Por que direitos LGBT incomodam tanto os governantes autoritários?

RESUMO Ensaísta sustenta que proibição da presença de transgêneros nas Forças Armadas americanas anunciada por Trump passa longe de ser manobra diversionista. Citando exemplos de outros governos autoritários no mundo de hoje, afirma que os direitos LGBT às vezes são “a” fronteira na virada em direção à autocracia.

O dia 26 de julho de 2017 marcou um aniversário pessoal para mim: um ano antes, havia publicado um artigo no qual argumentava que deveríamos deixar de lado a ideia de uma conspiração Trump-Rússia (sim, ela já estava circulando um ano atrás) para nos dedicarmos à tarefa muito mais importante de imaginar o que um governo Donald Trump poderia trazer.

Escrevi que o republicano desencadearia uma guerra interna. Embora fosse difícil prever qual seria o alvo, “aposto que será a comunidade LGBT, porque sua aceitação é a mudança social mais inequívoca e drástica vista nos EUA nos últimos dez anos, de modo que uma campanha antigays captaria o desejo de voltar atrás para um tempo em que os eleitores de Trump se sentiam à vontade”.

Era só um raciocínio hipotético: ao mesmo tempo em que apresentava um argumento que julgava ser lógico, eu mesma não acreditava no que dizia. No último dia 26, exatamente um ano depois de eu fazer essa previsão, o presidente Trump anunciou –por meio de um tuíte– que transgêneros não poderão mais servir nas Forças Armadas americanas.

[Se efetivada,] essa reversão de política terá efeito direto e imediato sobre milhares de pessoas.

Muitos comentaristas classificaram o anúncio como manobra diversionista, como tentativa do presidente de tirar o foco da história sobre uma conspiração com a Rússia, ou da batalha em torno da possível revogação da lei de saúde do governo Barack Obama, ou de qualquer outra coisa que eles considerem mais importante que a declaração feita por Trump de acordo com a qual alguns americanos são cidadãos de segunda classe.

Trata-se não apenas de um insulto grave aos transgêneros mas também de incompreensão primária da lógica emocional do trumpismo.

Essa é a lógica que o presidente americano compartilha com a maioria dos que governam com mãos de ferro hoje em dia, e foi ela que tornou tão previsível seu ataque aos direitos LGBT, mesmo em 2016, quando Trump estava literalmente cobrindo o corpo com uma bandeira de arco-íris.

Trump elegeu-se prometendo o retorno a um passado imaginário –um tempo do qual não nos lembramos porque ele nunca existiu de fato, mas um tempo no qual a América era grande de uma maneira que Trump prometeu restaurar.

Trump compartilha esse tipo de nostalgia do passado com Vladimir Putin –que passou os últimos cinco anos falando dos “valores tradicionais” russos–, com o presidente da Hungria, Viktor Orbán –que avisou pessoas LGBT que elas não devem agir de modo provocante–, e com um sem-número de populistas europeus que prometem um retorno a um mítico passado “tradicional”.

Com poucas exceções, os países que se tornaram menos democráticos nos últimos anos traçaram as linhas de batalha em torno da questão dos direitos LGBT.

Moscou proibiu as Paradas de Orgulho Gay e a “propaganda de relações sexuais não tradicionais”, enquanto a Tchetchênia , tecnicamente uma região da Rússia, lançou uma campanha visando a se libertar de gays.

Em Budapeste, a Parada do Orgulho Gay virou uma marcha oposicionista anual: muitos dos participantes, senão a maioria, são pessoas heterossexuais que aproveitam esse dia para se manifestar contra o governo de Orbán.

Na Turquia de Recep Erdogan, jatos de água foram usados para dispersar a Parada do Orgulho Gay em Istambul, ao passo que a Índia de Narendra Modi voltou a criminalizar a homossexualidade (embora os direitos dos transgêneros tenham sido preservados).

No Egito, onde os gays sentiram o gostinho de novas liberdades no breve interlúdio de democracia após a revolução de 2011, eles estão sujeitos agora, sob a ditadura de Abdel Fattah al-Sissi, a assédio e vigilância constantes. Centenas de gays já foram detidos.

Uma exceção importante à regra é Israel, sob a égide de Binyamin Netanyahu: o governo se gaba de sua atuação em relação aos direitos LGBT precisamente para afirmar suas credenciais democráticas –que, à exceção desse ponto específico, são esfarrapadas, numa tática que a escritora Sarah Schulman chamou de “lavagem rosa”.

Em outras palavras, os direitos LGBT são tudo menos algo de que se fala para desviar a atenção de algo maior. Eles são uma fronteira, às vezes “a” fronteira na virada global em direção à autocracia.

A sedução da autocracia está em sua promessa de simplicidade radical, de ausência de escolha. No passado imaginário ao qual Trump faz referência, cada pessoa ocupava seu devido lugar e tinha um futuro circunscrito, todos e todas as coisas eram exatamente o que pareciam ser e o governo era comandado por um homem isolado que emitia ordens que não podiam e não precisavam ser questionadas.

A própria existência de pessoas LGBT, especialmente de pessoas transgênero, constitui uma afronta a essa visão.

Os transgêneros complicam as coisas, eles colocam o futuro em dúvida pelo fato de moldarem seu próprio futuro, acrescentam camadas de interpretação às aparências e contestam a lógica de que um homem isoladamente possa decidir o destino de um povo e um país.

Podemos rir da ideia de uma proibição russa da “propaganda homossexual” –como se a visão da homossexualidade ostentada abertamente, ou até mesmo a imagem de um arco-íris, fosse capaz de converter um heterossexual em homossexual (sim, isso já foi alegado).

Ao mesmo tempo, as pessoas LGBT formam um alvo ideal para a propaganda do governo na Rússia, porque a própria ideia de haver pessoas LGBT serve de representação conveniente de uma era de liberalização hoje repudiada.

Antes da queda da União Soviética, em 1991, o mundo LGBT era impensável. Depois, ele se tornou possível, ao lado de tantas outras coisas. A vida se tornou complexa, repleta de possibilidades e incertezas. E virou assustadora, porque nada mais era certeza absoluta.

Esse medo atravessa fronteiras geográficas; ele é mais ou menos igual em países que nunca foram comunistas e em sociedades que aparentemente nunca foram fechadas. A perda repentina da segurança econômica, o desaparecimento de profissões e carreiras longevas, a sensação crescente de um mundo transformado por movimentos migratórios, tudo isso coincidiu com a visibilidade crescente das pessoas LGBT.

Também nos EUA, a visão de uma pessoa LGBT é capaz de desencadear o medo da mudança.

A campanha de Trump foi baseada na palavra “novamente”, no compromisso de “recuperar” um senso de segurança, de “trazer de volta” um tempo em que as coisas eram mais simples. Quando prometeu construir o muro ou combater uma série de ondas de criminalidade (urbana, de imigrantes) inexistentes, referia-se a proteger os americanos do estranho, do desconhecido, do imprevisível.

Também aqui as pessoas LGBT podem servir como paradigmas convenientes. Ao tuitar que decidiu banir transgêneros das forças militares, Trump mostra que é o autocrata que foi eleito para ser: ele é capaz de controlar as pessoas, emitindo uma ordem.

Essa ordem justapõe os militares –símbolos da segurança dos americanos– aos transgêneros, que provocam sentimentos de ansiedade em tantos americanos.

Olhar para uma pessoa que encarna a possibilidade de escolha –a possibilidade de ser ou de se tornar diferente– pode ser como olhar dentro do abismo da incerteza. Nesse sentido, assistir a uma Parada Gay ou ver um transexual pode provocar uma sensação muito estranha em uma pessoa hétero: é uma manifestação das possibilidades e torna o mundo assustador.

É algo que remete ao dilema moderno sobre o qual escreveu o psicólogo social Erich Fromm (1900-80) em seu livro sobre a ascensão do nazismo, “O Medo à Liberdade” (Zahar): a capacidade de se inventar.

A pessoa não nasce mais comerciante ou camponesa, residente de um bairro específico pela vida inteira, homem ou mulher. Essa liberdade pode ser sentida como uma carga insuportável para carregar.

Não é por acaso que a legislação antitransgêneros mais notória dos EUA –a lei da Carolina do Norte sobre o uso de banheiros públicos– pinçou a certidão de nascimento como o documento mais importante.

Ao ordenar que as pessoas usem os banheiros públicos do sexo que lhes foi designado ao nascer, a lei criou uma situação em que algumas pessoas com aparência feminina, que agem como mulheres, têm cheiro de mulher, se identificam como mulheres e vivem como mulheres são obrigadas a usar o banheiro masculino, e vice-versa. A lei definiu que a posição da pessoa no mundo é determinada a partir de seu nascimento.

Pelo último meio século, o movimento LGBT nos EUA fez de tudo para acomodar a ideia de que a identidade de uma pessoa já está presente desde o nascimento.

“Nascido assim” tem sido o mantra que possibilitou muitos dos avanços políticos e a aceitação cultural das pessoas LGBT, mesmo que tenha afastado do debate público a experiência de escolha vivida por muitas pessoas LGBT.

Mas nem todo o esforço no mundo de afirmar que as pessoas LGBT “não têm como não ser assim” é capaz de aliviar a ansiedade provocada pela visão de pessoas transgredindo os papéis de gênero. É a esse tipo de ansiedade que Trump se dirigiu como candidato e a que ele se dirigiu novamente com sua promessa aparente de expurgar os transgêneros que já estão servindo nas Forças Armadas.

Não se trata de uma distração, de algo para desviar a atenção das pessoas: esse é o próprio coração do trumpismo.

MASHA GESSEN, 50, jornalista russo-americana, é autora de “Palavras Quebrarão Cimento” (Martins Fontes). Seu texto foi publicado originalmente na “New York Review of Books”.

Fonte: http://m.folha.uol.com.br/amp/ilustrissima/2017/08/1907002-por-que-direitos-lgbt-incomodam-tanto-os-governantes-autoritarios.shtml

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