A definição de beleza em Hegel

A definição de beleza em Hegel

Por Robson Stigar

Para Hegel existe uma diferenciação fundamental entre o belo artístico e o belo natural. O belo da arte está diretamente relacionado com a pureza do espírito enquanto que o belo natural encontra-se diretamente submisso a realidade da natureza.

Nesta perspectiva o “belo artístico exclui o belo natural” uma vez que para o espírito é preciso desenvolver as suas potencialidades, enquanto que a natureza já possui todas as condições determinadas e suas leis são duras.

Assim, Hegel contraria a opinião corrente que considera “a beleza criada pela arte seria inferior a da natureza” sendo portanto contrario também a proximidade da beleza artística em relação a natureza, imitar não é a maiorvirtude de beleza artística.

Deste modo, “julgamos nós poder afirmar que o belo artístico é superior ao belo natural por ser um produto do espírito, que superior á natureza comunica esta superioridade aos seus produtos, e, por conseguinte, à arte” sendo superior ao belo natural o belo artístico.

Desta maneira a criação mais bela emanado espírito porque é nele que as coisas são puros objetos, realidade perfeitas e potencialmente organizadas sem condicionamento prévio ou limitação de beleza.

Na Antiguidade, o belo é tratado por Platão, Aristóteles e Plotino. O Hípias Maior é o diálogo que mais demoradamente se ocupa da definição do belo em si (auto to kalon), um traço que seja comum a todos os objetos supostamente belos. No Simpósio e no Fedro, o problema do belo concorre com o do amor. O Simpósio é em grande parte a procura de uma solução para a questão: “Eros é o amor do belo?”(204d).

O amor é sempre um delírio (mania) que nos conduz à visão do belo sensível (“Somente a Beleza tem a ventura de ser mais perceptível e cativante!”, Fedro, 250d). Neste diálogo, Sócrates pergunta a Agatão: “Não achas que o belo é simultaneamente bom?” (201c).

O diálogo não chega a ser conclusivo. Aristóteles, na Metafísica, chama já a atenção para a diferença entre o belo  e o bem: o bem implica sempre ação e o belo pode ser encontrado nas coisas imóveis. Aristóteles considera depois três formas superiores do belo: a ordem, a simetria e o limite, formas que a matemática demonstra especialmente.

Como a simetria diga respeito fundamentalmente às artes plásticas, Aristóteles não a menciona na Retórica, onde volta ao assunto. A ordem encontra-se na estrutura formal da tragédia; a limitação diz respeito à extensão da tragédia. Estes princípios filosóficos são aplicados à literatura na Poética: “o belo consiste na grandeza e na ordem, e, portanto, um organismo vivente pequeníssimo não poderia ser belo (…); e também não seria belo, grandíssimo.” (1450b). Não se encontra em Aristóteles, contudo, uma especulação sistemática sobre o belo.

Em as Enéadas, Plotino também discorre brevemente sobre o assunto, pondo em causa a idéia de que o belo possa ser medido pela grandeza e pela ordem. Plotino segue ainda Platão e conclui que tais critérios apenas servem a beleza física, ignorando a beleza moral.

O conceito de belo entra na crítica da obra de arte de parceria com as noções de gosto, de equilíbrio, de harmonia, de perfeição – efeitos que se produzem no sujeito apreciador. Parece ser condição necessária ao despontar do sentimento do belo a sensação de prazer e/ou de simpatia. As duas principais conceituações clássicas do belo apresentam-no como “o que é agradável à vista e ao ouvido” (Platão, Hípias Maior, e S. Tomás de Aquino).

Hípias propôs a Sócrates que o belo fosse o útil. Mas sabemos que são coisas distintas, porque as coisas úteis não são necessariamente belas e vice versa. O útil está circunscrito a uma situação particular e relativa; o belo é independente de qualquer condição. O belo julga-se por si mesmo, ao passo que o útil deseja-se em função de um propósito. Como observou Kant, o belo “agrada sem conceito”, porém só podemos dizer de algo que é útil quando o sujeitamos à experiência ou à ponderação.

O sublime não é apenas o belo elevado ao seu mais alto grau. Da mesma forma, por analogia, o bonito não é simplesmente o belo reduzido à sua expressão mais comum. O sublime exige a condição de ilimitado: é sublime o que se nos escapa no juízo imediato do belo. O sublime é aquilo que a imaginação não consegue deter; o belo é detível pela imaginação e encontra-se num objecto finito. O bonito (e todas as variantes de menoridade do belo como o gracioso, o lindo, o encantador) é o belo sem grandeza de espécie limitada.

A avaliação de um objeto em termos de sublime, belo ou bonito é a mais subjetiva das atividades judicativas do homem. Trazida tal avaliação para a literatura, não se aceita hoje que tais atributos possam ser determinados objetivamente para a leitura crítica do texto literário. A crítica impressionista que dominou o século XIX pode reclamar o contrário, mas todas as correntes críticas do século XX tendem a não considerar os juízos meramente subjetivas como aceitáveis na apreciação das obras de arte literária.

Não é possível dissociar o belo do seu antónimo: o feio. O adágio “Quem o feio ama bonito lhe parece.” mostra que os juízos sobre o belo e o feio são potencialmente arbitrários. Se um objeto é considerado feio é porque não possui aquilo que se julga ser belo, mas como tal consideração é sempre subjetiva, o que é feio para uns pode ser até sublime para outros e vice versa. Nem o cômico pode servir de meio de apuramento do belo e do feio, porque tanto podemos rir de uma coisa bela como de uma feia, embora seja esta última, quando associada sobretudo ao ridículo, que provoca mais vezes o riso.

O belo só faz sentido para o homem, por isso tem que ser uma categoria que está presente no Ser do homem. Mas o belo não é determinante do Ser de todas as coisas para que se dirige. Daquilo que dizemos ser belo, extrai-se um juízo de valor que afeta a existência em si do objeto analisado. Como defende Kant, na Crítica da Faculdade de Julgar (I, 2), uma coisa é bela em função de uma simples observação subjetiva, não se colocando em causa a existência que a coisa tem em si mesma. Kant distingue o belo do bom (o que agrada por meio da razão) e do agradável (o que exige a aceitação dos sentidos).

O belo resulta de uma reflexão subjetiva sobre um objeto, sem haver necessidade de saber que coisa deva ser esse objeto (a não ser que queiramos determinar se ele é bom), ou seja, uma coisa bela não pede um conceito sobre a coisa em si. Uma flor pode ser considerada bela sem produzirmos um conceito sobre a sua realidade como flor. Como o juízo do belo é meramente contemplativo (por isso tem um alcance crítico limitado na apreciação de uma obra de arte) e sem qualquer interesse, não pode ser um juízo do conhecimento. Quer dizer, o belo não está alicerçado em conceitos nem tem por fim chegar até eles.

Desta definição parte Kant para uma importante distinção: “Há duas espécies de beleza: a beleza livre (pulchritudo vaga) e a beleza simplesmente aderente (pulchritudo adhaerens). A primeira não pressupõe nenhum conceito do que o objeto deva ser; a segunda pressupõe um tal conceito e a perfeição do objeto segundo o mesmo. (…) Flores são belezas naturais livres. (…) No entanto, a beleza de um ser humano (…) pressupõe um conceito do fim que determina o que a coisa deve ser, por conseguinte um conceito da sua perfeição, e é portanto beleza simplesmente aderente.” (I, 16).

Os comentadores posteriores do belo parecem concordar com a existência de duas espécies de belo. Hegel começa a sua Estética distinguindo desde logo o belo artístico do belo natural. Este segundo tipo de belo (que equivale ao “belo livre” de Kant) fica de fora da estética que se deve ocupar apenas do belo criado pela arte.

É a única forma de trazermos o conceito do belo para a teoria literária: o belo do texto literário é, invariavelmente, um belo artístico, conquanto a literatura seja uma obra de arte. Nenhum texto literário pode ter uma beleza como a do Sol, que é absoluta e não é um produto do gênio.

Hegel defende o belo artístico como o único com interesse estético. O belo artístico é um produto do espírito, por isso só o podemos encontrar nos seres humanos e nas obras que eles produzem. Segundo Hegel, a Idéia do bem, da verdade e do belo completam-se, porque, em suma, só há uma Idéia. Tudo o que existe contém a Idéia. A estética ocupa-se em primeiro lugar da Idéia do belo artístico como ideal.

A estética hegeliana foi desprezada no século XIX, vencida pelo psicologismo dominante. Na Itália, Francesco de Sanctis preservou a lição de Hegel e o seu sucessor, Benedetto Croce, com a Estética come scienza dell’espressione e linguistica generale (1902), redescobre a visão idealista do belo. Propondo a a abolição das fronteiras entre todas as artes e entre todos os géneros literários, Croce defende todo o acto artístico como expressão, origem do “lirismo”. Conquanto as obras de arte sejam formas de lirismo, serão sempre arte com valor estético.

No marxismo, a estética de Hegel também encontrou defensores. Se os fundadores do marxismo apenas dedicaram ao problema do belo breves comentários, autores contemporâneos como Lukács e Brecht  empenharam-se na definição do belo artístico como expressão do homem social, trabalhador e criador. Visando a unidade do verdadeiro, do bom e do belo, a estética marxista-leninista vai mais além da obra de arte na procura do significado do belo.

Toda a obra de arte é um reflexo da consciência social. O belo não é uma realidade absoluta e intocável pelo humano: o belo é o resultado do trabalho humano realizado em comunidade.
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