Artigo de opinião

ASSALTO ÀS AUTONOMIAS

A cada momento político que vivemos, cunhamos palavras que vão se inserindo com naturalidade em nosso cotidiano. Além do termo “corrupção”, que se nos colou desde o princípio e não nos larga de jeito algum, a palavra da vez é “ingerência”.

Conforme a semântica, “ingerência” refere-se ao substantivo feminino que indica a “ação ou o efeito de ingerir ou ingerir-se”. Em outros termos, significa algum tipo de ataque à autonomia de algo ou alguém.

Pois bem. Excetuando os períodos ditatoriais, convencionalmente assim reconhecidos, “nunca como antes” (vibro com essa expressão do “filósofo” mais popular do planeta), o Brasil ouviu falar tanto dessa palavra. Não que antes as ingerências não ocorriam. Ocorriam, mas nunca como agora.

Na verdade, quase tudo que é coisa ruim, no Brasil, é coisa antiga. O atual de nossas ruindades está apenas nas recontextualizações, quantidades e novos agentes que vão emergindo. De resto, pouco novidade há: coisa de sangue, de DNA cultural. E DNA cultural ruim abrange quase todo mundo: ricos e pobres. A diferença abissal está apenas na possibilidade de um e de outro agir socialmente.

Mas voltemos às “ingerências”.

Os leitores atentos aos noticiários devem ter percebido que, exceto nas mídias tributárias do governo federal, em todas as matérias jornalísticas e entrevistas sobre os estarrecedores escândalos na Petrobras, a palavra “ingerência” foi a vitoriosa.

O auge de sua evidência na mídia se deu após a presidente Dilma – muito sem-graça – ter demitido a senhora Graça Foster e todos os demais diretores da Petrobras. A partir disso era necessário correr atrás de alguém que se dispusesse a carregar batatas quentíssimas e a descascar muitos abacaxis.

Enquanto o governo corria atrás de um nome – de um homem, pois em momento algum se falou da possibilidade de outra mulher assumir o posto –, as dificuldades desse encontro eram explicitadas à sociedade e ao deus mercado.

Dentre as dificuldades, sobressaía a ingerência, ou seja, a intromissão, os desmandos do governo naquela empresa para engrossar o caixa do PT. Por isso, ninguém do “mercado” se dispôs; logo, o governo, teve de buscar no nicho do Banco do Brasil o salvador do petróleo.

Sem entrar no mérito do desastroso encontro, pois o futuro poderá confirmar isso, quero reafirmar, na condição de professor de uma universidade federal, que a ingerência do atual governo nas universidades é ainda mais acintosa e perversa do que na Petrobras.

Durante a última campanha eleitoral, aquela foto dos reitores das federais posando ao lado de Dilma, pedindo-lhe voto, é o melhor retrato público do que estou dizendo. A universidade brasileira “nunca como antes” foi tão aviltada, tão cooptada; nunca sofreu tanta ingerência, e tudo sob o manto de democrático e social.

Docentes e discentes foram coagidos a votar em Dilma Rousseff. O discurso era o mesmo para todos: se ela não ganhar, vamos perder bolsas, programas…
Como a miséria – econômica e intelectual – se alastra entre nós como praga, ela ganhou lá dentro.

Ela ganhou e nós perdemos. Perdemos a real concepção de universidade pública. E um país quando perde essa real concepção – que o ensino superior precisa ter –, perde mais do que qualquer empresa, mesmo que seja uma Petrobras.

Reconstruir uma Petrobras – cujos bens são predominantemente materiais – deve ser bem difícil. Reconquistar a autonomia das universidades – cujos bens são predominantemente imateriais – é ainda mais difícil; e essa tarefa já deveria estar sendo feita, e não está.

Roberto Boaventura da Silva Sá
Dr. Jornalismo/USP; Prof. Literatura/UFMT

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