Dominar corações e mentes – Le Monde Diplomatique.

Dominar corações e mentes

Com um passado genocida, escravagista, expansionista e colonialista, os Estados Unidos da América do Norte, talvez cansados de sua excessiva brutalidade, aspiram agora a se instalar pacificamente em nossos cérebros e seduzir nossos corações

por Ignacio Ramonet
Os colonizados e seus opressores sabem que a relação de dominação não se baseia apenas na supremacia da força. Passado o tempo da conquista, soa a hora de controlar as mentes. A dominação é mais eficaz se o dominado ficar inconsciente. Justamente por isso é que o grande desafio que se coloca à duração de um império consiste, a longo prazo, em sua capacidade de domesticar as mentes.

Com um passado genocida (contra os índios), escravagista (contra os negros), expansionista (contra os mexicanos) e colonialista (contra os porto-riquenhos), os Estados Unidos da América do Norte, talvez cansados de sua excessiva brutalidade, aspiram agora a se instalar pacificamente nos cérebros de todos os não-americanos e seduzir seus corações.

Curiosamente, foi na tradicional Europa ocidental que esse projeto imperial encontrou menos resistência (leia o artigo de Serge Halimi nesta edição). Há, em primeiro lugar, razões políticas para isso: os Estados Unidos nasceram da primeira revolução democrática, a de 1776, treze anos antes da revolução francesa. Há também razões históricas: nenhum Estado europeu — com exceção da Inglaterra, no século XVIII, e da Espanha, no final do século XIX — teve os norte-americanos como inimigos. Pelo contrário, como “país da liberdade”, os Estados Unidos acolheram milhões de refugiados e exilados europeus; e, por ocasião das duas guerras mundiais (1914-1918 e 1939-1945) comportaram-se como amigos do Velho Continente, intervindo, de forma decisiva, em favor da liberdade e contra as potências militaristas ou fascistas.

Hegemonia militar incontestávelEm 1989-1991, os Estados Unidos ganharam a guerra fria por nocaute frente à União Soviética, arrastando a queda do Muro de Berlim e, na seqüência, a democratização dos regimes da Europa central e oriental.

No plano geopolítico, os Estados Unidos encontram-se numa situação de hegemonia jamais conhecida por outro país. Do ponto de vista militar, sua força é esmagadora. Não só são a principal potência nuclear e espacial, como também marítima. São o único país a possuir uma frota de guerra em cada um dos oceanos e em cada um dos principais braços de mar do globo. E dispõem de bases militares, de reabastecimento e de escuta em todos os continentes.

O Pentágono tem gastos, a título de pesquisa militar, da ordem de 31 bilhões de dólares, o equivalente ao orçamento total da Defesa na França. Em matéria de armamento, está várias gerações à frente. As forças armadas norte-americanas (1,4 milhão de soldados) têm condições de identificar, seguir e escutar o que quer que seja — no ar, em terra ou debaixo d’água. Podem ver praticamente tudo sem serem vistas e, mesmo sem estarem sob ameaça, podem destruir qualquer alvo, de dia ou de noite, com extrema precisão. [1]

Regente da política internacionalAlém disso, Washington dispõe de uma impressionante variedade de agências de informações — Central Intelligence Agency (CIA), National Security Agency (NSA), National Reconnaissance Office (NRO), Defense Intelligence Agency (DIA) — que empregam mais de 200 mil pessoas e cujo orçamento supera 23 bilhões de dólares. Seus espiões estão presentes o tempo todo e por toda a parte. Espionando amigos e inimigos. Roubam segredos diplomáticos, militares, industriais, tecnológicos e científicos.

No que se refere a relações exteriores, a hiperpotência norte-americana rege a política internacional. E acompanha as crises em todos os continentes. Pois tem interesses por toda a parte e é o único país com poder de agir, entre todos os que compõem o tabuleiro de xadrez da geopolítica mundial: do Oriente Médio ao Kosovo, de Timor a Taiwan, do Paquistão ao Cáucaso, do Congo a Angola, de Cuba à Colômbia.

O peso de Washington é igualmente decisivo dentro das instâncias multilaterais cujas opções determinam os destinos do mundo: Organização das Nações Unidas (ONU), G7 (grupo dos sete países mais industrializados), Fundo Monetário Internacional (FMI), Banco Mundial (Bird), Organização Mundial do Comércio (OMC), Organização de Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) etc.

O domínio na área científicaMas como a superioridade de um império, no contexto contemporâneo, não se mede apenas pelos trunfos militares e diplomáticos, os Estados Unidos também garantiram o domínio na área científica. A cada ano, sugam, como uma bomba, dezenas de milhares de cérebros (estudantes, pesquisadores, graduados) do resto do mundo, que vêm para suas universidades, seus laboratórios, suas empresas. Isto permitiu-lhes, nos últimos dez anos, abocanhar o prêmio Nobel de Física (19 de um total de 26), de Medicina (17 entre 24) e de Química (13 entre 22).

Também no que se refere às redes econômicas, os Estados Unidos exercem uma supremacia indiscutível. O seu Produto Interno Bruto foi, em 1999, de 8,7 trilhões de dólares (uma cifra mais de seis vezes superior àquela da França). O rei-dólar permanece a moeda suprema; em 83% das transações de divisas, o dólar é uma das moedas negociadas. [2]A Bolsa de Nova York constitui o barômetro financeiro universal e seus soluços, tais como os do índice Nasdaq no mês de abril (leia dossiê sobre a Nova Economia nesta edição), fazem tremer o planeta. Finalmente, há ainda o enorme peso dos fundos de pensão norte-americanos — mastodontes que reinam sobre os mercados financeiros —, que intimidam todos os atores da esfera econômica mundial.

A “dominação carismática”Os Estados Unidos também são a primeira ciberpotência. Dominam todas as inovações tecnológicas, as indústrias digitais, extensões e projeções (materiais ou imateriais) de toda a ordem. É o país da Web, das infovias, da “nova economia”, dos gigantes da informática (Microsoft, IBM, Intel) e dos campeões da Internet (Yahoo, Amazon, America On Line).

E por quê uma tão esmagadora supremacia militar, diplomática, econômica e tecnológica não suscita um maior número de críticas ou de resistências? Porque, além do mais, os Estados Unidos da América do Norte exercem uma hegemonia no campo cultural e ideológico. Detêm o domínio do simbólico — o que lhes permite acesso ao que Max Weber chama a “dominação carismática”.

O vocabulário, os conceitos e o sentidoEm inúmeros setores, os Estados Unidos asseguraram o controle do vocabulário, dos conceitos e do sentido. Em caso de necessidade, obrigam a que o problema criado por eles seja relatado numa linguagem que eles próprios propõem. Fornecem códigos que permitem resolver enigmas que eles próprios impõem. E, para fazê-lo, dispõem de grande quantidade de instituições de pesquisa e de “reservatórios de idéias” (think tanks) que contam com a colaboração de milhares de analistas e especialistas. Que produzem informação sobre questões jurídicas, sociais e econômicas numa perspectiva favorável às teses neoliberais, à globalização e ao mundo de negócios. O fruto de seu trabalho, generosamente financiado, é repassado aos meios de comunicação e difundido em escala mundial. [3]

Os principais fabricantes desta persuasão clandestina — o Manhattan Institute, a Brookings Institution, a Heritage Foundation, o American Enterprise Institut, o Cato Institut — não hesitam em convidar para seus seminários e debates, de forma generosa e maciça, jornalistas, professores, administradores públicos, dirigentes que, posteriormente, irão se encarregar de disseminar a boa nova.

Cavalos de Tróia do senhorApoiados no poder da informação e das tecnologias, os Estados Unidos conseguem estabelecer, com a cumplicidade passiva dos dominados, aquilo que se poderia chamar uma opressão simpática, ou um delicioso despotismo. Principalmente quando esse poder exerce, simultaneamente, o controle sobre as indústrias culturais e o domínio sobre o nosso imaginário.

Os Estados Unidos povoam nossas mentes com uma multidão de heróis da mídia. Cavalos de Tróia do senhor na intimidade de nossos cérebros. Ao mesmo tempo que não compram senão 1% dos filmes no exterior, inundam o mundo inteiro com as produções de Hollywood (leia, nesta edição, o artigo de Carlos Pardo). E tele-filmes, desenhos animados, video-clipes, histórias em quadrinhos etc. Isso, sem falar nos modelos de roupas, urbanísticos ou culinários (ler o artigo de Rick Fantasia, nesta edição).

O templo, lugar sagrado onde são cultuados os novos ícones, é o shopping center, catedral erigida à glória de todo o consumo. Nesses lugares de fervor, elabora-se através do planeta uma sensibilidade fabricada por logotipos, por stars, por canções, por ídolos, por marcas, por objetos, por cartazes, por festas (cf. a crescente divulgação, pelos meios de comunicação, do halloween).

Tudo isso acompanhado por uma retórica sedutora de liberdade de escolha e de liberdade de consumo. E martelado por uma publicidade obsessiva e onipresente (as despesas com publicidade chegam a mais de 200 bilhões de dólares por ano, nos Estados Unidos!) que se dirige tanto aos símbolos quanto aos bens. [4]O marketing tornou-se tão sofisticado que aspira a vender, não uma marca, mas uma identidade; não um traço social, mas uma personalidade. Sempre segundo o princípio: ter é ser.

O grito de alerta de HuxleyPortanto, é urgente lembrar o grito de alerta lançado por Aldous Huxley em 1931: “Numa época de tecnologia avançada, o maior perigo para as idéias, para a cultura e para o espírito pode mais facilmente vir de um inimigo sorridente que de um adversário que inspira o terror e o ódio.”

Senhor dos símbolos, o império norte-americano nos é apresentado com a aparência sedutora dos encantadores de sempre. São propostas atividades de lazer para dar e vender, diversões a granel, docerias para os olhos. O império já não procura obter nossa submissão pela força, mas pelo encantamento, não atendendo a uma ordem, mas por nosso próprio consentimento. Não pela ameaça de punição, mas apostando em nossa sede de prazer. Por nossa iniciativa, esse novo hipnotizador penetra em nosso pensamento e ali enxerta idéias que não são nossas. Para melhor nos subjugar, nos escravizar e nos domesticar.

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Ignacio Ramonet

é jornalista, sociólogo e diretor da versão espanhola de Le Monde Diplomatique.
[1] Le Nouvel Observateur, Paris, 3 de junho de 1999.

[2] Cf. Peter Gowan, “Le régime dollar-Wall Street d’hégémonie mondiale”, in Actuel Marx, nº 27, edição especial consagrada a “L’hégémonie américaine”, datada do primeiro semestre de 2000, ed. PUF, Paris.

[3] Ler, de Herbert I. Schiller, “La Fabrique des maîtres. Décervelage à l’américaine”, Le Monde Diplomatique, agosto de 1998.

[4] Ler, de Benjamin R. Barber, “Culture McWorld contre démocratie”, Le Monde Diplomatique, agosto de 1998.

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