As máscaras da sociedade em “Memórias Póstumas de Brás Cubas”.

As máscaras da sociedade em “Memórias Póstumas de Brás Cubas”
A obra de Machado persiste como uma espécie de espelho no qual se reflete a sociedade atual

Sinvaldo Júnior
Especial para o Jornal Opção

Machado de Assis, nascido no século 19, é considerado um dos mais im­portantes escritores brasileiros. Ele soube usar como ninguém de um estilo completamente original para tratar de questões diversas. Seu estilo e sua originalidade, apimentados pela ironia, nos mostram o escritor como um arguto analista dos valores da sociedade brasileira.  “Em Memórias Póstumas de Brás Cubas” são levantadas, por meio desse estilo original, várias questões, dentre elas a problemática nacional, particular do século 19, mas que persiste como uma espécie de espelho no qual se reflete nossa atualidade.

O gênio Machado de Assis, ao criar “Memórias Póstumas de Brás Cubas”, a priori inventa uma narrativa na qual o contrassenso é o alicerce do enredo, pois existem intromissões do narrador (afronta que dá ritmo próprio à narrativa) que expressam a voz de um “de­funto-autor” — originalidade machadiana que, por sua vez, é também um recurso técnico que revolucionou a literatura nacional.

Outro aspecto da originalidade de Machado, em “Memórias Póstumas”, é a intenção do narrador de chamar a atenção sobre si mesmo, usando de pilhérias, anedotas, normalmente com o intuito de criticar a recorrente superioridade da classe burguesa brasileira, da qual o próprio Brás Cubas faz parte. Essa sociedade que pretensamente se diz adepta do ideário liberal burguês está, contraditoriamente, alicerçada no sistema latifundiário-escravocrata. Brás Cubas brinca com essa simulação por meio de uma prosa culta, característica do meio em que vive, o que o torna, de certa forma, um narrador (supostamente) crível.

Supostamente crível porque, segundo Schwarz, conforme Brás conta suas aventuras, as suas “fisionomias” mudam, e essas mudanças do personagem fazem com que o leitor pise num terreno volúvel, o que o faz ter dúvidas a respeito de Brás e das suas histórias contadas.  Portanto, ser um “defunto-autor” é uma estratégia usada para enganar/manipular o leitor, pois o “abuso pelo abuso” de Brás Cubas é um exibicionismo de sua própria condição, su­perior aos mortais, e, por outro lado, uma atitude de deleite de amor-próprio.

A respeito da intenção retórica do narrador e da prosa culta, percebe-se a necessidade de Brás Cubas em promover sua superioridade — conduta própria da classe dominante —, fato que é observado por Machado de maneira risível na obra. Essa sátira, por meio da prosa requintada do narrador-personagem-defunto, nos leva a afirmar que esse é um tipo social, enquanto símbolo da sociedade que ele próprio satiriza. No entanto, é preciso deixar claro que Brás Cubas é, sim, um modelo da classe burguesa, mas que transcende o tradicional tipo social da literatura, personagem reto e plano. Brás Cubas, com sua voz narrativa, discorre sobre temas filosóficos, sociológicos, religiosos, morais, existenciais, o que o torna um personagem extremamente complexo — mais um grande feito de Ma­chado de Assis.

A história de “Memórias Pós­tumas de Brás Cubas” se passa em meados do século 19, e como tal, abrange a sociedade da época, a saber, uma sociedade escravocrata que tinha a pretensão de adaptar as teorias liberais europeias ao contexto brasileiro, o que era completamente inconciliável. Uma vez que as teorias liberais pregavam e preconizavam liberdade e oportunidades para todos, era contraditório em relação à escravidão vigente, estrutura política e econômica de muitos senhores da época. Machado, por meio da voz de Brás Cubas, em vários momentos no romance detecta essa contradição, camuflada por um discurso hipócrita e manipulador.

Contradições ainda existem, mesmo mais de um século após a publicação de “Memórias Pós­tumas”. Esse contraste em relação ao que é dito, ao que é feito, ao que existe de fato, ainda persiste na sociedade brasileira. O recorrente discurso democrático não condiz com uma sociedade em que a maioria não tem oportunidades e condições. Machado de Assis é atual, pois mais de cem anos atrás ele abordou te­mas que naquela época eram problemas da sociedade brasileira e até hoje per­duram.

Sinvaldo Júnior é escritor. Doutorando em Literatura.

TODOS OS DIREITOS RESERVADOS AO SITE:http://www.jornalopcao.com.br/posts/opcao-cultural/as-mascaras-da-sociedade-em-memorias-postumas-de-bras-cubas

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *