvimento e o Arranjo de Reservas Contingentes. Essas instâncias de cooperação internacional constituem verdadeiro terremoto geopolítico que atinge frontalmente o projeto de globalização encabeçado pelos EUA e União Europeia.

Um dos produtos naturais desta realocação de poder é a desdolarização da economia mundial, pois os governos do sul global não mais pretendem se manter expostos à inconsequente política do FED, que exporta problemas internos, fazendo com que outros países paguem a conta de uma economia imensamente endividada. Há também uma crescente desconfiança em relação ao real valor do dólar, dado que a moeda não possui lastro e os EUA a imprimem a torto e a direito para cumprir seus compromissos.

A fuga do petrodólar causa graves preocupações a uma Casa Branca de influência declinante, que responde escalando as hostilidades, intervenções e manobras econômico-financeiras, estas com fins claramente políticos.

Desde o início de 2014 os EUA coordenam, com os eternos aliados na Arábia Saudita, a inundação do mercado de petróleo que derrubou o preço do barril em mais de 50%. Esta medida afeta diretamente regimes de alta dependência das receitas do petróleo e derivados, entre eles, não por acaso, a Rússia e a Venezuela. Outras ações desestabilizadoras se somam a campanha, inclusive em países aparentemente não envolvidos, caso do Brasil.

Otan, Rússia e Ucrânia

A Rússia enfrenta a expansão da Otan até sua imediata fronteira desde o golpe orquestrado que se deu na Ucrânia. Após a derrubada do avião civil voo MH17 da Malaysia Airlines, uma verdadeira operação de falsa bandeira realizada pela Junta de Kiev, obteve-se o pretexto para a imposição de sanções e histérico bombardeio midiático sobre a “agressão russa”, que curiosamente jamais mostra imagens e vídeos das supostas tropas moscovitas invadindo território ucraniano.

A operação mal esconde a intenção real de Washington, que é controlar o fluxo de gás natural russo até a Europa. O FMI anunciou há poucos dias uma “ajuda” de US$ 17,5 bilhões ao governo ucraniano presidido pelo magnata Petro Poroshenko, colaborador da CIA desde no mínimo 2006, segundo vazamentos do WikiLeaks. A mais importante contrapartida para os “parceiros” ocidentais é a “reforma do setor energético”, que evidentemente privatizará o setor, entregando-o a corporações norte-americanas.

É também significativo que o secretário de Estado ianque, John Kerry, tenha sido excluído das negociações do segundo acordo de cessar-fogo de Minsk, o que denota que era visto como parte não cooperante. Somado ao fato dos EUA terem anunciado o envio de 600 militares a Ucrânia para fins de treinamento das forças locais, entende-se bem quem está forçando o conflito para a via bélica.

Venezuela e a oposição cooptada

O projeto chavista/bolivariano liderado pelo presidente eleito democraticamente Nicolás Maduro é alvo de incessante intervenção estrangeira, que se materializa numa oposição altamente ligada e financiada por interesses norte-americanos. A maior jazida petroleira do mundo é venezuelana e esta é a causa concreta de tanta sanha.

No ano passado a Venezuela enfrentou violentos protestos oposicionistas que incendiaram prédios públicos, armazéns e escolas e assassinavam motoqueiros que eram atingidos no pescoço por arames farpados estendidos nos piquetes. A desonestidade da oposição ficou evidente quando descobriu-se que diversas fotos por eles divulgadas como se fossem dos confrontos locais nada mais eram que imagens retiradas de buscas na internet.

Atualmente, o governo local passa por sérios problemas financeiros por conta da redução no preço do barril, o que dá abertura a mais inquietações que serão outra vez aproveitadas por interesses escusos.

Brasil, Petrobras e corrupção

Por aqui, a Operação Lava-Jato expõe as entranhas do esquema de propinas instalado há muito na Petrobras e nas grandes empreiteiras. As revelações, que poderiam servir para um amplo debate sobre a reforma do sistema político e a separação mais criteriosa do setor público e privado, são distorcidas e transformadas em ataque ao regime de partilha e ao próprio governo, que bancou esta legislação e a destinação de recursos do pré-sal para a educação.

A mídia brasileira, que segundo o professor Nilson Lage é “coordenada desde Miami pela Associação Interamericana de Imprensa”, pinta a baixa das ações da estatal como fruto do esquema de corrupção descoberto, e não pela queda geral do setor causada pela sobreoferta do mercado de petróleo. O nível de enviesamento do noticiário e consequente alienação dos cidadãos é tão preocupante que muitos chegam a ridicularizar os que falam de interesses estrangeiros intervindo na Petrobras, esquecendo que há poucos meses descobriu-se o esquema de espionagem da National Security Agency à estatal. Enquanto isso, a Petrobras se torna a maior produtora de petróleo entre as empresas de capital aberto, descobre novas reservas e é premiada por conta das tecnologias de ponta que desenvolve.

O sucesso inegável da empresa é escondido pelos veículos submissos e cobiçado pelo capital internacional, que se satisfaz com as difamações e inverdades difundidas enquanto atua pelo lobby para primeiramente quebrar o monopólio de operações da estatal no país e em seguida acumular forças para privatizá-la, culminando no total controle dos mais de 80 bilhões de barris do pré-sal.

Integração de países do Sul global terminará por isolar os EUA

O fator chave desta ofensiva é que a estratégia de manter a superprodução petroleira e o baixo preço do barril não pode ser mantida indefinidamente por conta dos efeitos colaterais que lhe são inerentes. Os atuais preços inviabilizam a exploração do petróleo não convencional – que é a aposta norte-americana para a independência energética – e atingem a saúde das finanças sauditas. Ou seja, Washington sabe que essa guerra econômica possui prazo, sob pena de arruinar setores chaves da economia nacional e enfraquecer a Arábia Saudita, parceiros fundamentais no que se refere a manutenção do dólar como moeda padrão para transações de petróleo e derivados.

A conjuntura é, portanto, de aumento da agressividade ianque frente aos que divergem das regras do “livre” mercado (livre somente se manipulado pelos próprios), e ainda mais hostilidade e ingerência aos que ousam negociar petróleo em moedas que não o dólar.

As nações atingidas recorrem, por sua vez, ao apoio da China por meio de empréstimos e aumento de comércio entre as partes. A Venezuela já obteve ajuda financeira de Pequim, enquanto a integração econômica sino-russa se dá em velocidade crescente. No entanto, a atuação chinesa não se trata de solidariedade, os estrategistas chineses têm interesse em substituir o dólar, substituindo-o por um yuan lastreado em ouro, e sabem ainda que se derrubado o governo russo, os próximos a serem submetidos a “disciplina” são eles.

Depreende-se deste quadro a inevitabilidade da ascensão de uma ordem global multipolar, a qual é adiada de todas as formas por um império declinante em influência política e econômica, mas, ainda assim, a mais ameaçadora força militar planetária. A integração e cooperação entre os países do Sul global terminará por isolar os EUA, mais cedo ou mais tarde, e então entraremos numa era em que o poder estará distribuído com maior equidade, abrindo novas possibilidades de organização econômica e social.

Por Rennan Martins em 24/02/2015 na edição 839

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