HAMLET, O ANTI-FACEBOOK.

Numa palestra realizada pelo professor Leandro Karnal, ele analisa o pensamento do personagem Hamlet e sua possível crítica à realidade contemporânea em que estamos inseridos, muitas questões são convenientemente abordadas, envoltas numa retórica de pessimismo heroico somada a uma ironia elegante, o que parece ser uma característica constante do professor.

Embora a palestra seja muito rica de relações, pretendemos nos concentrar apenas no ponto em que ele critica, à luz do pensamento de Hamlet, certo tipo de relação dominante na página da rede social facebook e, por conseguinte, estabelecer algumas conexões com os postulados da Doutrina Espírita.

O professor faz notar que Hamlet representa os fundamentos da consciência moderna ou o homem inserido no espírito da modernidade, isto é, desvinculado da tradição metafísica que orientou desde então toda a cultura e a sociedade, e portador do ideal e do sentimento da autonomia do eu no processo do conhecimento, na trajetória existencial e na construção de si mesmo ou no – “chegar a ser o que tu és.”

“Ser ou não ser” é também analisado como – existir ou não existir – e, em face da autonomia do eu, a existência está necessariamente fundada numa profunda experiência de consciência. Não basta viver como as coisas e os animais vivem no mundo, é necessário existir, e existir significa manifestar, o quanto puder, a consciência que determina um modo de ser específico no mundo – nisso consiste também a liberdade de ser a partir de sua determinação ontológica, para além do social, do histórico e do psicológico. Portanto, Hamlet é fruto dessa profunda e constante experiência de consciência, e o caráter dessa experiência se concentra no exercício da reflexão.

Há então uma distinção entre consciência reflexiva e consciência informativa. A consciência reflexiva permite o exercício da autonomia do eu, o ser com ela se manifesta, se impõe no sistema rígido do mundo, abre uma brecha de liberdade, e é o tipo de consciência nascente em Hamlet. A consciência informativa é típica da contemporaneidade e intensificada pelo advento das redes sociais na internet.

As redes sociais estão sob o signo de Narciso, é um espelho em que o eu se apercebe de si mesmo não por meio de uma constante reflexão, mas através de um discurso simbólico que se esforça em esconder o grande vazio da personalidade. O social é o espaço de fuga da tragédia individual.

Assim a imagem da felicidade é (re)construída nas redes sociais e continuamente alimentada pelo desespero de se perceber num grande vazio. As pessoas optam em “não ser”, ou simplesmente não conseguem “ser/existir” – sustentar uma consciência da existência, da vacuidade dos valores, da baixeza dos sonhos de felicidade, de mobilizar a razão para alcançar uma luz efetiva, de organizar a existência segundo os ditames da consciência, de lutar contra os medos, as carências, as fraquezas e as más inclinações, pois a consciência delibera sempre a favor da luta moral, e não da satisfação, da alegria imediata, passageira e enervante. Então o que resta é a fuga, a exaltação do momento e da mediocridade.

A vida e os valores medíocres são, pois, o foco da informação nas redes sociais. Diz o professor Leandro Karnal:

                                  “Hamlet é o anti-facebook. Ele não só não é feliz como não faz questão de parecer feliz. Hamlet é melancólico. Tem uma consciência brutal, e quem tem uma consciência brutal não compartilha sua vida medíocre o tempo todo.”

Mas Narciso angustiado reina nas mentalidades. Que tipo de fotos, imagens, pequenos textos são continuamente divulgados por inúmeras pessoas no facebook? – A simbologia medíocre da felicidade e um discurso opiniático onde todos falam (dão pitaco) e ninguém ouve.

Mas essa aparência de felicidade é a verdadeira desgraça, como assevera o Espírito Delphine de Girardin:

                           “A desgraça é a alegria, o prazer, a fama, a fútil inquietação, a louca satisfação da vaidade, que asfixiam a consciência, oprimem o pensamento, confundem o homem quanto ao seu futuro.”

Mas na lógica facebookiana a felicidade, ou sua possível aproximação, é a satisfação das paixões medíocres do homem.

Ora, as paixões ou melhor, o excesso da vontade (ver questão 907 e 908 do LE) prende o Espírito à matéria e “asfixiam a consciência”, portanto, não permitem a tal profunda experiência de consciência. A consciência, como “guardião da probidade interior”, fomenta a autonomia do ser e orienta para um efetivo esclarecimento e emancipação.

Esta experiência profunda não pode se dar nas redes sociais, onde a estética, o discurso e a opinião medíocres apenas funcionam como anestesia ao Narciso angustiado. O estratagema está nisso: onde se acredita que exerce a democracia e o livre-pensamento, na verdade só intensifica a alienação através da fuga de si mesmo; abafa a dor existencial que pode ser muito fecunda para a reflexão; engendra a coletivização da consciência que não é portadora de um “eu” autônomo, senhor de si mesmo, mas união de um turbilhão de personalidades (persona/máscara) superficiais que se projetam umas nas outras e, portanto, sem identidade existencial, isto é, oriunda da experiência solitária e silenciosa do “eu” no mundo, tal como Hamlet representa.

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