Como o Google Afeta o Cérebro ?

Como google afeta o cérebro



A facilidade com que se encontram informações na internet estão transformando nossa memória e a forma como processamos o conhecimento.

Revista Veja – por Alexandre Salvador e Filipe Vilicic

intemet produziu transformações es­petaculares nas sociedades na última década, mas a mais profunda delas só agora começa a ser estudada pela ciência. A facilidade e a rapidez com que se encontram informações na rede, sobre qualquer assunto e a qualquer hora, podem estar alterando os processos de cognição do cérebro. Até a popularízação da web, as principais fontes de conhecimento com que todos contavam eram os li­vros e, evidentemente, a própria memória do que se aprende ao longo da vida. A internet mudou esse pa­norama: a leitura em profundidade foi substituida peIa massa de informações, em sua maioria superficiais, oferecidas pelos sites de busca, blogs e redes de rela­cionamento. A memória, por sua vez, perdeu relevân­cia – para que puxar pela cabeça para se lembrar de um fato ou do nome de uma pessoa se essas informa­ções estão prontamente disponíveis no Google, a dois toques do mouse? Quanto mais dependemos dossites de busca para adquirir ou relembrar conhecimentos, mais nosso cérebro se parece com um computador obsoleto que necessita de uma memória mais potente.

Um dos estudos mais completos so­bre essa mudança determinada pela in­ternet na forma como assimilamos e pro­cessamos conhecimento foi divulgado na semana passada. Conduzido pela psi­cóloga Betsy Sparrow, da Universidade Columbia, e por outros dois colegas, ele mostra que a memória processada pelos 100 bilhões de neurônios do cérebro está se adaptando rapidamente à era da infor­mação imediata. Hoje, diz uma das con­clusões da pesquisa, nós nos preocupa­mos menos em reter informações porque sabemos que elas estarão disponíveis na intemet. Em lugar de guardar conheci­mentos, preferimos guardar o local na rede onde eles estão disponíveis. A inter­netse tornou uma memória externa, o que faz com que as informações sejam armazenadas não mais no nosso cérebro, mas coletivamente. “Desenvolvemos uma relação de simbiose com as ferra­mentas de nosso computador, da mesma forma que com as pessoas de nossa fa­mília”, disse Betsy Sparrow a VEJA.

Na frase genial do cientista brasilei­ro Miguel Nicolelis, “o cérebro é uma orquestra sinfônica em que os instru­mentos vão se modificando à medida que são tocados”. Dificilmente alguém conseguirá explicar essa plasticidade com uma imagem mais exata e intrigan­te. Imagine-se um violino cerebral que, tocado de forma medíocre por anos a fio, vai se transformando aos poucos em um berimbau. Ou um piano marrelado por um músico de uma nota só que, ao fim e ao cabo, vira um bumbo. A lição básica de Nicolelis é que o cérebro pre­cisa de impulsos para se desenvolver­ quanto mais variados, complexos, har­mônicos e desafiadores eles forem, mais humanamente melhor o cérebro se tor­nará. Essa. corrida para a perfeição não se completa nunca. Por definição. Quan­to mais o cérebro se modifica pela quali­dade dos impulsos que recebe, melhor e mais eficiente ele se toma, o que aumen­ta sua prontidão para processar infor­mações ainda mais intrincadas. Portan­to, o cérebro é uma estrutura que apre­cia desafios e se transforma com eles. Facilitar sua atividade pode, como mos­tra o estudo da pesquisadora Sparrow, torná-Io mais preguiçoso e menos ávido por se aperfeiçoar. Sparrow se debruçou mais sobre os efeitos na atividade cogni­riva da facilidade que a  internet oferece a seus usuários de encontrar praticamen­te qualquer informação histórica, cientí­fica ou literária já produzida pela huma­nidade e estocada de forma digital. Essa memória acessória externa descomunal em prontidão permanente e de fácil aces­so é algo inédito na caminhada evolutiva do cérebro humano. Ela oferece um conforto tal que nenhuma geração pas­sada teve nesse mesmo volume e rique­za de informações. Sparrow se pergunta – mas não responde totalmente na pesquisa que acabou de publicar – que ti­po de efeito sobre a plasticidade do cére­bro a internet, e mais precisamente os mecanismos de buscas como o Google, pode exercer. Seria um efeito equivalen­te ao que tem para os músculos de um atleta ele deitar-se em um sofá com uma lata de refrigerante na mão e os olhos pregados na televisão? Ou, de outra for­ma, a facilidade de estocagem e recupe­ração de virtualmente qualquer tipo de informação pode, com o passar do tem­po, atrofiar os instrumentos da orquestra cerebral humana especializados na bus­ca e seleção de informações? Sem saber, talvez, Betsy Sparrow abriu uma linha nova de investigação cientifica que tem um grande futuro pela frente.

A pesquisa foi conduzida em quatro etapas, com alunos das universidades Harvard e Colúmbia. Os panicipantes tiveram de memorizar afirmações tri­viais, daquelas tipicamente encontradas no Google, Os alunos informados de 
que não teriam um novo acesso às infor­mações conseguiram memorizá-Ias em maior número do que o grupo que sabia que as frases estariam na internet. Se­gundo os autores do estudo, isso mostra que, quando as pessoas sabem que terão acesso fácil a uma informação, não se preocupam em memorizá-la.

A pesquisa de Sparrow levanta entre muitos cientistas e educadores o temor de que estejamos nos transformando em ter­minais de informações, e não em agentes capazes de processar conhecimento por meio da memória e do raciocínio. A neu­rocientista Maryanne Wolf, diretora do Centro de Pesquisas de Leitura e Lingua­gem da Universidade Tufis, de Boston, trabalha com o desenvolvimento da leitu­ra em crianças. Segundo ela, o cérebro é capaz de se adaptar e formar sinapses en­tre os neurônios de acordo com o tipo de leitura que se faz. Em seu livro Proust and lhe Squid: The Story ano Science of lhe Reading Brain (Proust e a Lula: a História e Ciência do Cérebro que Lê), Maryanne demonstra preocupação em como a leitura tem se desenvolvido. Ela diz: “Livros sempre foram uma forma de se aventurar além das palavras, trabalhar a imaginação e crescer intelectualmente. Porém, na era da internet, passou-se a ler rapidamente, sem análise nem crítica. Co­mo consequência, o cérebro começou a ter dificuldades na hora de ler com con­centração“. ‘Na sua conclusão. os jovens estão desenvolvendo menos as conexões de seus neurônios.

Um estudo feito pela University Col­lege London mostrou que, mesmo no ambiente acadêmico, o estilo Google de assimilar conhecimento se disseminou. O estudo mapeou os hábitos dos usuá­rios de dois sites com grande audiência entre universitários: o da British Library e o de uma associação de instituições de ensino inglesas. Os endereços dão aces­so a e-books, artigos e pesquisas. O estu­do mostrou que a maioria dos frequenta­dores dos sites acessava muitos itens do conteúdo, mas apenas uma ou duas pági­nas de cada um deles. O padrão era pular rapidamente de um artigo ou um livro para outro, o que constitui o que os pes­quisadores chamaram de power brow­sing – em português, “navegação mecâ­nica”. “As pesquisas mostram que nossa vida on-line é capaz de afetar a neuro­química de nosso cérebro”, disse a VEJA a psicóloga americana Sherry Turkle, professora de estudos sociais e ciência da tecnologia do Instituto de Tecnologia de Massachusens. Os céticos das teorias de que a intemet está mudando radical­mente o cérebro humano sustentam que a história está cheia de exemplos de no­vas tecnologias que foram recebidas com uma desconfiança que, posteriormente, se mostrou infundada. Na Grécia Antiga, Sócrates lamentou a popularização da escrita. Ele defendia a tese de que a subs­tituição do conhecimento acumulado no cérebro pela palavra escrita tornaria a mente preguiçosa e prejudicaria a me­mória. O advento da imprensa de Guten­berg, no século XV, suscitou prognósti­cos de que a facilidade de acesso aos li­vros promoveria a preguiça intelectual. Pode ser que esses paralelos sejam cor­retos e tranquilizadores. Tanto a escrita quanto a imprensa potencializaram a ca­pacidade cognitiva humana, especial­mente pela facilidade na troca de infor­mações entre mais gente. Talvez a sal­vação de nossa orquestra cerebral nos tempos da internet venha pelo mesmo caminho: a intensa troca de conheci­mento e experiências.

Fonte: https://www.methodus.com.br/artigo/742/como-google-afeta-o-cerebro.html

Post Author: Priscila Germosgeschi

Formada no curso de Letras na UFMT. Professora na rede particular desde 2001. Professora de Redação em Curso Pré Vestibular na cidade de Cuiabá (MT).

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